Blog do Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

A arquitetura do medo

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Enquanto administrações pretendem – nem sempre cumprem – “revitalizar o centro”, a fuga para o entorno prossegue. O governo não se apercebe de que as ingratas classes superiores já fizeram as malas rumo ao subúrbio. Os pobres resistem duramente ao despejo do núcleo urbano e os mais abonados trocam voluntariamente seus antigos bairros por loteamentos temáticos murados na periferia. 

Até mesmo na China o condomínio fechado foi chamado de “evolução mais importante do planejamento e da concepção urbana recente”. Esses “mundos de fora” (off  worlds), para recorrer à terminologia do filme “Blade Runner”, de Ridley Scott, costumam ser imaginados como réplicas do sul da Califórnia. Nomes estrangeiros, principalmente americanos, proliferam nesses núcleos. “Beverly Hills”, “Orange County”, “Palm Springs” estão em todos os lugares. 

A busca de segurança e isolamento social é obsessiva e universal. Tudo se iguala: um sistema complexo de portões de ferro, bloqueios e postos de controle demarca as fronteiras da área e isola-a do restante da cidade. As ameaças à vida, às partes do corpo e à propriedade são a maior preocupação de todos os ricos moradores. 

As casas transformam-se, praticamente, em fortalezas, cercadas de altos muros, encimados por cacos de vidro, arame farpado, fios eletrificados, enquanto pesadas barras de ferro e sofisticados sistemas de alarme estão em todas as janelas. Em conjunto com aparelhos portáteis, com “botões de pânico”, os alarmes domésticos ligam-se eletronicamente a empresas de segurança de “reação armada”. Essa “arquitetura do medo” é lugar-comum no Terceiro Mundo. 

Mas chega a extremos mundiais nas grandes sociedades urbanas com as maiores desigualdades socioeconômicas, de que São Paulo faz parte. Nesses conjuntos, a segurança transformou-se numa cultura do absurdo. Outros lugares fazem “aldeias de segurança”, com cercas de 10 mil volts desenvolvidas para provocar um choque enorme e pulsante capaz de incapacitar, sem na verdade matar, qualquer intruso. Como se falar em solidariedade, fraternidade, justiça social, convívio harmônico, se o que prepondera hoje é o sentimento generalizado de pânico?

José Renato Nalini é Desembargador da Câmara Especial do Meio Ambiente do Tribunal de Justiça de São Paulo. E-mail:jrenatonalini@uol.com.br.

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Autor: Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

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