Blog do Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

A cidade e os Jogos Olímpicos

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Os modernos Jogos Olímpicos têm uma história especialmente sinistra, embora pouco conhecida. Durante os preparativos para os Jogos de 1936, os nazistas expurgaram impiedosamente os sem-teto e favelados de Berlim. Embora os subsequentes – Cidade do México, Atenas e Barcelona – também tenham sido acompanhados por renovação urbana e despejos, os Jogos de Seul, em 1988, foram sem precedentes na escala da perseguição oficial aos pobres. 

Cerca de 720 mil pessoas foram removidas em Seul e Incheon. A ONG Instituto Católico para Relações Internacionais chegou a afirmar que a Coréia do Sul rivalizava com a África do Sul como “o país no qual o despejo à força é mais violento e desumano!” Beijing seguiu o precedente de Seul para os Jogos de 2008. 350 mil pessoas foram reassentadas para abrir espaço tão somente necessário à construção de estádios. 

A excitação patriótica inerente aos Jogos Olímpicos é manipulada para justificar os despejos em massa e a ocupação egoísta de terrenos no coração da cidade. Anne-Maria Broudehoux, em seu livro “Criação e venda da Beijing pós-Mao”, de 2004, afirma que no capitalismo de Estado da China, a preferência atual é esconder a pobreza por detrás de fachadas do “tipo Potenkin” e não reduzi-la substancialmente.

E já houve experiência na mesma China, em 1996, quando da comemoração do 50º aniversário da Revolução. Durante mais de 2 anos, os beijineses sofreram a desorganização causada pelas diversas campanhas de embelezamento iniciadas para camuflar as feridas sociais e físicas da cidade. Centenas de casas foram demolidas, milhares de pessoas despejadas, e bilhões de iuanes dos contribuintes foram gastos para construir uma fachada de ordem e progresso.

Para garantir que as cerimônias cuidadosamente planejadas se realizassem com perfeição, a capital foi levada a uma paralisação enquanto durou a semana de festividades. Os moradores de Pequim receberam ordens de ficar em casa e acompanhar a festa pela televisão, como fizeram na cerimônia de abertura dos Jogos Asiáticos. Dir-se-á que não corremos o risco, pois somos bagunceiros e desorganizados. Aliás, o atraso na infraestrutura é prova disso. Mas é sempre bom se precaver.

José Renato Nalini é Desembargador da Câmara Especial do Meio Ambiente do Tribunal de Justiça de São Paulo. E-mail:jrenatonalini@uol.com.br.

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Autor: Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

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