Blog do Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.


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Consumo e consumismo são sinônimos?

O texto abaixo foi enviado pelo Getúlio Costa Melo, de MG, leitor do blog!

Compras. Palavra esta de desejo pessoal e de grande interesse econômico. Um dos produtos de destaque no mercado brasileiro desde 1990 é o aparelho celular. De lá pra cá inúmeros modelos foram distribuídos nas prateleiras das lojas de eletroeletrônicos, variando de tamanho, peso, cor, acessórios e tecnologia. Mas pensamos um pouco. Porque o aparelho celular, num curto período de tempo, evoluiu tão rapidamente? Existe uma palavra para caracterizar tais mudanças?

Muitas pessoas, principalmente aquelas ligadas ao comércio em geral, entendem que consumo e consumismo são sinônimos. O dicionário Aurélio define que: “Consumo: Ato ou efeito de consumir, gastar. – Consumismo: Sistema que favorece o consumo EXAGERADO”. Com um pensamento lógico, consumismo enquadra perfeitamente para tais mudanças comentadas.

A lei da física nos ensinou que para ocorrer uma reação, conseqüentemente deverá ocorrer uma ação. E qual o mecanismo atual utilizado para que o consumismo adentre no íntimo de cada pessoa?

A mídia, em especial à televisionada, fomenta o enriquecimento das propagandas consumistas, fazendo com que cada vez mais fiquemos alienados, viciados, “tarados” em realizar compras não necessárias.

Algumas pessoas falarão que o consumismo é algo de grande importância para toda sociedade, trazendo novas empresas para o país, fazendo com que haja novas vagas de emprego. Em resumo, estimulação à evolução social.

Este pensamento é totalmente ignorante. Dizer que consumismo é algo que traz uma EVOLUÇÃO SOCIAL, demonstra que a pessoa possui um alto índice de miopia social ou até mesmo já se encontra alienado por consumo não sustentável.

Importantíssimo que todos nós tenhamos consciência que a cada compra realizada, em especial os aparelhos eletrônicos, incentivamos grandes empresas à exploração de minerais. O estudo dos 5 R’s (REPENSAR hábitos e atitudes, REDUZIR a geração e o descarte, REUTILIZAR aumentando a vida útil do produto, RECICLAR transformando num novo produto, RECUSAR produtos que agridam o ambiente e a saúde) deve ser levado em conta para o bem de todas as pessoa, tanto presentes e quanto futuras.

 

Getúlio Costa Melo é acadêmico do 7º período da Faculdade de Direito do Centro de Estudos Superiores Aprendiz e membro fundador da Associação Socioambiental “Filhos da Estrelas”.

Lattes: http://lattes.cnpq.br/4887518407176352

Email: getulio@filhosdasestrelas.org.br

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Ninguém quer ser infeliz

O ser humano sempre teve como objetivo de vida obter a felicidade. Mas “felicidade” é algo intangível. É próprio da natureza dos “caniços pensantes” ostentar eterna insatisfação. Alcançou-se a meta estabelecida e logo outra surge para ser alcançada. Por isso Santo Agostinho disse nas “Confissões” que sua alma só descansou quando chegou ao Criador. O livro “A História da (In)Felicidade”, de Richard Schoch (Editora Best Seller), se propõe a reconstituir a trajetória dessa busca.

Os princípios motores de qualquer atividade humana são o prazer, o desejo, a razão e o sofrimento. O prazer é sedutor, mas também nos escraviza. O hedonismo é prova de que submeter-se incondicionalmente ao império do prazer torna o ser humano um animal irracional, incontrolável e detestável. Irmão gêmeo do prazer é o desejo. Outra força perigosa, muito mais do que a energia atômica. Por desejo esquecem-se valores, sepultam-se pudores. 

É a cegueira inclemente dos tsunamis que destroem a frágil estrutura moral edificada com sacrifício e lentidão durante o processo formativo da personalidade. A razão já teve o seu primado, mas a história recente da humanidade mostra que ela deixou de ser um imperativo categórico. O Brasil mostra todos os dias a irracionalidade a campear em todos os espaços, notadamente na Administração Pública. O setor encarregado de atender ao bem comum, hoje impregnado de corrupção, ilicitude e mentira. Quando “os de cima não têm vergonha, os debaixo sentem-se liberados”.

O último princípio motor é o sofrimento. A vida sempre tende a oferecer mais dores do que alegrias. Estas são pequenos intervalos entre angústias e a verdade é que nada mais apropriado do que chamá-la “vale de lágrimas”. Aproveitemos estes flashes: o convívio amorável, a contemplação do pôr do sol, as últimas paisagens, antes que tudo se converta em concreto e asfalto. 

O sorriso das crianças, que continuam a nascer, mesmo com este mundo feio e cruel que estamos construindo para elas. Façamo-lo com um pouco ao menos de consciência. Porque de repente, não mais do que de repente, está ela à nossa espera, para levar-nos sem piedade, rumo ao ignorado, por mais forte seja a crença.

José Renato Nalini é Desembargador da Câmara Especial do Meio Ambiente do Tribunal de Justiça de São Paulo. E-mail: jrenatonalini@uol.com.br.


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O caos urbano

522 mil pessoas ocupam área de risco em São Paulo. O problema é da região metropolitana, embora em cada seis lugares perigosos, um situa-se na capital. Esse o resultado de uma pesquisa da Fundação Seade realizada para a Secretaria da Habitação. Mas a questão urbana é um mal estadual. As áreas de risco não se concentram somente na Região Metropolitana e no litoral. Localizam-se em 3.042 lugares impróprios que se localizam em 232 dos 645 municípios paulistas. As favelas são 4.153, distribuídas por 133 municípios, ou seja, 20% do Estado. Favela é algo que não deve existir. Em lugar daquela política leniente de “urbanizar”, regularizando o que é insuscetível de regularização, o administrador tem de ter coragem para substituir a submoradia por morada digna.

 

A moradia é hoje um direito fundamental consagrado no texto constitucional. E Constituição deve valer. Não pode ser desconsiderada. Os direitos nela constantes devem constituir a prioridade de cada administrador. Ele não tem o direito de eleger preferências que não se compatibilizem com a ordem hierárquica dos direitos estabelecidos no pacto federativo. Também é criminoso permitir que essas aglomerações continuem a surgir. O Estado – seja a União, o Estado federado ou o Município e todas as suas exteriorizações: agências, empresas públicas, paraestatais e organismos criados para atender às funções de governo – tem obrigação de prevenir. Por isso é que a responsabilização do Poder Público pelas catástrofes e pelas vidas perdidas não pode ser negligenciada.

 

No verão passado, 29 pessoas morreram no Estado de São Paulo em virtude de alagamentos e desmoronamentos. Em 2010, a cidade histórica de São Luiz do Paraitinga foi quase totalmente destruída por um temporal.  Devolver as áreas dos mananciais a tais cursos, cuja essencialidade é manifesta, remover os invasores de áreas impróprias – declives, margens dos rios, margens das represas – é obrigação do Poder Público. Se ele não fizer isso, deverá responder – administrativa, civil e criminalmente – por sua omissão.  Infelizmente, às vezes é necessário sancionar para que os gestores façam aquilo para o que foram eleitos.   

 

José Renato Nalini é Desembargador da Câmara Especial do Meio Ambiente do Tribunal de Justiça de São Paulo. E-mail:jrenatonalini@uol.com.br.


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O poder se putrefaz

Em “As Cidades Invisíveis”, Italo Calvino dá voz a Marco Polo, que conta ao imperador Kublai Khan como são as cidades por ele conquistadas. Em determinado ponto das narrativas que se sucedem quais fábulas, repletas de símbolo, o poderoso Kublai Khan o interrompe. “Era uma daquelas noites em que um vapor hipocondríaco premia o seu coração”. E indaga: “As suas cidades não existem. Talvez nunca tenham existido.

Certamente não existirão nunca mais. Por que enganar-se com essas fábulas consolatórias? Sei perfeitamente que o meu império apodrece como um cadáver no pântano, que contagia tanto os corvos que o bicam quanto os bambus que crescem adubados por seu corpo em decomposição. Por que você não me fala disso? Por que mentir para o imperador dos tártaros, estrangeiro?”

Todo governante deveria ter alguém que o servisse com lealdade e com franqueza. Os áulicos não costumam dizer as verdades, senão aquilo que deles se espera venham a dizer. Se fosse mostrado ao governante que seu povo está sobrecarregado de tributos, que os serviços de saúde, transporte, educação, saneamento básico e segurança não atendem às necessidades e expectativas, talvez o governante meditasse antes de tomar atitudes.

Se alguém com coragem abordasse o mal terrível da corrupção, endêmica e impregnando todos os setores da vida pública, talvez o governante fosse acometido de coragem e mandaria sair do barco as ratazanas. Se houvesse uma voz, suscetível de ser ouvida, que afastasse o ufanismo e pudesse demonstrar que não há grandes motivos para comemorar, se a Nação está num dos últimos lugares do ranking da educação, tem um pífio índice de qualidade de vida, suas universidades não aparecem na relação das duzentas melhores de todo o globo, então poderia o governante assumir as rédeas do poder. 

Reagiria, agradeceria a esse interlocutor que aos olhos dos convivas e dos sequiosos por se abeberarem das fontes do tesouro pareceria cruel. Se isso acontecesse, então a Nação poderia sair da UTI da ética, deixar para trás a conivência com o mal e readquirir higidez moral. Mas haverá quem ouse falar a verdade e haverá ouvidos abertos para recebê-la com humildade?

José Renato Nalini é Desembargador da Câmara Especial do Meio Ambiente do Tribunal de Justiça de São Paulo. E-mail: jrenatonalini@uol.com.br.


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Louvado seja o criacionismo

O biólogo Fernando Reinach escreveu o artigo “Meu agradecimento aos criacionistas”, (OESP de 14.7.11) narrando sua revisita ao Museu de História Natural em Nova York. Antes de entrar, temera se decepcionar, pois talvez as cenas bucólicas criadas nos albores do século XX pudessem ter sido eliminadas pelo tsunami do “politicamente correto” que varreu os Estados Unidos. 

Mas seu temor não se confirmou. O museu está ainda melhor, porque “montou um contra-ataque eficaz ao movimento criacionista”. Lamenta a reação ao darwinismo, prestigiado pela Suprema Corte que banira o ensino do criacionismo nas escolas. Repudia o direito dos alunos de aprender que a evolução das espécies e o processo de seleção natural não passavam de uma entre as diversas explicações para a origem da biodiversidade existente na Terra. Atribui essa tendência a “burlar a decisão da Suprema Corte”.

Está convencido de que o darwinismo é uma explicação melhor, baseada em dados e experimentos. E o Museu de História Natural adotou a corrente, pois parte do material exposto foi reorganizado para demonstrar como os fósseis sugerem que as espécies mudam. O Museu ficou melhor e grande parte da melhoria se deve à pressão exercida pelo movimento a favor do design inteligente. Agradece aos criacionistas por isso.

Eu também rendo graças ao criacionismo. Ao contrário de Reinach, penso que é mais racional “a ideia de que algo tão complexo como a vida só poderia ter sido criada por um ser superior”. Sempre menciono o exemplo do “puzzle”, quebra-cabeças com 5 mil peças. É viável aguardar que, jogadas todas simultaneamente para cima, caiam a formar o desenho original? 

A vida é realmente um milagre. As precondições externas para a existência da biosfera da Terra se subordinam a algo racional. Um clima que conduza à vida na Terra depende de parâmetros orbitais muito estreitos: Vênus é quente demais, Marte frio demais e só a Terra está no ponto para a vida. Se a órbita da Terra fosse 5% menor do que é, teria havido um “efeito estufa descontrolado” e as temperaturas teriam subido até que os oceanos fervessem. Por outro lado, se a distância entre a Terra e o Sol fosse pelo menos 1% maior, teria havido uma glaciação descontrolada e os oceanos da Terra teriam congelado e teriam permanecido assim desde então, com uma temperatura média abaixo de 45º C negativos. O fato de existirmos pode ser tributado a Darwin?

 

José Renato Nalini é Desembargador da Câmara Especial do Meio Ambiente do Tribunal de Justiça de São Paulo. E-mail: jrenatonalini@uol.com.br.


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Ilusão de ótica

Vive-se a era do medo. A angústia é um sentimento generalizado em todas as idades. Teme-se, de maneira difusa, sem saber exatamente o que. Verdade que a insegurança é uma realidade inquestionável. Sai-se para trabalhar e se é colhido pela incerteza. Bala perdida, briga entre gangues, acidentes, desastres, infortúnios de toda a ordem. O crime é o que mais acontece, em esferas as mais diversas. A política do medo cotidiano impõe suas regras. As pessoas não confiam em ninguém.

Fogem dos espaços públicos e desistem de participar da vida pública. Sharon Zukin detecta o resultado disso: “Endurecer” o combate ao crime construindo mais prisões e impondo a pena de morte é uma resposta bem conhecida à política do medo”. Parece que tudo estará melhor se todos os pobres forem presos. Engraçada essa ilusão de ótica a impregnar toda a sociedade. 

Antoine Garapon, colega francês que estuda a Justiça em seu país, observou que enquanto os malfeitos cometidos pelas elites políticas ficam ocultos, o clamor público chega ao máximo e ao mais vingativo quando se trata de danos provocados ao corpo humano. Ninguém perde muito tempo a reclamar corretivo para os políticos corruptos. A sociedade absorve fácil a noção de que “não há política sem corrupção”. 

Entretanto, fica irada se um motorista atropela e mata. Indigna-se com o veneno contido no cigarro, com os transgênicos nos alimentos, com o placebo nos medicamentos. Chega ao furor se foi praticado um delito sexual. Entretanto, os grandes desmandos praticam a maior iniquidade “no atacado”, enquanto “o varejo” do crime não chega à milésima parte da nocividade dos poderosos. A percepção pública assimilou a crença em que a vida humana está repleta de perigos.

Por isso, livrar as ruas dos ostensivos e ameaçadores estranhos é a mais urgente das medidas voltadas a restaurar a segurança. Triste e trágica ilusão ótico-moral da sociedade contemporânea. Convive com os mais nefastos e quer eliminar o “trombadinha”. Não há qualquer perspectiva de alteração desse estado de coisas, já que a educação capenga e os detentores do mando continuam a tirar vantagem dessa imbecilização coletiva.

José Renato Nalini é Desembargador da Câmara Especial do Meio Ambiente do Tribunal de Justiça de São Paulo. E-mail: jrenatonalini@uol.com.br.


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Lygia, a eterna

Releio “O Cacto Vermelho”, de Lygia Fagundes Telles, publicado pela Editora Mérito do Rio de Janeiro, em 1949. Foi dedicado a Goffredo da Silva Telles, então deputado constituinte e primeiro marido da escritora. O livro ganhou o prêmio Afonso Arinos da Academia Brasileira de Letras e foi o terceiro da autora. Já publicara “Porão e Sobrado”, pela Companhia Brasil Editora, em 1938 e “Praia Viva”, pela Livraria Martins Editora em 1944. Todas obras esgotadas.

Pois a grande dama da literatura brasileira não considera essas publicações no conjunto de sua obra. A partir de uma abalizada opinião de Antonio Cândido, entende haver adquirido maturidade literária com “Ciranda de Pedra”, de 1954. Mas os contos de “O Cacto Vermelho”, com a dedicatória – Para o Goffredo, que quis este livro – são deliciosos. Começa com “Os Mortos”, em que a personagem despreza um apaixonado e depois percebe – tarde demais – que também se apaixonou por ele. 

Prossegue com “Olho de Vidro”, com as peripécias de um detetive particular que investiga a esposa e descobre que ela passa horas diante de um túmulo. “A Recompensa” é um conto triste e forte. Fala de fome e da miséria dos párias que disputam alimento com os porcos. Em seguida “A Confissão de Leontina”, que mais tarde se transforma em monólogo já teatralizado. Emociona a trajetória de quem nasceu predestinada a sofrer. 

E vai parar na prisão por não saber se defender desta “selva de pedra” (nome de romance de Helena Silveira, amiga da Lygia). “O menino” é uma narrativa melancólica: o garoto vai ao cinema com a mãe e percebe que ela se serviu dele como pretexto para furtivo encontro com o amante. “A Estrela Branca” é profético. Há mais de 60 anos, Lygia intuía o transplante de olhos. E fazia o doador controlar a visão do donatário, numa espécie de ficção científica instigante.

“Madrugada Grotesca” descreve o diálogo de fim de noite entre um jovem e uma prostituta. Ele a cumula de carinhos verbais que ela nunca recebera. Mas tudo se acaba com a madrugada. Enfim, todos os contos atraem, conduzem o leitor a experiências nunca vivenciadas. Lygia deveria revisitá-los e não privar o universo de quem ainda não conhece a sua literatura, de instantâneos tão reais, coloridos e densos. Sua obra é atemporal. Por isso ela é eterna.

José Renato Nalini é Desembargador da Câmara Especial do Meio Ambiente do Tribunal de Justiça de São Paulo. E-mail: jrenatonalini@uol.com.br.