Blog do Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

O belo da cidade

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Continuando a analisar o que se fará no Brasil para impressionar os visitantes que virão para a Copa e para as Olimpíadas, sirvo-me dos exemplos citados por Mike Davis, em seu imperdível livro “Planeta Favela”. Ele cita exemplos de conduta governamental que, sem dúvida, podem ser copiados aqui. Os moradores de Manila têm horror especial às campanhas de embelezamento. 

Durante o domínio de Imelda Marcos, os favelados foram sucessivamente expulsos da rota dos desfiles do Concurso de Miss Universo, em 1974, da visita do presidente Gerald Ford em 1975 e da reunião do FMI-Banco Mundial em 1976. No total, 160 mil invasores foram removidos para fora do campo de visão da mídia, muitos deles abandonados nos arredores de Manila, a 30 km ou mais de seus antigos lares. 

O subsequente “Poder Popular” de Corazón Aquino foi ainda mais impiedoso: cerca de 600 mil invasores foram despejados durante o mandato de Aquino, em geral sem locais de reassentamento. Apesar das promessas de campanha de preservar a moradia dos pobres urbanos, o sucessor de Aquino, Joseph Estrada, continuou os despejos em massa: 22 mil barracos foram destruídos, somente na primeira metade de 1999. 

Durante os preparativos para a cúpula da Associação de Nações do Sudeste Asiático (ASEAM), as equipes de demolição atacaram, em novembro de 1999, a favela de Dabu-Dabu, em Pasay. Quando 2 mil moradores formaram uma parede humana, veio uma força de elite armada com fuzis M16 que matou 4 pessoas e feriu 20. 

As casas foram incendiadas e os miseráveis reassentados num lugar às margens de um esgoto, onde seus filhos logo foram vítimas de doenças gastrintestinais fatais. Mas cheguemos mais perto. Juan Balaguer, da República Dominicana, conhecido como “o Grande Expulsor”, resolveu celebrar o 5º centenário de descoberta da América e isso implicava em “limpar” o bairro Sabana Perdida. 

Entre 1986 e 1992, 40 bairros foram arrasados e 180 mil moradores removidos. As casas eram demolidas com o morador dentro dela. Bens domésticos eram vandalizados ou roubados. A ordem de despejo era entregue no mesmo dia da desocupação. Pessoas foram sequestradas. Grávidas e crianças foram submetidas a violência física. Serviços públicos dos bairros eram cortados e a polícia também servia como juiz. 

José Renato Nalini é Desembargador da Câmara Especial do Meio Ambiente do Tribunal de Justiça de São Paulo. E-mail:jrenatonalini@uol.com.br.

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Autor: Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

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