Blog do Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

Ilusão de ótica

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Vive-se a era do medo. A angústia é um sentimento generalizado em todas as idades. Teme-se, de maneira difusa, sem saber exatamente o que. Verdade que a insegurança é uma realidade inquestionável. Sai-se para trabalhar e se é colhido pela incerteza. Bala perdida, briga entre gangues, acidentes, desastres, infortúnios de toda a ordem. O crime é o que mais acontece, em esferas as mais diversas. A política do medo cotidiano impõe suas regras. As pessoas não confiam em ninguém.

Fogem dos espaços públicos e desistem de participar da vida pública. Sharon Zukin detecta o resultado disso: “Endurecer” o combate ao crime construindo mais prisões e impondo a pena de morte é uma resposta bem conhecida à política do medo”. Parece que tudo estará melhor se todos os pobres forem presos. Engraçada essa ilusão de ótica a impregnar toda a sociedade. 

Antoine Garapon, colega francês que estuda a Justiça em seu país, observou que enquanto os malfeitos cometidos pelas elites políticas ficam ocultos, o clamor público chega ao máximo e ao mais vingativo quando se trata de danos provocados ao corpo humano. Ninguém perde muito tempo a reclamar corretivo para os políticos corruptos. A sociedade absorve fácil a noção de que “não há política sem corrupção”. 

Entretanto, fica irada se um motorista atropela e mata. Indigna-se com o veneno contido no cigarro, com os transgênicos nos alimentos, com o placebo nos medicamentos. Chega ao furor se foi praticado um delito sexual. Entretanto, os grandes desmandos praticam a maior iniquidade “no atacado”, enquanto “o varejo” do crime não chega à milésima parte da nocividade dos poderosos. A percepção pública assimilou a crença em que a vida humana está repleta de perigos.

Por isso, livrar as ruas dos ostensivos e ameaçadores estranhos é a mais urgente das medidas voltadas a restaurar a segurança. Triste e trágica ilusão ótico-moral da sociedade contemporânea. Convive com os mais nefastos e quer eliminar o “trombadinha”. Não há qualquer perspectiva de alteração desse estado de coisas, já que a educação capenga e os detentores do mando continuam a tirar vantagem dessa imbecilização coletiva.

José Renato Nalini é Desembargador da Câmara Especial do Meio Ambiente do Tribunal de Justiça de São Paulo. E-mail: jrenatonalini@uol.com.br.

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Autor: Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

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