Blog do Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

Lygia, a eterna

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Releio “O Cacto Vermelho”, de Lygia Fagundes Telles, publicado pela Editora Mérito do Rio de Janeiro, em 1949. Foi dedicado a Goffredo da Silva Telles, então deputado constituinte e primeiro marido da escritora. O livro ganhou o prêmio Afonso Arinos da Academia Brasileira de Letras e foi o terceiro da autora. Já publicara “Porão e Sobrado”, pela Companhia Brasil Editora, em 1938 e “Praia Viva”, pela Livraria Martins Editora em 1944. Todas obras esgotadas.

Pois a grande dama da literatura brasileira não considera essas publicações no conjunto de sua obra. A partir de uma abalizada opinião de Antonio Cândido, entende haver adquirido maturidade literária com “Ciranda de Pedra”, de 1954. Mas os contos de “O Cacto Vermelho”, com a dedicatória – Para o Goffredo, que quis este livro – são deliciosos. Começa com “Os Mortos”, em que a personagem despreza um apaixonado e depois percebe – tarde demais – que também se apaixonou por ele. 

Prossegue com “Olho de Vidro”, com as peripécias de um detetive particular que investiga a esposa e descobre que ela passa horas diante de um túmulo. “A Recompensa” é um conto triste e forte. Fala de fome e da miséria dos párias que disputam alimento com os porcos. Em seguida “A Confissão de Leontina”, que mais tarde se transforma em monólogo já teatralizado. Emociona a trajetória de quem nasceu predestinada a sofrer. 

E vai parar na prisão por não saber se defender desta “selva de pedra” (nome de romance de Helena Silveira, amiga da Lygia). “O menino” é uma narrativa melancólica: o garoto vai ao cinema com a mãe e percebe que ela se serviu dele como pretexto para furtivo encontro com o amante. “A Estrela Branca” é profético. Há mais de 60 anos, Lygia intuía o transplante de olhos. E fazia o doador controlar a visão do donatário, numa espécie de ficção científica instigante.

“Madrugada Grotesca” descreve o diálogo de fim de noite entre um jovem e uma prostituta. Ele a cumula de carinhos verbais que ela nunca recebera. Mas tudo se acaba com a madrugada. Enfim, todos os contos atraem, conduzem o leitor a experiências nunca vivenciadas. Lygia deveria revisitá-los e não privar o universo de quem ainda não conhece a sua literatura, de instantâneos tão reais, coloridos e densos. Sua obra é atemporal. Por isso ela é eterna.

José Renato Nalini é Desembargador da Câmara Especial do Meio Ambiente do Tribunal de Justiça de São Paulo. E-mail: jrenatonalini@uol.com.br.

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Autor: Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

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