Blog do Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

O poder se putrefaz

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Em “As Cidades Invisíveis”, Italo Calvino dá voz a Marco Polo, que conta ao imperador Kublai Khan como são as cidades por ele conquistadas. Em determinado ponto das narrativas que se sucedem quais fábulas, repletas de símbolo, o poderoso Kublai Khan o interrompe. “Era uma daquelas noites em que um vapor hipocondríaco premia o seu coração”. E indaga: “As suas cidades não existem. Talvez nunca tenham existido.

Certamente não existirão nunca mais. Por que enganar-se com essas fábulas consolatórias? Sei perfeitamente que o meu império apodrece como um cadáver no pântano, que contagia tanto os corvos que o bicam quanto os bambus que crescem adubados por seu corpo em decomposição. Por que você não me fala disso? Por que mentir para o imperador dos tártaros, estrangeiro?”

Todo governante deveria ter alguém que o servisse com lealdade e com franqueza. Os áulicos não costumam dizer as verdades, senão aquilo que deles se espera venham a dizer. Se fosse mostrado ao governante que seu povo está sobrecarregado de tributos, que os serviços de saúde, transporte, educação, saneamento básico e segurança não atendem às necessidades e expectativas, talvez o governante meditasse antes de tomar atitudes.

Se alguém com coragem abordasse o mal terrível da corrupção, endêmica e impregnando todos os setores da vida pública, talvez o governante fosse acometido de coragem e mandaria sair do barco as ratazanas. Se houvesse uma voz, suscetível de ser ouvida, que afastasse o ufanismo e pudesse demonstrar que não há grandes motivos para comemorar, se a Nação está num dos últimos lugares do ranking da educação, tem um pífio índice de qualidade de vida, suas universidades não aparecem na relação das duzentas melhores de todo o globo, então poderia o governante assumir as rédeas do poder. 

Reagiria, agradeceria a esse interlocutor que aos olhos dos convivas e dos sequiosos por se abeberarem das fontes do tesouro pareceria cruel. Se isso acontecesse, então a Nação poderia sair da UTI da ética, deixar para trás a conivência com o mal e readquirir higidez moral. Mas haverá quem ouse falar a verdade e haverá ouvidos abertos para recebê-la com humildade?

José Renato Nalini é Desembargador da Câmara Especial do Meio Ambiente do Tribunal de Justiça de São Paulo. E-mail: jrenatonalini@uol.com.br.

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Autor: Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

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