Blog do Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.


6 Comentários

Etiqueta nas redes

Hoje não se vive sem internet. Mais da metade da população brasileira se utiliza do computador e oitenta por cento dessa clientela é também usuária das redes sociais. Pensar que sou do tempo em que se comprava papel de carta, envelope, escrevia-se com pena que se molhava no tinteiro – as “carteiras” da Escola Paroquial Francisco Telles continham o pequeno orifício para se colocar a tinta – em fase “pré-esferográfica”.

Hoje, amanheço com centenas de mensagens em meus e-mails pessoais, além de várias centenas no institucional. Do qual pouco me sirvo, na verdade, pois a inflação é bastante cansativa. Chris Anderson, curador do TED (www.ted.com), evento que reúne especialistas de várias áreas para troca de ideias, criou um “decálogo” com o objetivo de auxiliar a lidar com a avalanche de mensagens virtuais. A primeira é “respeite o tempo do destinatário do e-mail”. O remetente tem o dever de minimizar o tempo que o destinatário levará para responder o e-mail. A segunda é “Concisão e lentidão”. 

Compreenda tanto o tempo que a resposta leva a chegar e também a falta de detalhes. Você não sabe quais as ocupações do destinatário e os entraves que ele encontra para poder responder. A terceira é “Clareza”. A quarta: “Evite perguntas abertas” quais “o que você achou?”. É melhor fazer perguntas simples e de fácil resposta. A quinta: “Corte suas respostas sem conteúdo”. Você não precisa responder todos os e-mails. Mas evite usar “ok” ou “legal”. Soa indelicado. 

Sexta: “Diminua os rastros”. Você não precisa incluir todas as conversas anteriores no e-mail. Tente deixar só as mensagens mais relevantes. “Evite arquivos em anexo” é a sétima. Salvo quando absolutamente necessário. Oitava: “Seja claro quando não há necessidade de resposta”. Acrescente: “não é preciso responder”. Você poupará o tempo do destinatário. Nona: “Cuidado com as cópias”. 

Quando você adiciona uma pessoa em cópia em um e-mail, está multiplicando o tempo que a mensagem levará para ser respondida. Use a opção com moderação. Última recomendação: “Desconecte-se”. Quanto menos tempo gastamos com e-mail, menos e-mails receberemos. Considere dosar o tempo dedicado a eles e tire uma folga nos finais de semana. Não é fácil. Mas vamos tentar?

José Renato Nalini é Desembargador da Câmara Especial do Meio Ambiente do Tribunal de Justiça de São Paulo. E-mail: jrenatonalini@uol.com.br.

Anúncios


1 comentário

Adeus ao campo

Infelizmente, o Brasil se urbanizou quase completamente. Há mais brasileiros residindo na cidade do que a percentagem de americanos que preferiram deixar o campo. Lá, são 82% os americanos nas cidades. Aqui, são 84,4%, a evidenciar que a zona rural foi abandonada. A se confiar no Censo de 2010, divulgado pelo IBGE, temos 190,8 milhões de habitantes. Desses, apenas 15,6 milhões ainda moram na zona rural. Infelizmente, a taxa de crescimento é maior entre a pobreza. Coincide com o analfabetismo que, no nordeste, é o dobro da média do país. Enquanto o Brasil possui 9% de analfabetos, o Nordeste tem 17,6% desse contingente. 

O Sudeste, onde estamos, ainda tem alarmante índice de 5,1% dos analfabetos do país. Na capital, o centro recuperou parte da população perdida. Em 2000, eram 413.896 os moradores da região central. Hoje são 477.670 dos dez milhões de paulistanos. Muito pouco ainda, considerado o abandono da periferia e a infraestrutura oferecida aos que optam pelo centro. O Brasil ainda é o país dos contrastes. Se 82,9% dos domicílios têm água, metade ainda não tem rede de esgoto: 55,4% dos 57,3 milhões de domicílios brasileiros; 6,2% dessas moradias não têm banheiro exclusivo. Há 18,9 milhões de lares sem tipo algum de saneamento. Sequer fossa séptica está disponibilizada a eles.

Outro dado: cresce a proporção de mulheres: a cada 100 mulheres, há 96 homens. Os analfabetos já são menos de 10%. A população envelhece: há 7,4% de pessoas com mais de 65 anos; 1,3% das crianças entre 2 e 10 anos não têm certidão de nascimento.

Há 24.233 pessoas com mais de cem anos, 132 mil domicílios são chefiados por crianças de 10 a 14 anos, 6,9 milhões de casas têm um só morador e 2,4 milhões de lares não têm renda. Dependem de benefícios do governo, doações, trocas ou produção própria de alimentos. Enfim, o Brasil não é essa maravilha propalada pelo ufanismo oficial. Resta muito a ser feito. Mas a chave do problema, ainda não enfrentado adequadamente, é a educação. Só a educação liberta. Só ela faz a pessoa enxergar. E a criar, a trabalhar, a reivindicar, a participar. Sem educação não haverá futuro.

José Renato Nalini é Desembargador da Câmara Especial do Meio Ambiente do Tribunal de Justiça de São Paulo. E-mail: jrenatonalini@uol.com.br.


1 comentário

Se eles podem…

O Brasil precisa de um safanão ou de um forte puxão de orelhas. A educação ainda capenga em todos os setores. O ensino fundamental não ensina a ler. No ensino médio transmite-se um teor de informações que pouco será utilizado na vida. Na Universidade não se ensina a pensar. A Faculdade de Direito virou um treino para o Exame da OAB. Não há crítica, não há irresignação ou inconformismo. A juventude abúlica parece conivente com o grande festival da corrupção que se instaurou no país. É urgente acordar e reagir. Talvez observando o que outros lugares fazem para recuperar o tempo perdido. A Coréia enfrentou carnificina e é um dos tigres orientais exitosos em virtude do investimento em educação.

 

Investir não significa só aplicar dinheiro. A soma reservada à educação no Brasil seria mais do que suficiente para uma formação de qualidade. O que não existe é vontade, ideia nova, ousadia, criatividade. Geoffrey Canadá, por exemplo, é responsável pelo Harlem Children´s Zone em Nova York. Negro e pobre, nasceu no Bronx, bairro símbolo da degradação urbana. Estudou educação e se formou nas melhores universidades. Para mudar a realidade do Harlem, converteu-se em professor de tae kwon do e com isso passou a trabalhar com os jovens. O intuito era auxiliá-los a controlar a violência. Percorreu quarteirão por quarteirão para criar uma rede de convencimento e proteção. Sem a educação de toda a comunidade, nada seria realizado. Foram criados programas para cuidar da saúde dos estudantes. Desde a cárie até problemas mentais, asma, bronquite e obesidade. Projetos para lidar com álcool, drogas e violência doméstica. Os adolescentes passaram a se interessar por lições de como educar sua prole.

 

Mutirões recuperaram áreas degradadas. A articulação passou a contar com a participação de todos os líderes e voluntários locais. Isso é perfeitamente possível de ser feito aqui. Ao contrário, quais os pais que frequentam a escola, qual a inserção da escola no bairro, qual o reconhecimento que a comunidade confere ao professor modelo? Se os americanos podem, por que não nós? Acaso somos inferiores?

 

José Renato Nalini é Desembargador da Câmara Especial do Meio Ambiente do Tribunal de Justiça de São Paulo. E-mail: jrenatonalini@uol.com.br


Deixe um comentário

Vergonha de ser lido?

Conviver com Lygia Fagundes Telles durante as sessões da Academia Paulista de Letras é privilégio que poucas pessoas têm. Orgulho-me disso. Desde 2003, mereço essa graça de ouvi-la. Em condições singulares, pois tenho a honra de trazê-la para casa, já que é minha vizinha. Pois a LYGIA sempre repete que hoje, no Brasil, “todo o mundo escreve. O difícil é encontrar um leitor!”. Há tempos, dizia que eram três as espécies em extinção acelerada: o índio, a árvore e o escritor. Hoje ela substituiu “escritor” por “leitor”.

 

Ao mesmo tempo, alguns intelectuais gostam de escrever de forma complexa, taxando os que são facilmente lidos de superficiais, vulgares, inconsistentes. E se eles cometem o pecado capital de venderem livros, cabem no fosso da crítica. É um pecado vender livro no Brasil! São rotulados como autores de autoajuda, como se isso desqualificasse a obra e o autor. Pois estes dias, Shirley MacLaine de certa forma deu uma resposta a essa postura de quem parece escrever apenas para si mesmo. O repórter de “Encontros com o Estadão” (10.10.11) perguntou: “É correto colocar seus livros nas prateleiras dos esotéricos?”. Ela respondeu: “Sou uma memorialista. Escrevo memórias das minhas experiências e da minha vida. Não me importo em qual prateleira meus livros são colocados. Gosto que sejam colocados na prateleira ao lado da sua cama”.

 

E é isso o que deve preponderar. Chegar ao leitor. Ser compreendido por ele. Encontrar espaço para o livro junto ao antigo “criadomudo” (agora sem hífen?). Quisera ser um Paulo Coelho de minha ética, pois essa a matéria-prima de que o Brasil se ressente. Graças a livros que todos entendem, Padre Marcelo Rossi abreviou a construção do Santuário do Terço Bizantino, que abrigará mais de 100 mil fiéis a partir de 1º de dezembro de 2011. Vendeu mais de 7 milhões de seu livro “Ágape”, prefaciado por Gabriel Chalita, que também é cercado de carinho e de assédio em cada lugar público. Tive a oportunidade de comprová-lo no dia da Padroeira, seja em Interlagos, seja em Aparecida do Norte. É fácil ser complicado. O difícil é ser simples e, mesmo assim, semear sementes viáveis no solo fértil das boas consciências.

 

 José Renato Nalini é Desembargador da Câmara Especial do Meio Ambiente do Tribunal de Justiça de São Paulo. E-mail: jrenatonalini@uol.com.br.


Deixe um comentário

Lá e cá

Em Copenhague, capital da Dinamarca, o meio ambiente é respeitado. Como ela não tem mais onde crescer, sem invadir áreas verdes, a Prefeitura construirá uma extensão equivalente a 200 estádios de futebol sobre o mar. O processo fará aterros que criarão ilhotas. Os trechos habitados do arquipélago artificial vão ser unidos por canais e pontes. 

“Não podemos reduzir as áreas verdes para construir mais casas e precisaremos de mais moradia nos próximos anos”, é a justificativa de Jorgen Aildgaard, coordenador de assuntos climáticos da Prefeitura de Copenhague. Copenhague já possui muitos parques e ampla reserva florestal na parte sul da cidade, ao lado do aeroporto. Tive o privilégio de conhecer o “Tivoli”, um parque de diversões em que as flores, o verde e a natureza foram respeitados e são objeto de veneração por parte dos moradores. 

A lei local veda que a cidade “cresça para cima”. Os prédios não podem ter mais de 6 andares. Ali, 36% da população usa a bicicleta como principal meio de transporte. A Dinamarca está preparada para os efeitos inevitáveis do aquecimento global. Tanto que esse projeto, vencedor de um concurso, leva em conta uma possível invasão da água, caso os níveis do oceano subam pó causa do derretimento das calotas polares. 

Enquanto isso, a capital paulista perde 12.187 árvores em 4 meses, isso apenas em relação a cortes autorizados pela Prefeitura. O desaparecimento equivale a quase um parque do Ibirapuera desmatado em 120 dias. O replantio é capenga e conta com mudas insuficientes, falta de cuidados e desrespeito por parte da população. As jabuticabeiras plantadas para compensar a retirada de 80 árvores do Largo da Batata, em Pinheiros, morreram antes de alcançar 50 cm. 

As pessoas pisam sobre as mudas, urinam no canteiro, jogam lixo. Não há o que resista. São Paulo perdeu quase todas as suas áreas verdes dentro da malha urbana. As compensações não passam de ficção. Na marginal do Tietê, jequitibás-rosa, ipês brancos e roxos, jatobás, paus-brasil, ingás e sibipirunas plantados ao longo dos 24 km morreram durante o processo de retirada e replantio dos novos canteiros, na reforma de 2010. Cada povo tem o que merece?

José Renato Nalini é Desembargador da Câmara Especial do Meio Ambiente do Tribunal de Justiça de São Paulo. E-mail:jrenatonalini@uol.com.br.


1 comentário

Onde estávamos

O escritor Thomas L. Friedman escreveu no The New York Times um artigo instigante: “A Terra está Cheia”. Começa por indagar como é que daqui a alguns anos será encarada a primeira década do século 21. A humanidade vai se defrontar com falta de alimentos, energia caríssima, população mundial em evidente excesso, catástrofes ambientais. Onde estávamos nos primeiros anos do primeiro século do terceiro milênio, que não evitamos isso? 

Como pudemos ser tão cegos que não sentimos atravessar o ponto crítico do crescimento, aquecimento global, drástica redução dos recursos naturais, tudo de uma vez? A resposta será a negação, de acordo com Paul Gilding, empresário-ambientalista australiano, que escreveu o livro “The Great Disruption: Why the Climate Crisis Will Bring On the End of Shopping and the Birth of a New World (A Grande Ruptura: por que a crise climática trará o fim da compulsão da compra e o nascimento de um novo mundo?). 

Nós estamos comendo o futuro. Gastamos muito mais do que é reposto. Não é ficção científica. É a realidade. Tudo está muito mais perigoso, porque as gerações vivem a 150% da capacidade sustentável. Quando se corta mais árvores do que se planta, não haverá mais árvores. Ao se colocar nitrogênio adicional num sistema de água, altera-se o tipo e a quantidade de vida que a água pode suportar. 

Ao se engrossar o lençol de gás carbônico da Terra, ela ficará mais quente. O trágico é que fazemos tudo isso e outras coisas ao mesmo tempo. A diminuição, deterioração e exaustão de recursos naturais e o desequilíbrio do ambiente ecológico se tornaram gargalos e empecilhos graves ao desenvolvimento econômico e social. A Terra está cheia. O pior é que está cheia de gente burra. 

A visão “otimista” é a de que diante do impacto da Grande Ruptura, a resposta será proporcionalmente dramática. Exatamente como ocorre nas guerras. Mudaremos em escala e velocidade inimaginável. Estamos próximos do limite. Ou vamos permitir que o colapso nos atinja, ou vamos aderir ao sustentável. Para Gilding, podemos ser lentos, mas não somos estúpidos. Mas alguém duvida de que somos capazes de subestimar a estupidez da única espécie considerada racional?

José Renato Nalini é Desembargador da Câmara Especial do Meio Ambiente do Tribunal de Justiça de São Paulo. E-mail:jrenatonalini@uol.com.br.