Blog do Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

Ética da compreensão

2 Comentários

Impressionou-me a vivacidade e o dinamismo de Edgar Morin, que falou na Sala São Paulo para cerca de dois mil atentos partícipes do projeto “Fronteiras do Pensamento”. Noventa anos bem vividos – nasceu em 1921 – não o impediram de falar em pé, durante hora e meia, com entusiasmo e convicção.

Isso me leva a pensar na insensatez da compulsória aos 70 anos, fixada no Brasil quando a vida útil do brasileiro era estimada em patamares muito inferiores aos atuais. Hoje, há muitos idosos saudáveis, que – depois dos setenta – permanecem aptos ao exercício de muitas atividades. Notadamente aquelas que não dependem de força física, músculos ou juventude. Na verdade, a experiência é um cúmulo de saberes adquiridos na prática. O que leva a concluir que maturidade equivale a um plus na qualificação para o desempenho de qualquer mister. Presunção relativa, mas que não pode deixar de ser considerada.

Ora, a juventude, sempre apressada, acredita que a velhice nunca chegará, impede a alteração do texto constitucional que obriga o desligamento do serviço público aos 70 anos. Tema que a Previdência Social irá enfrentar quando o caixa não dispuser de recursos para a satisfação dos proventos.

Mas o que deve ser objeto de reflexão é o conteúdo da fala de Morin. Ele parte da constatação de que o mundo é hoje muito complexo e ininteligível para a maioria. A modernidade líquida, na visão de Zygmunt Bauman, significa a liquefação de tudo o que parecia sólido: os valores, as instituições, as crenças. Parece que tudo se liquefez e se tornou insuscetível de apreensão.

Nessa derrocada, também a ética desapareceu. Ao menos, aquela ética tradicional de apreço à probidade, à lisura, do “fio de barba”. Tudo o que desapareceu com a nova barbárie do “salve-se quem puder” contemporâneo.

Por isso é que Morin insiste na ética da compreensão. Compreender o mundo, compreender o outro, este ser diferente, mas que tem alguma semelhança conosco. A ética da compreensão é a alternativa para tentar enfrentar o mundo da incerteza, em que o animal humano continua a exercer a sua crueldade e a sua indiferença com outros seres de sua mesma espécie. Esse o caminho que vale a pena ser percorrido.

 

José Renato Nalini é Desembargador da Câmara Especial do Meio Ambiente do Tribunal de Justiça de São Paulo. E-mail: jrenatonalini@uol.com.br.

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Autor: Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

2 pensamentos sobre “Ética da compreensão

  1. Dr. Renato : gostei da expressão ” ética da compreensão” . Cada dia que passa , infelizmente , observa-se que certos conceitos, como empatia, hospitalidade, acolhimento e ética, são usados apenas no discurso, mas na prática , aplica-se muito pouco. Penso que as pessoas estão ficando cada dia mais sozinhas, mesmo cercadas de muita gente, pois pela falta de compreensão e intolerância ,não mostram quem são verdadeiramente. Desta forma, as relações são cada dia mais tênues. Acredito que o caminho seja , pelo menos , a tomada de consciência , para mudar a postura .

  2. Excelente seu artigo!
    Ele me faz crer que há ainda algumas pessoas especiais que enfrentam a liquidez que grassa nas relações permancendo fiéis à etica como estética da existência.
    Inúmeras vezes me deparei refletindo que, se não fosse a solidez dos princípios recebidos na casa paterna, eu teria ficado constrangida por acreditar que respeito e honestidade são inegociáveis!
    Um abraço de
    Maria de Lourdes Bello Zimath

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