Blog do Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

Vergonha de trabalhar?

2 Comentários

“Trabalho de criança é pouco; quem despreza é louco”, era um ditado antigo. Ouvi muito isso, como justificativa a quem se valia dos préstimos infantis. Trabalho enobrece. Mente vazia é oficina do demônio, também se costumava dizer. Nos tempos “politicamente corretos”, impede-se a iniciação da vida laboral de quem – à falta do que fazer – se dedica ao vício. Há pouco tempo a Justiça de São Paulo ainda dispunha da instituição chamada “menor colaborador”. Crianças eram colocadas em gabinetes dos juízes e aprendiam a se comportar.

Muitos deles fizeram carreiras e hoje há desembargadores que foram “menores colaboradores”. Daí vem o Ministério Público do Trabalho e proíbe esse treinamento. Ouço relatos de pais que já não sabem o que fazer com seus filhos, cedo iniciados na droga. Mas também há outro problema. Sem trabalhar, a adolescência se prolonga. Adultos com mais de 30 anos continuam às expensas dos pais. Não têm autonomia. Não sabem o que fazer da vida. Nada lhes serve, pois tudo “caiu do céu”.

Num dos programas do Dave Letterman, foi entrevistado o ex-presidente da Boeing, hoje CEO da Ford. Permaneceu 37 anos na empresa que produziu os Boeing. Saiu a convite da Ford e, com seus projetos conseguiu financiamento de 23 milhões de dólares e a Ford começou a dar lucro. Pois esse homem começou como entregador de jornal, foi empacotador em supermercado, entregador de mercadorias e se orgulha disso.

Os norte-americanos desde cedo trabalham nas férias, não se envergonham de cortar grama, de fazer o papel de “baby-sitter” ou de servir de companhia para idosos ou enfermos. É assim que aprendem a liderar, a enfrentar desafios e a vencer na vida. Por isso é que eles são pobres, atrasados, estão na rabeira do mundo.

Nós, que somos o gigante adormecido, terra em que se plantando tudo dá, criamos nossas crianças como se o trabalho fosse algo indigno, destinado a pessoas subalternas, inferiores, menos aptas do que a classe ociosa. Isso também explica a ética norte-americana e a situação do grande império do norte, cotejada com este arquipélago de iniquidades, vazio de moral e cheio de ilhas que são um convite a pesquisas antropológicas. A antiga Terra de Santa Cruz, hoje chamado Brasil.

José Renato Nalini é Desembargador da Câmara Especial do Meio Ambiente do Tribunal de Justiça de São Paulo. E-mail: jrenatonalini@uol.com.br.

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Autor: Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

2 pensamentos sobre “Vergonha de trabalhar?

  1. Parabéns, dr. Nalini!
    Difícil comentar um assunto tão polêmico. Vivemos uma atualidade de hipocrisia que o politicamente correto se tornou bandeira de pessoas cruéis.
    Muito válida sua colocação.
    Não subestimemos a incrível capacidade das crianças e jovens de aprenderem novos,bons e éticos comportamentos assimilando uma tarefa em casa ou laborativa (respeitando e se certificando de seus direitos de criança/jovem).
    Um jovem que participa, pouco que seja, de breves momentos dos serviços dos adultos que o cercam, acredito que dará mais valor e respeitará as pessoas e familiares que garantem seu sustento, e também, o trabalho em si. Serão adultos saudáveis e, como visto nos exemplos aí afora, grandes seres humanos.
    Comecei cedo a trabalhar, espontaneamente, nas férias ou quando dava vontade, ajudando em casa e depois no mercadinho da família. Empacotava e ficava no caixa. Assim, brincava de trabalhar e me orgulhava por ajudar. Se fosse hoje, não me permitiriam essa infância feliz.
    Cordialmente, Andreia

  2. Dr. José Renato:
    seus artigos me permitem estar conectada aos temas mais candentes e me conduzem à reflexões necessárias como observadora/protagonista do meu tempo.
    Obrigada.
    Maria de Lourdes Bello Zimath

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