Blog do Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

Educação para o consumo

1 comentário

As Faculdades de Direito aos poucos se transformam num curso de preparação ao Exame da OAB. A opção resta clara, quando se verifica o rol de incumbências burocráticas imposto aos professores, todos eles chamados a “treinar” o alunado para a melhor performance nessa avaliação de competência técnica. Ao longe, mas antenado, Bento XVI parece conhecer a realidade brasileira. No recente encontro mantido com docentes e estudantes na Jornada Mundial da Juventude, ele teve coragem de afirmar: “Às vezes se pensa que hoje a missão de um professor universitário seja exclusivamente a de formar profissionais competentes e eficazes, que satisfaçam à demanda trabalhista”.  Se a transformação do ensino universitário for analisada com sensatez, essa afirmação se tornará mais contundente ainda. Não apenas se “pensa”, mas “tem-se certeza” de que a obrigação do docente é atender ao mercado.

 

Continua o Papa: “Também se diz que se deve privilegiar a mera capacitação técnica. Certamente, difunde-se na atualidade essa visão utilitarista da educação”. Essa é uma visão antiética e leva ao totalitarismo. Pois “quando apenas a utilidade e o pragmatismo são eleitos como critério principal, as perdas podem ser dramáticas: desde os abusos de uma ciência sem limites até o totalitarismo político, que se aviva facilmente quando se elimina toda referência superior ao mero cálculo de poder”. A Universidade deveria voltar à sua autêntica vocação: a busca da verdade humana. Com a experiência de quem foi professor universitário por 25 anos, Joseph Ratzinger acrescentou que “a universidade encarna, pois, um ideal que não deve ser desvirtuado por ideologias fechadas ao diálogo racional nem por um servilismo a uma simples lógica utilitarista de mercado, que vê o homem como mero consumidor. Eis aí a sua importante e vital missão”. Seria bom que todos atentassem para essa advertência. Não só os mantenedores, coordenadores, responsáveis e mestres. Mas também o alunado, que mergulha no pragmatismo e que só pensa em “vencer na vida”, em vez de procurar “ser feliz”.

 

José Renato Nalini é Desembargador da Câmara Especial do Meio Ambiente do Tribunal de Justiça de São Paulo. E-mail: jrenatonalini@uol.com.br.

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Autor: Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

Um pensamento sobre “Educação para o consumo

  1. Dr. José Renato:
    como coordenadora de um curso de Direito, padeço do “mal do século XXI” – tudo e todos parecem estar voltados para o utilitarismo à moda de Jeremy Benthan. Tenho resistido no sentido de que a educação tem como maior escopo preparar o indivíduo para conviver em sociedade transformando a realidade através do seu ofício.
    Abraço,
    Maria de Lourdes Bello Zimath

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