Blog do Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

Vou precisar de intervenção?

3 Comentários

Os americanos são pródigos em realizar programas que exploram o exotismo e nós, culturalmente colonos, os copiamos. Assim os múltiplos reality shows que caíram no gosto do telespectador primário e propiciam alta lucratividade a quem os mantém e reitera em sucessivas versões. Assisti a alguns programas em que profissionais ajudam pessoas mentalmente enfermas. Como explicar juntem lixo e tralha a ponto de impedir sua locomoção pela casa e de inibir a visita de familiares e amigos? 

Minha compulsão por guardar papéis talvez me leve a necessitar desses préstimos, quando eles se tornarem mais comuns no Brasil. Separo uma quantidade enorme de jornais, com a esperança de lê-los vagarosamente e deles extrair artigos, ideias para palestras, ilustração para aulas. Eles crescem em pilhas e nunca tenho o tempo disponível para me desfazer, pois isso pressupõe efetiva consulta. 

Sempre prometida, sempre adiada. Identifico-me, às vezes, com o personagem Langley, do livro Homer & Langley, de E.L.Doctorow, tradução de Ro berto Muggiati, Editora Record. A inspiração é um fato real: dois irmãos viviam sozinhos em mansão de 4 andares na 5ª Avenida, atulhada de pilhas de jornais, máquinas de escrever, pianos, quadros, carrinhos de bebê e até um Ford bigode instalado no meio da sala. Langley guardava todos os jornais para que pudesse, um dia, sintetizar a história  humana em edição especial, um jornal único para todos os tempos. 

Minha única esperança é a de que um dia me sacuda um átimo de lucidez e eu mesmo, sem a necessidade de intervenção, dê fim a tudo aquilo de que não consigo me desfazer. Não são só jornais. São revistas, cartas, cartões, mensagens, convites, lembranças de uma vida que se entremostrava tão longa, mas que se encaminha aceleradamente para o seu final. Conforta-me a consciência que ainda não perdi, de não deixar mais trabalho aos filhos e netos, do que me acomodar para a viagem da qual não se volta. Seria triste que, além desse inconveniente, ainda legasse um volume incrível de bugigangas, badulaques e objetos que só têm sentido para este pobre e triste coração.

José Renato Nalini é Desembargador da Câmara Especial do Meio Ambiente do Tribunal de Justiça de São Paulo. E-mail: jrenatonalini@uol.com.br

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Autor: Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

3 pensamentos sobre “Vou precisar de intervenção?

  1. Dr. Renato : o senhor está falando de colecionismo , uma das formas de transtorno obsessivo compulsivo, mas certamente não é o seu caso !
    Um comportamento torna-se patológico quando o impede de levar uma vida normal. Aquilo que guarda devem ser seus objetos de afeto , uma pessoa produtiva e ativa como o senhor não tem como não deixar, pelo menos, alguma coisa para mais tarde.

  2. Sei que este comentário jamais será lido ou se tornará em mais um lixo eletrônico, contudo concordo plenamente com Vossa Excelência, devemos nos desapegar dos bens materiais que nos impedem de circular em nosso próprio lar ou nos impedem ou nos envergonham de receber um amigo, o bem mais preciso que a vida nos deu. Abraços e obrigada por permitir eu eu o conheça melhor. Parabéns.

  3. Olá Desembargador, eu vi uma programa muito parecido com esse que o Senhor mencionou. Uma senhora que não recebia visitas há 5 anos, pois tinha vergonha de sua casa, embora não conseguisse mudar a situação sem ajuda. Mas, acho que guardar “algumas” coisas que julgamos que possam ser úteis um dia não é problema. Eu vou colecionando livros, na esperança de que um dia possa lê-los todos.
    Penso que é bom que guardamos jornais e livros. É melhor do que guadar sentimentos ruins, acumular milhares de objetos inúteis e tantas outras coisas sem sentido. Abraço!

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