Blog do Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

Desculpe, é engano…

3 Comentários

Esse o nome da crônica de Arnaldo Jabor no dia 29.11.11, no Estadão. Ele conta que há dez anos, prestes a entrar na sala de cirurgia, quis ligar para a mãe. Mas a sua mãe já morrera. “Mesmo assim, quis ligar pois, talvez, no telefone, houvesse um milagre e ela atendesse: “Alô, 284858? Mamãe!” Confesso que também tenho vontade de ligar para o 4586-4854 e ouvir a voz de D.Benedita, que morreu há 6 anos. 

Dia 17 de novembro assisti à missa das 8 na Igreja Nossa Senhora do Brasil, pois não estaria a postos à celebração das 17h30, em que seu nome seria citado. Tive remorsos porque era um dia de compromissos outros, quando o essencial seria homenageá-la. Ao mesmo tempo, ouvia sua voz: – Não se preocupe, filho. Você está sempre comigo! Era a compreensão em pessoa, ao menos com relação ao seu primogênito. 

Dentre vários remorsos, cultivo aquele de nunca me estender ao telefone. Não sou adepto de longas conversas. Chamo o telefone de “intruso”. Quanta vez me vejo obrigado a deixar uma pessoa à minha frente, esperando enquanto o celular toca – quem é que fornece o celular da gente a quem não é tão íntimo? São mistérios insondáveis… – e, pacientemente, aguardar uma detalhada explanação sobre um assunto que nem sempre é de meu interesse. Minha mãe gostava de falar ao telefone. 

Com quem ela realmente se identificava, permanecia horas. Pacientemente. Eu não tenho paciência. Alguns amigos queridos me santificam ao telefone. Quando me chamam em casa, logo procuro me deitar e relaxar. Em regra, anuncio que “telefone é para recados”. O e-mail veio a calhar para quem quer se estender. Quanto a isso, leio e respondo. Procuro ser um bom navegador. Mas me identifiquei bastante com a crônica do Jabor.

Ainda me lembro dos telefones de apenas quatro algarismos que mais usava quando eles chegaram, prenunciando a grande revolução nas comunicações do final do século passado. 4854, 1521, 4558, 5965. Não deletei o número de minha mãe. Talvez na ilusão de chamá-la e ela me atender. Diversamente de Jabor, que digita e, ao ouvir a voz do outro lado, diz simplesmente “Desculpe, é engano…”.

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Autor: Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

3 pensamentos sobre “Desculpe, é engano…

  1. Caro Nalini: o nº do meu celular é (11) 7215-7030. Não o delete. Prometo que ao ouvir sua chamada, atenderei de pronto, esperando não receber do outro lado: “Desculpe, é engano…”. Abraços.Marson

  2. Algumas vezes, quando o coração aperta e o ar parece que se esvai, digito uma mensagem no meu celular e a salvo na pasta de rascunhos em vez de enviá-la, não porque a pessoa querida não está mais aqui, mas porque ainda não consegui o nº do celular de Deus.
    Muitas vezes isto me conforta, porque, mesmo sem saber o nº do celular Dele, cedo ou tarde, recebo uma resposta para o meu SMS.
    Tenho certeza que sua mãe, por estar na companhia Dele, ainda que não possa dizer “Alô” naquele antigo número, também te escuta e lê seus desabafos.

    Gostei do texto! Sinto-me menos infantil depois de saber que não sou a única que, apesar de achar que o telefone deveria servir apenas para recados, também gostaria de bater papo com quem não pode fisicamente atender-me.

  3. Nalini, eu sempre telefono para minha mae e penso sempre se meu pai atendesse, eu seria a pessoa mais feliz do mundo . Saudades dele … 4558, este numero era o que eu mais discava .
    Fizemos 40 anos de casados no dia 2 de fevereiro .
    Abraco para voce com carinho,
    Bebel

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