Blog do Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

Os pais do drogado

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Acabo de ler o livro “Você meu filho”, de Jean Bothorel. O autor é comentarista político do “Le Figaro”, na França. Descobriu que seu filho de dezessete anos era drogado. Escreveu o livro numa espécie de monólogo/diálogo com o jovem. Os pais não cessam de se autoindagar: “Onde foi que eu errei?”. Era quase impossível reencetar o encontro com o filho que crescera confortado por todos os mimos materiais, mas que era um desconhecido para seu pai. 

Os pais perguntam com quem o filho está saindo? O que ele vê na internet? Quais suas angústias, suas dúvidas, seus sonhos e ambições? O pai já fora fruto de uma rebeldia alimentada pelos Jack Kerouac (autor de “On the road” e “Dharma bums”), Allen Ginsberg, William Burroughs (“Naked lunch”), sem falar nos conterrâneos Sartre, Camus, Bataille, Gide, Malraux, Céline, Mauriac e Bernanos. Lembrava-se do próprio pai – o avô do viciado – que representara “a moral de outrora. 

Personalizava um modo de ser, um catálogo de valores bem estabelecidos: o respeito à escola, o amor ao trabalho, a aversão à preguiça e aos preguiçosos, a lealdade e sobretudo o sentido da honra”. Quando se lembrou de “honra”, teve um sobressalto. A palavra foi esquecida e o conceito também. Honra, grandeza, probidade são gloriosas teorias desmoralizadas pelos poderosos que constantemente as empregam, sem nelas acreditar. Ele questiona: 

“Por que desapareceram de nosso vocabulário essas palavras de que nenhuma educação, nenhuma instituição, nenhuma sociedade pode prescindir? A honra é uma ética. É uma valorização da pessoa. Pode até parecer ingenuidade, bobagem, mas a verdade é que o respeito-próprio é a base do respeito pelos outros. Por que jogamos fora ideias tão simples e tão importantes?”. 

O jornalista fez o “mea culpa” e reconheceu ter feito o jogo do avestruz. Fazer de conta que nada acontece. Levar sua vida e propiciar ao filho todos os prazeres, não falar “não”, nada proibir, tudo permitir. Deu razão a François Mauriac, a lamentar: “É verdade que vivemos num mundo em que tudo é feito para corromper a infância, a adolescência e a juventude. Pagaremos caro, muito caro por isso”. Alguém consegue provar que isso não aconteceu e continua a acontecer?

José Renato Nalini é Corregedor Geral da Justiça do Estado de São Paulo, biênio 2012/2013. E-mail: jrenatonalini@uol.com.br.

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Autor: Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

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