Blog do Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

Sem medo da morte

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O cristão deveria ser a criatura mais feliz sobre a face da Terra. Se todos os demais humanos não conseguiram contornar o medo da morte, o crente é um afortunado. A base de sua fé está na convicção de que esta vida não é senão passagem. Efêmera para todos, pese embora a sensação de que alguns chegam à ancianidade. Por mais que se esforce, o ser humano é incapaz de ultrapassar os 110 anos. 

Quem chega aos 90 já fica feliz, pois muitos contemporâneos já partiram. Com isso se confortam: ficar velho é melhor do que morrer. Desde a mais remota antiguidade, logo após a mitologia ter cedido espaço à razão, preocuparam-se os pensadores com obter explicação satisfatória para esse fenômeno da finitude. Por que se nasce? Qual a missão de cada um neste peregrinar? Por que se precisa morrer? A busca da perenidade não se satisfaz com a resposta laica. 

Vive-se na descendência, o que priva aqueles que não geraram filhos de sobreviver. Perpetua-se nas obras realizadas durante este percurso. Esta resposta não é das mais conclusivas. De que vale eternizar-se naquilo que se fez, se a individualidade perece? Já o cristão tem uma solução para o mistério. A humanidade resultou de um ato de amor do Senhor da Razão e de todas as coisas. Pretensioso, o homem quis logo comparar-se a Deus. 

Perdeu a situação original de verdadeira bem-aventurança e se viu obrigado a trabalhar para viver, “obter o pão com o suor do rosto” e, para culminar, sentiu o que é a mortalidade. Ofensa a um Deus, só um sacrifício divino para redimir o ofensor. Daí a linda história do Cristo, presente sempre, a iluminar os caminhos desta espécie cada vez mais desalentada, tanta a insensatez que campeia pelo sofrido planeta. O ápice disso tudo é a ressurreição. 

Alguém que venceu a morte – já o fizera a ressuscitar seu amigo Lázaro – não é uma pessoa qualquer. Se Ele ressuscitou, eu também posso ressurgir dos mortos. E se não tivesse ressuscitado, “vã seria a minha fé”, como proclamou Paulo. Criatura miserável, o ser humano deixa de levar a sério a mensagem, se desespera, se desalenta, blasfema, esquece-se de sua filiação divina. Pensa em ovos de chocolate em lugar de se entregar ao Cristo Ressuscitado. Na festa mais linda até do que o Natal. Pois sem a ressurreição, qual a razão para se continuar a viver?

José Renato Nalini é Corregedor Geral da Justiça do Estado de São Paulo, biênio 2012/2013. E-mail: jrenatonalini@uol.com.br.

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Autor: Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

2 pensamentos sobre “Sem medo da morte

  1. A morte é um tema bastante temido, porém, concordo com suas palavras e ouso acrescentar o pensamento:
    “O medo da Morte nos impede de viver, não de morrer.” – Paul C. Roud

  2. Falar sobre a morte é sempre fascinante para quem crê, como eu, que a vida na Terra é sim uma passagem efêmera, mas também constituída de uma jornada laboriosa. Nascemos para retificar; na tentativa de desatar as algemas de ódio e substituí-las por laços sagrados de amor. Acaso seria justo impor à outro a tarefa de expurgar um campo que semeamos de espinhos, com as próprias mãos? Por mais alto que a alma possa ascender, se temos débitos no planeta, é imprescindível voltar. Cerrar os olhos carnais não modificará a realidade do ser essencial; pois a vida não cessa e todo processo evolutivo implica gradação. Continuaremos a ser nós mesmos, com a consciência vigilante e o sentimento e a cultura colhidos na experiência material. Quantos de nós poderíamos evitar o caminho da amargura com o preparo dos campos interiores do coração? Recordando ao antigo testamento que se refere a muitos chamados e poucos escolhidos na Terra, é incontável o número dos chamados, mas, onde estão os que atendem ao chamado? Com raras exceções, preferimos atender a outro gênero de convites e desperdiçamos essa oportunidade desviando-nos do bem e assim, agravados com nossos caprichos, terminamos por eliminar o corpo físico a golpes de irreflexão.

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