Blog do Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

Ubi caritas

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Um antigo canto gregoriano começa justamente com essa expressão: “Ubi caritas est vera, Deus ibi est”, ou seja: Onde a caridade é verdadeira, aí está Deus. João já afirmou que “Deus é amor”. Caridade não é senão uma espécie qualificada de amor. Aquele amor com que se deveria olhar cada semelhante e que Chaïm Perelman chama de “regra de ouro”: fazer ao outro o que você espera que ele faça a você. Tratar os demais como você gostaria de ser tratado. Esse comando parece singelo, mas é de dificílima observância. O outro é o problema. “O inferno são os outros”, foi o que Jean Paul Sartre afirmou e muita gente concorda com ele. 

 Se amar ao próximo como a si mesmo é quase impossível, embora fosse o ideal, a sociedade chamada civilizada tem parâmetros de convívio que impedem “a guerra de todos contra todos” de Thomas Hobbes. Tais comandos são de ordem ética e, se forem insuficientes a garantir a possível harmonia entre as pessoas, serão convertidos em normas legais. Essa a minha compreensão do “mínimo ético” de George Jellineck. Por se extrair de um campo bem amplo que é a ética, o direito só pode ser ético. Ou seja: o direito não tem como não ser ético. É obrigatoriamente ético.

O difícil da ética no Brasil é que a degradação dos costumes, gerado pelo desaparecimento dos valores faz com que o bem seja relegado e mesmo vilipendiado. Ser educado, ser cortês, ser polido, não é considerado relevante. O certo é ser esperto. Fica muito difícil para os pais e educadores mostrar o caminho reto. Aquilo que era a normalidade em tempos idos. Mas que hoje perdeu referência, tantos e tamanhos os descalabros na vida pública, a inspirar a mais completa apatia ética na vida privada. No Brasil de hoje, a visão rodrigueana parece prevalecer: a vida pública não é senão uma continuidade da privada. 

 Como transmitir à infância hábitos de boa educação de berço,  quando os mais velhos não os cultivam e parecem desprezá-los. Se o Brasil não resgatar as surradas fórmulas de fazer com que infância e juventude vivam a alteridade, respeitem o outro, se compenetrem de que todos somos irmãos, a quinta economia mundial continuará a patinar em posições desprezíveis no ranking do verdadeiro progresso.    

 
José Renato Nalini é Corregedor Geral da Justiça do Estado de São Paulo, biênio 2012/2013. E-mail: jrenatonalini@uol.com.br. 
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Autor: Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

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