Blog do Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

Não é prepotência

3 Comentários

A tendência a sobrepujar o próximo parece instintiva no ser humano. Mesmo crianças querem impor sua vontade às demais. Assumem, nas brincadeiras, o papel que consideram mais importante. Sabem ou são treinadas a detectar aquilo que é subalterno e fogem disso. Essa condição é levada ao convívio nas escolas, onde há sempre os “valentões” que atormentam os mais fracos. Desde a agressão física até à mais dolorida: a agressão moral.

O tema “bullying” é recente, mas a situação de angústia infligida a quem é tímido, ou gordo, ou afeminado, sempre existiu. Seria rito de passagem inevitável? Aparentemente não. Os Estados Unidos constataram que a criança atormentada se torna um adulto atormentado. No livro “The Bully Society”, (A Sociedade prepotente, em tradução livre), de Jessie Klein, noticia-se que 71% dos que praticaram tiroteios nas escolas tinham sido vítimas do “bullying”. O autor acusa a cultura hipermasculina de incrementar a prepotência. “Em lugar do leque de emoções ao alcance das meninas, os meninos só têm permissão para sentir raiva e são incentivados a controlar os outros sentimentos”. Quem já não ouviu a advertência: “Homem não chora”?

Todavia, as mulheres assumem essa cultura máscula e se tornam prepotentes também. A crônica do assédio moral no trabalho não distingue entre os chefes e as chefes quanto à pressão exercida sobre subalternos que se tornam bodes expiatórios. O “bullying” da criança mimada, de pais que não conseguem ou não querem por freios, que acham bonito o filho que não apanha, “só bate”, produz um ambiente perigoso. Há problemas de saúde, há suicídios, há uma tristeza que os perseguidos não conseguem ocultar.

Uma sociedade sadia não pode tolerar tais condutas. Existe muita leniência e preconceito, pois em regra, os diretores de escola, os responsáveis pelos locais onde a humilhação  – clubes, fábricas, parques, shoppings, enfim, todos os lugares onde existe concentração de pessoas – tendem a partilhar do sentimento de exclusão. Começam a culpar a vítima de ser “diferente”, de atrair a ira gratuita dos “normais”.

Ainda falta muito para que o Brasil chegue ao patamar da Nova Zelândia, por exemplo, onde existem leis contra a agressividade no local de trabalho e, melhor ainda, essas leis são observadas.

 

José Renato Nalini é Corregedor Geral da Justiça do Estado de São Paulo, biênio 2012/2013. E-mail: jrenatonalini@uol.com.br.

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Autor: Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

3 pensamentos sobre “Não é prepotência

  1. Professor, se tirassem as leis da Nova Zelândia, as pessoas ainda fariam o certo ou seriam diferentes do que são sob sua direção? Será que nos falta leis mais sérias e rigorosas com pessoas honestas para aplicá-las, ou será que o fato é que por trás de tudo há um problema essencialmente espiritual e de caráter? Não é a religião que curará a humanidade, pois se assim fosse já se teria visto um progresso, uma vez que sempre houveram religiosos em maior número em nosso país. O que falta então, o amigo não se pergunta? Eu creio que falta os que são tímidos – como o Professor mencionou no outro artigo – começarem a ousar em seus comportamentos e agir sem tanta discrição. Muitos agem no mal por serem tolos em cima de um muro, que caem para o lado que os chama. Se os tímidos ousarem e forem bons, talvez despertem muitos que vivem e trabalham, comem e se diverte adormecidos da alma…

  2. Em nossa cultura predomina a idéia do vencedor. Somos educados a obter a medalha de ouro; a medalha de prata é para o perdedor. Na Copa do Mundo de 1950 a medalha de prata, até hoje, é um pesado encargo. Então, somos compelidos a diminuir, quando não, eliminar o outro.

  3. Nalini, observo suas ponderações ha alguns anos.

    Muito interessante esse seu ponto de vista.

    Mas acredito que devamos dar um passo à frente.

    O problema já foi detectado (e com maestria), mas estamos longe de obtermos uma solução que não se amolde de forma à alma e espírito humano.

    A roupagem do “politicamente correto” apesar de digerível, em doses homeopáticas, não é palatável.

    A saturação é inevitável.

    Por isso indago:

    Qual caminho a ser tomado?

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