Blog do Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

Quem lê quem e o quê?

3 Comentários

Escrever é um exercício solitário. O teclado chama quem se habituou a ver nele a companhia fiel. Quem lê aquilo que se escreve? Minha querida Lygia Fagundes Telles diz que todos escrevem. O difícil é achar um leitor. Gostaria de um dia escrever ficção, para deixar no conto, na novela, no romance, aquilo que não cabe na ligeireza dos limitados toques de um artigo de jornal. Uma crônica deve servir a que finalidade? 

Preencher um espaço no diário que nos acolhe? Quantas vezes não encontramos o cronista a escrever sobre a falta de assunto. O horário chegando, as linhas o aguardam e ele tem de entregar um texto. E nada de especial surge em sua mente. Quem não consegue escrever ficção passa a produzir ensaio. Gênero incerto, nome utilizado por Roland Barthes e concebido de tal forma livre, que pode até dissolver seus próprios limites. 

A ele também se dedicou Susan Sontag que, em 1978, escreveu: “Está se tornando impossível para mim escrever ensaios. Desconsidero a separação (um dogma) entre o ensaio e a ficção. Na ficção, posso fazer o que faço no ensaio, mas não vice-versa”. A mesma Sontag dizia dois anos depois: “Devo desistir de escrever ensaios porque essa prática se torna inevitavelmente uma atividade demagógica. Pareço ser o arauto da certeza que não tenho nem estou perto de ter”. 

Sinto exatamente isso. Escrevo artigos mais alentados sobre os mais diversos temas e, após pesquisar para oferecer alguma coisa de interesse a quem me solicitou ou que possa atrair eventuais leitores, fico numa grande indecisão. Acredito mesmo naquilo? São tantas as incertezas, as ambiguidades no mundo da filosofia e do direito que é muito difícil concluir convictamente. Os ensaístas, na verdade, dão palpites. Fornecem sua opinião, que servirá para a reflexão. 

Contribuem para incrementar o “achismo” que assola a cultura tupiniquim contemporânea. Embora o ensaio seja uma privilegiada forma de expressão, o ensaísta é criticado por sua falta de especialização. Quem fala sobre tudo, talvez nada entenda. Afinal, quem escreve o que e para quem? Escrever, qual cachaça ou cigarro, forma uma legião de dependentes. Mas dessa dependência ainda não quero ser libertado.

José Renato Nalini é Corregedor Geral da Justiça do Estado de São Paulo, biênio 2012/2013. E-mail: jrenatonalini@uol.com.br

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Autor: Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

3 pensamentos sobre “Quem lê quem e o quê?

  1. Meu caro Professor, como sabe, ainda que sem a profundidade e qualidade de muitos que ousam na seara das letras, escrevo também. E sempre pensei que se dependesse dos comentários recebidos em meus blogs, ou os dos cliques em “curtir” nos meus textos em sites outros, jamais valeria dedicar o tempo que dedico a construir uma ideia, alinhavá-la, deixá-la compreensível e interessante a determinada população a quem, penso, serviria bem.

    Mas, há vários anos escutei da boca de uma, até então, de mim desconhecida médium, o que aceito ser verídico – o intercâmbio com o mundo espiritual – num evento espírita. Disse-me ela, em nome de um espírito protetor, que todas as vezes que eu escrevia com a intenção de ajudar meu próximo, chamava em meu auxílio amigos da espiritualidade e eles vinham em minha direção para inspirar-me no que dizer.

    Em outras palavras, com a fé que você, mestre, sabe que possuo, me foi dada a prova de que aquele que se dedica a fazer qualquer coisa no bem, nunca está só. Penso que não somente o seu teclado compartilha dos seus pensamentos, há pessoas de cá e de lá, desse e de outro mundo, muitas vezes silenciosas e discretas, que leem, pensam, refletem, amadurecem e aprendem contigo.

    Continuemos, pois, cada qual com seus roteiros e pensamentos, a escrever, pois se as palavras jogadas no ar evaporam muitas vezes, as letras num papel ou em uma tela de computador, permanecem, e com elas, a nossa própria essência.

    Abraços, paz sempre!

  2. Escrever com sinceridade e consciência é, sem dúvida, uma qualidade ímpar àqueles que tenham prazer em ler e comentar um artigo, ou ensaio. Não se pode olvidar que a pesquisa feita com generosidade remete o leitor a fronteiras que nunca experimentara razão pelo qual deixo este comentário pois além de nos enriquecer com novos patamares do conhecimento, remete-nos à frase bíblica: Sê tolo com os tolos e sábio com os sábios.

  3. Nem eu, mestre! Muito menos limitado!! Esse é o maior dos vícios, a sabedoria através da leitura e sua transmissão minha felicidade. E quão rápido podemos aprender na Era da informação? E se todos virtuosos? O que é o amor senão alimentar a virtude alheia?

    Os magistrados, infelizmente, de leitores ávidos passaram a leitores de pedidos e designadores de decisão por terceiros (e quantas vezes já não ouvimos falar disso? – Qualificados?). Então, passaram a ser meros espectadores conformistas, pois para eles o soldo lhes basta e para alguns, não… Gananciosos, esses são os que escolhem ser parte da escória que nos atravanca. Nem com leitura dinâmica (exercício contínuo) não absorvem as idéias e vêem que o mundo clama por mudanças por si mesmos.

    Os que escolhem realmente fazer justiça, hoje, são raros. No entanto, entendo o egoismo, porque nele todos nós temos parte.

    Assumir o papel de bobo da corte é manter-nos como estamos.

    Sentados em cadeiras suntuosas e salas magníficas, acham que a vida àquilo se resume. Esquecem(-se) humanos e o quanto poderiam evoluir se permitissem a sociedade em fazê-lo. Não sabem o que significa dignidade e, portanto, não são dignos.

    A caneta é poderosa e hoje, em telas digitais, a informação é fácil.. Mas quem se atreve? Medrosos são aqueles que não tiveram coragem de viver… de colocar-se no campo de batalha que é a vida e assumir uma posição.

    Só os sábios crescem, pois os ignorantes escolhem matar as próprias idéias a troco do cômodo que leva à ruina…

    O que das idéias foi construído? Do que se orgulha?

    E se tudo que parece perfeito lhe é falso, como lhe parece Deus?

    Imperfeitos somos indivíduos. Em conjunto: oniscientes, onipotentes e onipresentes: AMOR. A pólis perfeita de Platão, cuja leitura recomendo vivamente, assim como pela obra de Aristóteles. Contraditórios, mas somados iguais.

    Sobre as virtudes e os temas que importam, assistimos aulas previamente, pois por certo, esclarecidos pontos que na leitura “seca” da obra jamais nos atentaríamos, também pela ausência da experiência.

    Para mim, como participar de uma discussão…

    Filho de uma bibliotecária, essa grande mulher de nome Vera, me ensinou que tudo podemos aprender dos livros e verifiquei que sem a experiência nada é possível. Então, lição tirei que a verdade é lenta e triste, pois não obedecia o que foi apre(e)ndido… Já havíamos bebido da água do esquecimento e, depois de um tempo, lembramos de que as possibilidades somos nós que elevamos às probabilidades.

    Não há nova humanidade… A humanidade é a mesma, ao contrário do que afirma Ferry. O que mudou são os anseios que a cada ato nos aproximam mais dos exemplos, de Cristo ou do que há de ruim.

    O Amor não vem em doses homeopáticas e nem como antídoto imediato, mas sim é construção dos atos e dos homens moderados.

    Há aqueles que escolhem por ser os extremos… escolho o meio deles retirando o melhor de cada um, pois só através dele é possível o caminho do justo, do bem: VIRTUDE.

    Como dito, quando vem, é difícil de se reconhecer, pois o renovo bento está nas oportunidades individuais e se as deixar passar, como voltaremos ou caminharemos adiante? Será o próximo mau ou bom?

    A que destinamos nossos filhos e netos? É possível construir uma família isolada? E quando temos poder nas mãos para tornar tudo melhor? Necessário?

    Mestre, desculpe pelos longos textos, mas o que nos nutre são nossas razões, em nossa parca experiência, desejosos de um mundo melhor para o que se (re)constrói: VIRTUDES E VALORES, pois o homem que antes era muitas coisas e produzia tanto, tem sido cada vez menos.

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