Blog do Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

Vocação mimética

1 comentário

O Brasil sempre teve reduzida autoestima. O nacional é sinônimo de inferioridade perante o estrangeiro. O curvar-se perante o de fora é sina. Por isso a espinha dorsal complacente de tantos considerados ilustres. Mal saindo da Colônia, os brasucas achavam bonito copiar a Corte Europeia e trouxeram para os trópicos os trajes do inverno europeu. E assim continuou. Enganou-se quem pensou que aqui se instauraria uma nova civilização, expungida dos defeitos e arcaísmos do Velho Continente. 

Pouco adiantou o alerta de vozes lúcidas. Em termos culturais, o retrocesso é galopante. Vejo a última carta de Fradique Mendes, que Eça de Queiroz endereçou a Eduardo Prado e constato a realidade. Eça diz: “O que eu quereria (e o que constituiria uma força útil no Universo) era um Brasil natural, espontâneo, genuíno, um Brasil nacional, brasileiro, e não esse Brasil, que eu vi, feito com velhos pedaços d´Europa levados pelo paquete, e arrumados à pressa, como panos de feira, entre uma natureza incongênere, que lhes faz ressaltar mais o bolor e as nódoas”.

Eça critica o abandono do campo e a insensatez de se apinhar na cidade e a cópia tumultuária da civilização europeia: “Em breve o Brasil ficou coberto de instituições alheias, quase contrárias à sua índole e ao seu destino, traduzidas à pressa de velhos compêndios franceses”. Mais ainda: “Os velhos e simples costumes foram abandonados com desdém: cada homem procurou para a sua cabeça uma coroa de barão, e, com 47 graus de calor à sombra, as senhoras começaram a derreter dentro dos gorgorões e dos veludos ricos. Já nas casas não havia uma honesta cadeira de palhinha, onde, ao fim do dia, o coro encontrasse repouso e frescura: e começavam os damascos de cores fortes, os móveis de pés dourados, os reposteiros de grossas borlas, todo o pesadume de decoração estofada com que Paris e Londres se defendem da neve e onde triunfa o micróbio”.

Quanta verdade! E hoje? Só trocamos de original. Copiamos os americanos, mas não tivemos coragem de abandonar o velho esquema bacharelista, reproduzido de uma Coimbra que o conservara por mil anos e que nós mantemos desde 1827 sem qualquer adaptação. Viva o Brasil!
 
JOSÉ RENATO NALINI é Corregedor Geral da Justiça do Estado de São Paulo, biênio 2012/2013. E-mail: jrenatonalini@uol.com.br.
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Autor: Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

Um pensamento sobre “Vocação mimética

  1. Não sei a razão pela qual me surgiu esse falso aviso:
    Detectado comentário repetido. Parece que você já disse isso!
    (E eu não havia digitado nenhuma palavra anteriormente).
    MARIAN DE ARAUJO

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