Blog do Renato Nalini

Ex-Secretário de Estado da Educação e Ex-Presidente do Tribunal de Justiça de São Paulo. Ex-Presidente e Imortal da Academia Paulista de Letras. Membro da Academia Brasileira de Educação. Atual Reitor da UniRegistral. Palestrante e conferencista. Professor Universitário. Autor de dezenas de Livros: “Ética da Magistratura”, “A Rebelião da Toga”, “Ética Ambiental”, entre outros títulos.


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Para que PIB sem saúde?

Os chineses têm mais juízo do que os brasileiros. Ao menos é o que se extrai da medida adotada pelas autoridades de Guangzou, metrópole repleta de carros, que teve a coragem de inibir a entrada de novos automóveis no seu trânsito caótico. A providência foi introduzir leilões e loterias para placas de licenciamento. Isso reduzirá quase à metade o número de carros novos nas ruas. 

É a mais restritiva dentre as iniciativas adotadas por grandes cidades chinesas que optaram pela qualidade de vida, embora em detrimento da economia. O crescimento da China trouxe um ar empesteado e uma água suja. Isso tem reflexo nos custos da saúde. Mesmo com a tendência de desaceleração da economia, houve maturidade do governo. É preciso renunciar a algum crescimento para se obter uma saúde melhor para o cidadão.

A par disso, exige-se um diesel e uma gasolina mais pura. Fecham-se fábricas poluidoras que não se adaptam a níveis suportáveis de emissão. São destruídos carros fabricados antes de 2005, pois não atendiam a um controle de qualidade compatível com a gravidade da situação ambiental. A China reconheceu que o crescimento a qualquer custo não é sustentável. Ouviu o clamor do povo, insatisfeito com o exagero na ocupação das ruas pelos automóveis, a subserviência da saúde aos imperativos da economia. 

Diante da insatisfação pública com o tráfego, a prefeitura de Guangzou construiu extensas linhas de metrô, multiplicou os parques, edificou enorme teatro de ópera. Há uma lição a se extrair desse fato. A China não é mais uma economia em desenvolvimento que adotou um capitalismo tosco e continua comunista no nome. É uma economia industrializada moderna, cujos líderes sabem ouvir a opinião pública e buscam equilibrar meio ambiente, bem-estar social e outras questões. 

As autoridades estão mais interessadas no meio ambiente depois de enormes manifestações no ano passado contra fábricas poluidoras em Dalian, Shifang e Qidong. Tudo ali é mais fácil porque o governo também é dono das empresas automotivas. Não é refém delas, como em outros países. Está certo o chinês que hoje reconhece: “Para que precisamos de PIB, se não temos saúde?”.

José Renato Nalini é Corregedor Geral da Justiça do Estado de São Paulo, biênio 2012/2013. E-mail: jrenatonalini@uol.com.br.

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Adeus à privacidade?

Os viventes estão superconectados. Não apenas os jovens, que já nasceram nesta era das redes sociais. É uma questão de “cabeça”, de cultura, mais do que de cronologia. Muitos são os idosos que descobriram na internet a melhor fórmula de não serem condenados à solidão. O que isso significa?

 

Os americanos, sempre zelosos em detectar as novas tendências, acenam com dúplice perspectiva: 55% acreditam que a tecnologia produzirá pessoas mais hábeis em inúmeras tarefas. 42% pensam, ao contrário, que os indivíduos ficarão mais distraídas e menos capazes de reter informação. Seja como for, as redes sociais são frequentadas por milhões de pessoas e “fazem a diferença” na desconstrução de reputações.

 

Dentre as já disseminadas, destacam-se o Facebook, o Twitter, o Google, o Tumblr, Pinterest, Flickr, Linkedin, Reddit, Soundcloud, Foursquare, Path, Last.fm, Instagram e Highlitght, cada qual com um perfil específico. O Facebook foi criado em 2004 por Mark Zuckerberg e tem 955 milhões de usuários em todo o mundo, sendo o Brasil o segundo maior país na rede. Em seguida vem o Twitter com 500 milhões e o Google+ com 250 milhões.

 

Será que com isso a privacidade acabou? Às vezes espalhamos informações sobre nós mesmos e partilhamos nossa vida, nossos hábitos e preferências, sem nos dar conta de que isso nos fragiliza ao nos tornar vulneráveis. Mas a comunicação pela internet é irreversível. Quem hoje escreveria uma carta, com toda a mão de obra pertinente? Comprar papel e envelope. Ir até o correio. Ficar na fila. O papel está condenado. Para o ambientalista, então, esse é um convite e tanto.

 

O melhor é concluir que este é o mundo em que vivemos e nada indica que possa vir a se modificar de forma substancial daqui para a frente. Como diz Gilson Schwartz, “as redes sociais expandem nossa capacidade de fazer conexões e, portanto, de ocupar a própria mente. Depois da imprensa, foi a maior transformação em nossa maneira de entender e se fazer entendido, visualizar e se tornar visível”.

 

Não adianta se recusar a participar disto. É o mesmo que renunciar a sair à noite por causa da violência. Ou deixar de ligar a TV por causa das baixarias. Para o bem e para o mal, esta é a nossa era. Vivâmo-la!   
 
JOSÉ RENATO NALINI é Corregedor Geral da Justiça do Estado de São Paulo, biênio 2012/2013. E-mail: jrenatonalini@uol.com.br.


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Mais pobreza, mais crime?

A ignorância ou a superficialidade costuma considerar o crime um fato de pobre. Não é a pobreza a causa do crime, porém uma soma de fatores. Se o pobre tivesse, inevitavelmente, de praticar ilícito penal, o Brasil seria muito pior do que já é. Pois os pobres são em número infinitamente superior ao dos ricos.

Para o sociólogo José Vicente Tavares dos Santos, a constatação de que os índices sociais tiveram melhoria e o crime aumentou é prova inconteste de que não há relação entre pobreza e violência. Para ele, “a violência penetrou em todo o tecido social. Passou a ser, em vários grupos sociais, uma norma de conduta, um valor. A violência não está à margem da sociedade. E a sociedade é muito mais violenta do que ela mesma quer admitir, pois há uma violência invisível”. 

Quem já não assistiu a brigas de trânsito? Pessoas em carros valiosos, bem vestidas, não se pejam em usar de palavreado chulo, de ameaçar e até de mostrar armas. Que belo exemplo dão mães que vão buscar seus filhos à saída da escola e são tão afoitas que parecem não se importar com a segurança do filho alheio. E as torcidas de futebol? E as baladas que terminam madrugada plena em bares nos quais uma discussão termina em pancadaria? Não são exatamente os pobres que primam pela violência nesta terra sem educação. 

São Paulo, esta concentração insensata de 20 milhões, é o lugar em que mais acontece homicídio. São Paulo e Rio concentram 40% dos homicídios no Brasil, embora só possuam 18% da população brasileira.

Um ponto relevante e que pouca gente observa é a facilidade com que se arma aquele que quer matar. Há um “Estatuto do Desarmamento” em vigência plena. Porém, o Brasil é o país em que há leis que pegam e leis que não pegam. Esta lei parece que não pegou. Se houvesse real interesse, o recolhimento de armas deveria ser a regra inflexível. Apreensão e destruição imediata. 

Não faz sentido armazenar o instrumento letal, para servir de prova no sofisticado processo que torna o caminho muito mais importante do que o direito lesado que a ele deu origem, se o sistema recursal caótico e kafkiano é pródigo em assegurar longos anos até que o criminoso seja julgado por seus pares. Há muito o que consertar neste triste Brasil. 

      
JOSÉ RENATO NALINI é Corregedor Geral da Justiça do Estado de São Paulo, biênio 2012/2013. E-mail: jrenatonalini@uol.com.br.