Blog do Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

Eu ouço você!

2 Comentários

Estou lendo “O que o dinheiro não compra – Os limites morais do mercado”, de Michael J. Sandel, o famoso autor de “Justiça” e isso me fez pensar em muita coisa. Hoje pagamos pela psicanálise, deixando de usar o confessionário gratuito. É verdade que o psicologismo contemporâneo critica a confissão, sob argumento de que ela libera o pecador para reiterar sua via pecaminosa. 

“Lavou, está novo!” é comentário do agnóstico ou do ateu. Nada obstante, o consumismo contribuiu para esvaziar o confessionário. Numa sociedade de consumo, o que não se paga não tem valor. Na contramão dessa tendência, algumas paróquias paulistanas instituíram serviço gratuito de oitiva de quem quer desabafar, sem necessariamente se confessar. Voluntários ouvem aqueles que querem falar e não têm quem os ouça. Os voluntários não são psicólogos, não dão conselhos. Oferecem apenas tempo, atenção e paciência. 

O salvatoriano Padre Deolino Pedro Baldissera instituiu a escuta na Paróquia Nossa Senhora Aparecida, em Moema, em 2003. Hoje conta com 16 voluntários e o serviço foi ampliado para outras paróquias: 15 na Capital, uma em Santo André e outra em Santos. O Grupo de Apoio do Serviço de Escuta é a entidade que treina os interessados em ouvir a população. Entre as regras está o respeito à escolha religiosa. O serviço pode ser utilizado por crentes de todas as confissões e por ateus.

O anonimato é a regra e o serviço recebe desde idosos solitários, como jovens com problemas sentimentais. A prova de que o serviço é útil é a contínua procura de pessoas desesperadas porque ninguém as ouve. A solidão na multidão é fenômeno contemporâneo e afeta a todas as classes sociais. Em São Paulo, há domésticas de outras regiões do Brasil que não têm com quem conversar nos fins de semana. Idosos que recordam tempos felizes. 

Pessoas que chegam, choram, desabafam e nem precisam voltar mais. Encontraram uma forma gratuita de despejar sua tristeza, angústia ou desespero. Ninguém mais quer ouvir problemas. A sociedade quer se divertir, esquecer seus males, disfarçar, fingir. O que faz aquele que gostaria de partilhar seu desconforto com o semelhante? É interessante pensar nisso e nos tempos estranhos que nos foram oferecidos para esta curta permanência no Planeta Terra. 

JOSÉ RENATO NALINI é Corregedor Geral da Justiça do Estado de São Paulo, biênio 2012/2013. E-mail: jrenatonalini@uol.com.br.

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Autor: Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

2 pensamentos sobre “Eu ouço você!

  1. Dr. Renato: eu sou psicóloga e concordo plenamente com o senhor. Quase ninguém tem disponibilidade emocional para ouvir . Muitas procuram a psicoterapia para simplesmente desabafar,o que poderia ser feito por qualquer amigo. Muito triste , pois todo mundo quer falar, mas não há troca, prevalece o monólogo. Que bom que existe quem faça esse papel de forma tão generosa , pois a necessidade é imensa

  2. Importante contataçao que o secretario faz. Parabens pela reflexao e aconselhamentos. Como sempre estar presente no Blog nao e so uma liçao de vida e a oportunidade que um cidadao de qualidades especiais tem e a preocupaçao permanente em dividir seu saber, sua cultura, formaçao e informaçao ao publico.

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