Blog do Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

Aceitarei a velhice

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Era o nome de um poema de Lupe Cotrim Garaude, que morreu jovem e linda, vítima do câncer. Leu o poema junto à lareira do “Clubinho” na Fazenda Campo Verde, experiência insuperável e irrepetível que Dulce e Victor Simonsen vivenciaram em Jundiaí. Lupe sabia que estava condenada e em estágio terminal. Daí o seu compromisso : seria bem-vinda a velhice, desde que viva.

Na verdade ela permanecerá esplêndida e jovial na memória coletiva e, de forma bastante singular, na recordação de quem a amou. Teria ela aceito a idade e o séquito de suas mazelas? Viver muito impõe tributos às vezes quase insuportáveis. Deficiência dos sentidos, deterioração das faculdades, depauperação física. Talvez por isso Walmor Chagas, que viveu uma vida plena e que, por viver da arte, poderia encarar o mundo de outra forma, não resistiu às vicissitudes naturais. 

Não queria incomodar ninguém. O idoso se sente um peso. Sabe que na vida atual não há lugar para o velho. A juventude é onipotente. Pensa que ficará assim para sempre. Lya Luft, numa de suas crônicas, também critica a tentativa de fantasiar a chegada dos anos. “Melhor idade?”, quem pode afirmar isso? Os pais que os filhos colocam nas “casas de repouso” ao menor sinal de comprometimento das funções básicas? 

Aqueles que não recebem visitas dos filhos e menos ainda dos netos? O Primeiro Ministro japonês fez uma declaração cruel, mas verdadeira. Os idosos que já não produzem deveriam se apressar a morrer. E ele fala num país em que o suicídio é uma saída honrosa, não uma fuga. Existe o Estatuto do Idoso, mas a impregnação cultural é mais densa. A mídia consagra a mocidade, não a velhice. 

O ideal de todos é parecer jovem. Mesmo no ridículo da submissão irrestrita a ditames de moda feita para jovens e usada por quem não enxerga a própria idade. A receita é aceitar a velhice, como no poema de Lupe. Com suas dores, suas saudades, seus remorsos, suas constatações de que o sonho é infinito e o realizado é pífio. Conscientizar-se de que o fim de tudo é idêntico para todos.

Agradecer, se puder e tiver motivos, não ter o destino desses moços que desaparecem às centenas, asfixiados, mortos por erro médico, por brigas de gangues, em chacinas que não comovem, pois a morte do outro é algo que o egoísta não absorve e nem sente, senão por alguns instantes.

JOSÉ RENATO NALINI é Corregedor Geral da Justiça do Estado de São Paulo, biênio 2012/2013. E-mail: jrenatonalini@uol.com.br.

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Autor: Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

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