Blog do Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

Hienas pífias

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Diz-se que a hiena emite um som que lembra gargalhada. E não teria motivo algum para rir. Pois o “zoon politikon” muitas vezes faz lembrar esse animal curioso. É o que acontece agora, quando se festeja a redução do número de homicídios perpetrados em maio de 2013, comparados com maio de 2012. Neste ano, mataram 332 pessoas. Em 2013, 328.

Isso é motivo suficiente para comemoração? Será que se fez a conta de que 328 mortos, quase todos jovens do sexo masculino e pobres, significam 656 pais em luto, número ainda maior de irmãos a chorar, 328 mulheres, noivas e companheiras ou companheiros desolados, quantos filhos ficaram órfãos?

É para se festejar o enterro de 328 brasileiros que poderiam continuar a viver por muitas décadas? Outro ufanismo da família da hiena é o da redução do desmatamento. “Apenas” duas áreas equivalentes à cidade de São Paulo foram destruídas na Mata Atlântica, bioma protegido pela Constituição da República desde 1988. A campeã do desmatamento foi a bancada de Minas Gerais. 

Aquele norte tórrido, já próximo à Bahia, viu-se despojado de fragmentos de mata que multiplicam as “ilhas de calor” e tornarão a Terra dentro em pouco um lugar em que a vida não terá vez. Logo em seguida o Paraná. Mas São Paulo não fica muito longe. A Serra do Japi continua a ser o objeto de consumo dos empreendedores que vendem sua imagem para obter mais lucro e não se preocupam com preservá-la. 

Não interessa a eles que, desprovida desse patrimônio natural – que ninguém construiu, mas consegue rapidamente destruir – toda a região perderá seu microclima e se tornará uma periferia inóspita, violenta e feia, como já acontece em grande parte de nosso Estado. 

Somos inconsequentes, somos lenientes, somos coniventes e cúmplices da violência e da destruição da natureza. Não nos preocupamos com educação integral, de que faz parte a educação ambiental. Quem respeita a natureza também aprende a respeitar o semelhante. Quem acha que não tem nada com isso e a obrigação é do governo, está fazendo o jogo da crueldade. Festejar desgraças é típico de hienas. Só que elas são irracionais. Nós, pretensiosamente, nos consideramos o suprassumo da criação. Será que somos mesmo?   
JOSÉ RENATO NALINI é Corregedor Geral da Justiça do Estado de São Paulo, biênio 2012/2013. E-mail: jrenatonalini@uol.com.br.
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Autor: Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

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