Blog do Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

Poder refém da demagogia

10 Comentários

Vejo em três níveis do governo brasileiro um fenômeno trágico. Os Chefes de Executivo nas três esferas são obrigados a aceitar imposições partidárias para conseguir a governabilidade. Com isso, pouco resta para a escolha pessoal do primeiro time. O partido coligado indica aquele que deve ser Ministro ou Secretário. Quem foi eleito se vê atado a pessoas com as quais não conviveria, em quem não confia, mas que estão ali, exercendo importante parcela do poder e respondendo por políticas públicas as mais relevantes.

Será que tem de ser assim? Algum eleito teria coragem de se abrir com a população que o elegeu e colocar as cartas na mesa? Dizer que gostaria de ter um Ministério ou um Secretariado melhor, de sua confiança, irmanado nos ideais que o levaram a fazer campanha e se eleger, mas que é refém de um sistema superado?

Talvez ele recebesse o respaldo do povo para fazer, de fato, o governo que prometeu. Quantas pessoas honestas se dizem sitiadas por outros nem tanto, mas por circunstâncias das quais não podem se desvincular? Quem teria desapego do cargo para abrir o jogo, contar o que se passa na realidade e pedir o apoio popular para continuar a exercê-lo de acordo com os seus princípios?

Essas alianças ad-hoc, costuradas apenas pelo interesse personalíssimo e econômico, não condizem com as reais necessidades de um país com tantas iniquidades e injustiças. O Brasil poderia ser bem melhor se esse universo complexo e ambíguo da política eleitoral fosse aperfeiçoado. 

A continuar nos velhos esquemas, aos poucos o homem honesto se desinteressará de fazê-la, o que não será lamentado pelos profissionais que neles enxergam um estorvo a ser realmente neutralizado.   

Não há necessidade de reforma constitucional, nem de mais leis – elas existem em abundância e para todos os gostos – aliás, o excesso de direito parece contribuir para dificultar a realização do justo humano possível. Basta vontade política, ética de verdade ou, em linguagem que todos entendem, apenas vergonha na cara.
Será pedir muito para um Brasil que tem o povo mais criativo, mais paciente, mais generoso e, infelizmente, um dos mais sofridos de todo o planeta?

JOSÉ RENATO NALINI é Corregedor Geral da Justiça do Estado de São Paulo, biênio 2012/2013. E-mail: jrenatonalini@uol.com.br.

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Autor: Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

10 pensamentos sobre “Poder refém da demagogia

  1. Dr. Nalini, o senhor acompanhou a votação da PEC 37 na Câmara pela televisão? Pois é, independentemente do tema discutido, parecia um bando de gente honestíssima, cheias de valores, missionários do povo, em busca do bem comum – como deveria ser, na verdade. Muita demagogia. Parecia um teatro. Mas, quem sabe, um dia isso muda. O Brasil é um país jovem.

  2. Sábias palavras Renato. É no mínimo isso que esperamos dos políticos para o nosso Brasil

  3. Eu acho a praga mais perniciosa de nossa sociedade e política essa tal de demagogia. Vicia em esquemas bajulatórios privilégios e trocas de favores entre políticos, assim não prevalecendo o que realmente importa que é a necessidade de quem os elegeu como representantes nas mais diversas instâncias do governo. É triste, não alavanca projeto algum e nem deixa nosso país ir pra frente. Um forte abraço, excelente texto. Cris

  4. Não sei… Mas será que os que são eleitos, mesmo que tenham as melhores das intençoes, não sabem o que encontrarão pela frente? Será que o livro “A Revolução dos Bichos” reflete a realidade? Eu, infelizmente não entendo nada de política, mas, certa vez, há muitos anos, conversei com um senhor japones, que era jornalista correspondente Brasil-Japão e ele me disse que inicialmente cobria as matérias sobre política, mas depois desistiu e passou a cobrir matérias médicas e científicas. (cont
    http://m.facebook.com/stories.php?aftercursor=MTM3NDE5ODU2MDoxMzc0MTk4NTYwOjQ6NTQ3ODY5OTYyNDEwMTg3NjYyMzoxMzc0MTk2NDMzOjA%3D&tab=h_nor&__m_log_async__=1&refid=7

  5. Magnífico. Professor Nalini.

  6. Meu post no Facebook:
    Perfeito Janine! Os dois lados! É por isso que muito nas manifestações se cogitou o apartidário. Infelizmente, vemos que a política em uma democracia frágil e engatinhando ainda, precisa de atitudes, de ambas as partes, medíocres para alcançar o poder, ou dele se aproveitar, ou se perpetuar. Estamos muito longe ainda de, as duas partes reconhecerem os acertos e, principalmente os erros. Em prol da governabilidade, desde o início da redemocratização, muitas concessões estão sendo feitas, aceitas e oportunizadas em favor de objetivos menores, porém rentáveis para poucos. O problema, e imenso em todos os níveis de administração, é o da falta de responsabilidade: erros graves acontecem a todo tempo e não crime de responsabilidade. Mudam os governos e os erros graves são esquecidos, em prol da próxima governabilidade. Estamos longe de algo melhor, pois o padrão político ora estabelecido, de anciãos com resquícios de colonização entranhados nas suas cabeças, a favor ou contra, querem manter posições. E isto vai demorar a ser contornado. Acredito que os primeiros passos já foram dados. Mas são passos lentos que, com certeza, serão aprimorados pela insistência inerente da evolução.

  7. Fico sempre me questionando -será que a crise de legitimidade que vivemos não decorre de nossa ausência de participaçâo?

  8. Mas sem as “alianças partidárias” não se ganha a eleição. Foi o que o PT fez em 2002 para que Lula chegasse à Presidência da República. Se José Dirceu, com o consentimento do Lula, não tivesse oferecido Ministérios etc ao PP, PTB e demais partidos “fisiológicos”, não teria conseguido os votos suficientes para a vitória. A política é o que é, porque o homem é o que é.

  9. “Será que tem de ser assim? Algum eleito teria coragem de se abrir com a população que o elegeu e colocar as cartas na mesa? ”

    Infelizmente sim, é assim, porque o eleito que abre o jogo seria rapidamente comparado a Hugo Chavez.

  10. E o pior, eminente Desembargador, é que Ruy Barbosa já vivia isso há 100 anos atrás, tendo ficado famosa sua frase, inscrita na Oração aos Moços que se resume em
    ” de tanto ver triunfar as nulidades…, a gente se envergonha de ser bom e honesto “

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