Blog do Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.


4 Comentários

Ética para que?

Não estranhei que a palavra “ética” tenha sido excluída do Código de Conduta dos Senadores. Afinal, “ética” é ficção jurídica. Não existe, senão no discurso. Quem mais abusa de seu uso é justamente aquele que vende a alma para conseguir poder, dinheiro, prestígio, glória e fama.

Não é novidade o desinteresse dos exercentes de autoridade pelo tema ética. A resposta do alto dignitário que se responsabilizou pela retirada do verbete é significativa. A inclusão da ética “daria margem a interpretações perigosas. O que é ética para você pode não ser para mim. E aí incluir isso iria gerar problema de conflitos ali. A ética é uma coisa muito subjetiva, muito abstrata” (OESP, 6.8.13, p.A4). Realmente, ética é algo subjetivo. Tanto que se fala em ética de propina, ética de negociata, ética de canalhice, ética de bandidagem, ética de ocasião, ética para os amigos, ética para os inimigos. Ética pública e ética privada. 

Verdade que existe uma ciência chamada ética. Ela é conceituada como ciência do comportamento moral do homem em sociedade. Para essa concepção, a moral é o objeto da ética. Não se confundiriam ética e moral, como pretendem muitos. O importante seria um parâmetro de comportamento que visasse à prática do bem e, simultaneamente, se propusesse a evitar o mal. Todavia, aqui também caberia a ressalva: o que é bem para mim pode não ser para você, o que é mal para mim, poderia não ser para o próximo. A relativização é um dos signos mais fortes desta sociedade do narcisismo, do egoísmo, do materialismo e do consumismo.

A falta de seriedade com que se encaram as questões morais explica a situação de um Brasil onde a desconfiança é a regra geral. Ninguém confia em ninguém. Todos estão achando que o outro está pronto a lesar, a “puxar o tapete”, a enganar, a levar vantagem e a pensar unicamente em si. Muito pior do que pensar primeiro em si. Esta postura poderia levar à conclusão de que em segundo lugar viria o pensar no outro.

Ética é ficção jurídica. Parece impossível sanear um espaço contaminado em que a versão é mais crível do que a verdade. Espaço no qual a aparência vale mais do que o conteúdo. O processo se sobrepõe ao direito. O fingimento e a hipocrisia dominam e o probo é chamado de trouxa, incapaz de se aproveitar das oportunidades que levam ao sucesso e à riqueza. 

JOSÉ RENATO NALINI é Corregedor Geral da Justiça do Estado de São Paulo, biênio 2012/2013. E-mail: jrenatonalini@uol.com.br.
Anúncios


Deixe um comentário

Será que é isso mesmo?

Meus avós maternos – Anna Rodrigues e João Barbosa – morreram quando eram mais novos do que eu. Nem se fale de minha “nona”, Catarina Boaroto Nalini, que teve morte ainda mais precoce. Os três pareciam idosos. O que mudou? A minha concepção de “idoso”? Ou os tempos são realmente outros? O neurologista Oliver Sacks acaba de completar 80 anos. Escreveu no “New York Times”: “Oitenta anos! 

Mal consigo acreditar. Muitas vezes, sinto que a vida está apenas começando, mas então me dou conta de que ela quase acabou”. Ele se considera a pessoa mais velha que conhece. Mas nos Estados Unidos, onde vive, há mais de 10 milhões de pessoas com mais de 80 anos. Graças aos avanços da medicina, aos cuidados com a saúde e, por que não dizer, por uma dose razoável de sorte, as pessoas estão vivendo mais. Ainda estes dias vi na TV um paciente de câncer no pulmão dizer: 

“Fumar é a maior ignorância que pode ser cometida contra nós mesmos!”. Ao lado deles, existem os que abusam de outras drogas: o álcool, os estupefacientes, a velocidade, as vítimas da violência. Estas reduzem a média. Todavia, o que dizer quando ícones da juventude eterna como Bob Dylan, Paul McCartney, Mick Jagger, Roberto Carlos, já passaram dos 70 anos? Os ídolos da minha juventude criticavam os valores das gerações mais velhas. Hoje, quem possui 80 anos parece estar com 50. Ou, quem completa 71, diz que está com os 17 reciclados… 

A verdade é que os mais velhos sentem o tempo passar mais rápido. A demora é aquele período com a boca aberta, aguardando que o dentista faça o tratamento. Ou a retirada de sangue. Ou os minutos que dura uma tomografia, uma punção, uma ressonância magnética. É preciso se controlar para não perder a tranquilidade. Um cateterismo, uma angioplastia, um exame invasivo qualquer. Mas os anos, esses passam rapidamente. 

É estranho verificar que se tem mais amigos no etéreo do que na vida real. Que você conheceu nomes que hoje denominam logradouros públicos. A idade tem suas vantagens? Alguém já sentiu a falta de pressa, o ócio com dignidade, o descanso, a tranquilidade? Ou tudo continua como antes, só que hoje de forma acelerada, sem tempo de fruir melhor do convívio, com a mesma urgência de sempre?

JOSÉ RENATO NALINI é Corregedor Geral da Justiça do Estado de São Paulo, biênio 2012/2013. E-mail: jrenatonalini@uol.com.br.


2 Comentários

Mais uma vergonha

O Estadão noticiou que a Presidência da República teria cancelado a visita de uma inspetora da ONU que chegaria ao Brasil estes dias para examinar como anda o acesso à água e ao saneamento básico. Segundo a ONU, nos últimos anos o Brasil só melhorou 1% em relação ao imprescindível serviço de acesso a água limpa e a tratamento do esgoto doméstico.

Isso significa que 4% da população brasileira, ou uma população equivalente à de todos os habitantes de Portugal, ainda se servem de privadas sem ligação com tratamento de esgoto. É inacreditável que o Brasil empregue bilhões em obras suntuárias para a Copa, desperdice bilhões em propaganda oficial, permita que autoridades usufruam de transporte oficial, se hospedem nos hotéis mais dispendiosos – mesmo em viagem a País que conta com mais de uma Embaixada – e mantenha boa parte de seu povo em condições tão primitivas. 

A representante da ONU não recebeu qualquer justificativa para a negativa. Ela só teria um dia de encontro com autoridades brasileiras. No mais, visitaria São Paulo, Rio de Janeiro, Recife, Salvador e outras grandes cidades. Ela estranhou que no Rio de Janeiro as favelas continuem sem tratamento condigno do esgoto doméstico mas já disponham de teleféricos. Estaria errado quem viesse a presumir que essa negativa sem causa tem razões até compreensíveis, sob a ótica do governo? 

Ou seja: uma voz externa a mostrar mais uma chaga no Brasil do “nunca antes neste país”… poderia legitimar mais manifestos populares. Afinal, ninguém ainda viu cartazes pleiteando saneamento básico, esgoto e privadas decentes para a população excluída. O baixo investimento na infraestrutura imprescindível à saúde não é cacife eleiçoeiro. Tudo o que fica sob a superfície é considerado sofrível cabo eleitoral. 

O Ibope precisa de luzes feéricas, exibicionismo, personalismo exacerbado, tudo bem na linha da cultura da aparência e da fantasia que inspira o poder popularesco em todo o globo. Enquanto isso o povo se satisfaz com bolsas, com Copas, com ufanismo, culto à personalidade, crença no poder supraterreno dos insubstituíveis. Iguais àqueles que hoje estão esquecidos nos cemitérios.

JOSÉ RENATO NALINI é Corregedor Geral da Justiça do Estado de São Paulo, biênio 2012/2013. E-mail: jrenatonalini@uol.com.br.


Deixe um comentário

Cana & Cana

Percorri quase todo o Estado de São Paulo, em seus vários quadrantes, visitando comarcas e foros distritais. Pude constatar que a sensação haurida no exercício da Câmara Reservada ao Meio Ambiente do Tribunal de Justiça, desde a sua criação, em 2005, até minha eleição para a Corregedoria Geral da Justiça em 2011, é muito pior na realidade. 

O Estado de São Paulo converteu-se num extenso canavial. Já comentei que o agronegócio arrenda os antigos sítios, dizima tudo, planta cana, promete excelente remuneração e depois submete os donos da terra às leis do mercado. O resultado é que cidades perdem população. Os jovens não têm perspectiva de trabalho. Tudo encarece. Desaparecem os “sítios” autárquicos para a monotonia quase-morta da monocultura.

 

O pior de tudo é que as “cidades-fantasma” imploram a construção de presídios. A população carcerária compensaria a perda de habitantes. Por isso é que os canaviais só cedem espaço às homogêneas penitenciárias que se espalham pelo interior. Triste cenário este em que esta chaga, que poderia ser menor se houvesse um projeto consistente de verdadeira educação – não pífia escolarização e insuficiente -, e conscientização da sociedade. 

A matriz da delinquência. Ninguém se sente responsável pela criminalidade cada vez mais precoce. Tanto que o discurso da moda é o da redução da menoridade penal, para poder enjaular adolescentes infratores. 

Alguém já se preocupou em elaborar uma estatística dos presídios construídos nos últimos anos em nosso Estado? Quem se ocupa em analisar os custos da manutenção do sistema prisional? O que ele representa em termos de edifícios escolares e estabelecimentos hospitalares ou de atendimento laboratorial a enfermos? Quanto significa tal cifra em cotejo com o saneamento básico? Sabe-se que a cadeia é necessária, mas não deixa de ser um mal. Por que não adotar outras opções ao presídio? Sobretudo na área da prevenção? 

Triste destino o de um Estado-membro converter-se em cenário de cana – vegetal – e “cana” – solução única para reprimir o crime. Mas esse parece o caminho inexorável da brava terra bandeirante. 

JOSÉ RENATO NALINI é Corregedor Geral da Justiça do Estado de São Paulo, biênio 2012/2013. E-mail: jrenatonalini@uol.com.br.


6 Comentários

Vi e ouvi o Papa

Fui convidado para a missa no Santuário de Aparecida do Norte e estive a poucos metros do Papa Francisco. Não fiz força para chegar mais perto. Não tenho o fetiche do toque. Já foi suficientemente saudável participar do sacrifício e ouvir sua homilia. 

Ele é simples e objetivo. Deixou três mensagens que chamou de propostas práticas. Todas factíveis. A primeira: conservar a esperança. Por mais que o mundo pareça nos desalentar, o cristão tem razões para nutrir a expectativa de algo melhor do que este vale de lágrimas. Segunda: entregar-se à surpresa de Deus. O Criador nos surpreende. A sabedoria popular já sabia disso. Tanto que o ditado “O homem põe, Deus dispõe” é o resumo para a vã pretensão humana de ser dono de seu destino. 

A vida é plena de surpresas. A ciência também alertou que a única certeza com que se pode contar é a incerteza. Mas quem possui a esperança de uma eternidade, não precisa se atormentar. Tudo passa. Só Deus não passa.Os desígnios insondáveis da Providência darão o sentido ao inexplicável.

A terceira proposta: manter o coração alegre. Quem cultiva a esperança e confia em Deus não pode ser triste. Um santo triste é um triste santo, já dizia nosso dom Gabriel Paulino Bueno Couto, rumo aos altares. 

Francisco tem poucos meses de pontificado. Mas já conseguiu milagres. Fazer o Rio hospedar três milhões de pessoas fora do réveillon e do Carnaval, sem bagunça e sem arrastões. Estive lá no domingo, antes de sua chegada e me surpreendi com os peregrinos felizes, dizendo “Jesus te ama” em vários idiomas a quem estava na praia. 

O melhor sinal de que Francisco é bom é a resistência do radicalismo ao seu carisma. Ele testemunha a verdade da proclamação “Em casa de meu Pai há muitas moradas!”. Múltiplos os caminhos que levam à salvação.

Embora a politicalha queira se valer de suas mensagens, o povo não é bobo e sabe em quem acreditar. Quisera estar vivo e poder assistir à prevalência da verdade e do bem, para que a indignação difusa se transformasse em ira santa e pudesse, em efetivo, mudar a face da Terra.    

JOSÉ RENATO NALINI é Corregedor Geral da Justiça do Estado de São Paulo, biênio 2012/2013. E-mail: jrenatonalini@uol.com.br.


Deixe um comentário

Os olivais do crepúsculo

Esse é o nome do romance escrito por João de Scantimburgo, há pouco falecido e sucedido na Academia Brasileira de Letras por Fernando Henrique Cardoso e na Academia Paulista de Letras por Juca de Oliveira.

Convivi com João em duas épocas. Primeiro, na legendária experiência que Dulce e Victor Simonsen promoveram em sua Fazenda “Campo Verde”. Nessa época, eu mais o ouvia, pois exatamente 30 anos nos separavam. Quando se tem menos de 20, nem sempre há auditório pronto a escutar o que nos passa pela mente. Já a partir de 2003, participamos das mesmas sessões da Academia Paulista de Letras, onde estou há dez anos. Continuei a ouvi-lo, mas na condição de colega. E agora, os 30 anos já não pesavam. Éramos confrades.

Fui ler o romance após sua partida. Foi publicado em 2000, quando o autor já entrava nos 85 anos. Na verdade, não é ficção. É memória. Relata a desdita de uma família nobre da Polônia, que se vê na miséria após a invasão alemã. Família na qual João se integrou, pois – já viúvo – casou-se com uma jovem divorciada e com ela conviveu a partir de 1958, aqui sim, num autêntico romance.

Menciona Dante, que no “Inferno”, considerava inexistir dor maior do que, na miséria, recordar-se de tempos felizes. A saga dessa família foi vivenciada com emoção. O narrador incorporou a tradição, a heráldica, o charme e o glamour de uma nobreza consistente. Explica-se o fervor para quem foi moço pobre em Rio Claro, passar a conviver com pessoas que conhecem os antepassados sem titubear, até dezenas de gerações anteriores. O brilho dos salões, o ritual das visitas, a rotina dos ricos habitantes de palácios, tudo isso alimenta a fantasia de quem muito leu e muito sonhou.

Tudo ao alcance das mãos. Integrando essa História milenar. Acompanhando de perto os dramas e as tragédias. João despediu-se com essa obra e amou seus personagens: “Todos vieram de passado longínquo, do fundo das idades, da noite dos séculos. O tempo, implacável, rolou sobre eles. Uns morreram jovens, outros, na madureza. E, na velhice, a morte arrebatou os mais resistentes, mas todos os que partiram deixaram, como os vivos, traços de sua passagem pela face atormentada da Terra. Só conheço uma fórmula para tornar perpétuas as pessoas, é esta, a do livro”. João de Scantimburgo os perpetuou e, simultaneamente, perpetuou-se na memória dos que nunca se esquecerão dele.    
 
JOSÉ RENATO NALINI é Corregedor Geral da Justiça do Estado de São Paulo, biênio 2012/2013. E-mail: jrenatonalini@uol.com.br.