Blog do Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

Os olivais do crepúsculo

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Esse é o nome do romance escrito por João de Scantimburgo, há pouco falecido e sucedido na Academia Brasileira de Letras por Fernando Henrique Cardoso e na Academia Paulista de Letras por Juca de Oliveira.

Convivi com João em duas épocas. Primeiro, na legendária experiência que Dulce e Victor Simonsen promoveram em sua Fazenda “Campo Verde”. Nessa época, eu mais o ouvia, pois exatamente 30 anos nos separavam. Quando se tem menos de 20, nem sempre há auditório pronto a escutar o que nos passa pela mente. Já a partir de 2003, participamos das mesmas sessões da Academia Paulista de Letras, onde estou há dez anos. Continuei a ouvi-lo, mas na condição de colega. E agora, os 30 anos já não pesavam. Éramos confrades.

Fui ler o romance após sua partida. Foi publicado em 2000, quando o autor já entrava nos 85 anos. Na verdade, não é ficção. É memória. Relata a desdita de uma família nobre da Polônia, que se vê na miséria após a invasão alemã. Família na qual João se integrou, pois – já viúvo – casou-se com uma jovem divorciada e com ela conviveu a partir de 1958, aqui sim, num autêntico romance.

Menciona Dante, que no “Inferno”, considerava inexistir dor maior do que, na miséria, recordar-se de tempos felizes. A saga dessa família foi vivenciada com emoção. O narrador incorporou a tradição, a heráldica, o charme e o glamour de uma nobreza consistente. Explica-se o fervor para quem foi moço pobre em Rio Claro, passar a conviver com pessoas que conhecem os antepassados sem titubear, até dezenas de gerações anteriores. O brilho dos salões, o ritual das visitas, a rotina dos ricos habitantes de palácios, tudo isso alimenta a fantasia de quem muito leu e muito sonhou.

Tudo ao alcance das mãos. Integrando essa História milenar. Acompanhando de perto os dramas e as tragédias. João despediu-se com essa obra e amou seus personagens: “Todos vieram de passado longínquo, do fundo das idades, da noite dos séculos. O tempo, implacável, rolou sobre eles. Uns morreram jovens, outros, na madureza. E, na velhice, a morte arrebatou os mais resistentes, mas todos os que partiram deixaram, como os vivos, traços de sua passagem pela face atormentada da Terra. Só conheço uma fórmula para tornar perpétuas as pessoas, é esta, a do livro”. João de Scantimburgo os perpetuou e, simultaneamente, perpetuou-se na memória dos que nunca se esquecerão dele.    
 
JOSÉ RENATO NALINI é Corregedor Geral da Justiça do Estado de São Paulo, biênio 2012/2013. E-mail: jrenatonalini@uol.com.br.
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Autor: Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

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