Blog do Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.


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A educação de berço

Como está fazendo falta a boa educação de berço. Em todos os níveis. Sou do tempo em que os pais olhavam e a gente entendia. Usava-se oferecer o assento em coletivos para as mulheres e pessoas idosas. Era costume cumprimentar: 

“Bom dia! Boa tarde! Boa noite! Até logo, até amanhã, prazer em vê-lo!”. Quando o professor entrava em sala de aula, o universitário se postava em pé. Só se sentava quando o mestre autorizava ou quando ele também se sentasse. 

Os tempos mudaram. O empurra-empurra é a regra. Furar fila é sinal de esperteza. O número daqueles que se utilizam de toaletes e não acionam a descarga só se equipara ao dos que não lavam as mãos. 

O palavreado é chulo. Pessoas escolarizadas não se pejam em falar palavrões que escandalizariam reeducandos. Os bons modos só existem quando interessa agradar alguém. O servilismo é a regra. 

Normalmente, quem se agacha perante detentor de autoridade também exagera nos maus-tratos com os humildes. Onde foram parar o civismo, a delicadeza, a polidez? O que a humanidade ganha em ser grosseira, rude, mal educada? 

Compreende-se que algumas pessoas mal amadas destilem o fel do desamor para os que possam parecer felizes. Mas há privilegiados, destinatários de benesses que tornariam o ser humano a mais bem aventurada das criaturas, que também abusam do mau humor. Tornam tudo mais triste à sua volta. 

Grande parte dos problemas enfrentados na prestação de serviços, na esfera estatal e na iniciativa privada, é devida à falta de tato. Há um déficit de traquejo, de savoir faire, de charme e de bom gosto. Boa educação é sinal de bom gosto. Elegante não é quem está com um rollex no pulso ou se perfuma com um extrato bulgari. Elegante é quem sabe tratar bem o semelhante. Notadamente aquele que nada pode nos fazer em troca.

 

Gratuidade e espontaneidade no reconhecer em cada ser humano um semelhante. Ninguém é melhor do que outrem. Todos somos feitos dessa massa miserável que é a raça humana, a pretensiosa parcela da criação que teima em se considerar a única racional, a única detentora do poder e autoridade, aquela que teria obrigação de dar o exemplo. Para onde caminha esta triste humanidade? 

* JOSÉ RENATO NALINI é Corregedor Geral da Justiça do Estado de São Paulo, biênio 2012/2013. E-mail: jrenatonalini@uol.com.br.


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Democracia e pluralismo

O ideal da Democracia subsiste em grande parte do Planeta. A teoria do governo do povo, para o povo e pelo povo é cada vez mais difícil de encontrar eco pragmático, tantas as demandas e a heterogeneidade contemporânea. As sociedades abrigam o valor pluralismo, exatamente para que todas as opiniões tenham espaço e se garanta a liberdade de pensar, de se manifestar e de agir. Como conciliar o regime representativo com as expectativas nutridas pela população?

Os Partidos Políticos deveriam representar uma parte significativa da opinião da massa. Nada obstante, é difícil distinguir o que separa um do outro. Tanto que o trânsito dos políticos profissionais entre essas entidades é facilitado e ocorre com frequência a troca de legenda, sem que se altere o comportamento do profissional das eleições.

O instituto da fidelidade partidária foi concebido exatamente para tentar uma permanência estável do político na parcela de orientação que o acolheu. Mas no momento em que os partidos se identificam, a fórmula perde sua razão de ser. Vem a propósito invocar a “teoria tridimensional do direito” de Miguel Reale. Se os valores se alteram, a lei – que é reflexo do valor que incide sobre o fato – não pode prevalecer. 
O equilíbrio entre os três elementos é essencial e é o que melhor explica o fenômeno jurídico.

A teoria democrática não oferece respostas para os dilemas de uma sociedade que, às vezes, parece “não saber o que quer”, tantas e tão diversificadas são as pretensões. 
É preciso que se revigore o conceito de solidariedade, se introjete na cidadania uma noção de finitude e de limites, para que o convívio não seja um “jogo de todos contra todos”, com a presumível certeza de que não importa como, a meta é “chegar lá”. Esse “chegar lá”, se for ditado pelo consumismo egoísta de que estamos impregnados, não nos fará alcançar boa coisa. 

Conviver significa partilhar. Não apenas benefícios e vantagens, mas os ônus decorrentes de uma civilização materialista, cruel para com a natureza, cruel para com a diferença, ávida por atingir padrões insustentáveis diante da pretensiosa vaidade de quem só pensa em si.  
 

JOSÉ RENATO NALINI é Corregedor Geral da Justiça do Estado de São Paulo, biênio 2012/2013. E-mail: jrenatonalini@uol.com.br.


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A que ponto chegamos

Não é surpresa para ninguém que ser professor hoje é perigoso. O mestre deveria receber auxílio periculosidade. Assim como não se respeitam os pais, também os professores passaram a ser considerados empregados dos alunos. “Quem paga manda!”. Por isso, o número imenso de professores licenciados, afastados por problemas de saúde, consumindo tranquilizantes e necessitando de terapia. 

A mídia tem noticiado episódios que envergonhariam uma nação civilizada. Não estou falando do Brasil. Aqui, além dos episódios “deixados prá lá”, em nome do tradicional “deixa disso”, ocorrências mais graves chegam à polícia e, depois disso, à Justiça. 

Ainda há pouco, uma charge reproduzia com eloquência a situação brasileira. Há 20 anos, os pais mostravam o boletim para o filho e indagavam: “O que é isso?”. Hoje, eles levam o boletim para o professor e questionam: “O que é isso?”. Os filhos sempre têm razão. Seja qual for a idade. O professor é um prestador de serviço que tem o salário pago pelo aluno. Este passou a ser o patrão do mestre. 

Um caso judicial eloquente: em Bragança Paulista, um aluno de 20 anos – não está no pré-primário! – atirou uma casca de banana na professora de geografia. Os 10 mil reais que em tese deverá pagar à ofendida não fazem desaparecer seus abalos psicológicos e a dificuldade em continuar a lecionar naquela escola. 

Na apuração dos fatos, dois alunos devem responder por falso testemunho, pois o juiz considerou que eles prestaram informações falsas. 

Esse o Brasil que está num dos últimos lugares na apuração da consistência da escolarização oferecida às crianças e jovens. Educação começa em casa. Os pais, de modo geral, não têm se preocupado com os modos de seus filhos. Acham que as crianças ficam traumatizadas se repreendidas. 

Podem fazer tudo, falar com franqueza, chamar o professor de você, ficar com o celular recebendo e mandando ´torpedos´ durante a aula, passar bilhetinhos, rir de quem está tentando transmitir algo para uma assistência à qual falta interesse e sobra arrogância. O que será que nos espera daqui a algumas décadas? Alguém se arrisca a vaticinar? 

JOSÉ RENATO NALINI é Corregedor Geral da Justiça do Estado de São Paulo, biênio 2012/2013. E-mail: jrenatonalini@uol.com.br.


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Bibi canta & conta

No próximo dia 14 de outubro, celebrar-se-á o cinquentenário da morte de Edith Piaf. Ela não morreu, mas continua bem viva na voz de Bibi Ferreira. Há 30 anos a filha de Procópio canta e conta a existência daquela menina que ficou cega e recobrou a visão graças a um milagre atribuído a Teresa Martin, hoje Doutora da Igreja, Santa Terezinha do Menino Jesus. A carmelita de Lisieux.

Tive o privilégio de assistir Bibi no Teatro Frei Caneca, em sua última semana de espetáculo. Notável como a mulher de mais de 90 anos tem a voz possante, a sobressair em relação a uma potente orquestra. Sua entrada no palco já é recebida com aplausos e plateia em pé. Levanta-se por muitas outras vezes. Pois a interpretação é magnífica.

Ela canta “La Foule”, “La Ville Inconnue”, “Monsieur Saint Pierre”, além dos clássicos “Hino ao Amor” e “La Vie En Rose”. Transfigura-se, faz gestos de carinho para o público, é uma grande dama. 

O sucesso é o mesmo em todo o mundo. Em Paris, Michel Rivegauche, compositor de grandes sucessos de Piaf, entregou a ela o material que guardou desde a morte da cantora, em busca de alguém que pudesse sucedê-la. Encontrou em Bibi uma outra Piaf.

Em Buenos Aires, o “La Nación” destacou: “Bibi Ferreira, lenda viva do teatro brasileiro, impressiona pelo seu vigor e sai de Buenos Aires ensinando como se canta um tango”. Em Nova Iorque, a crítica do New York Post é um testemunho que deve orgulhar os brasileiros: “Bibi Ferreira é a melhor cantora do mundo!”.

E é mesmo. Quanta esperança essa jovem de 91 anos, com 70 de carreira, traz àqueles que já nasceram velhos, desanimados, pessimistas e achando que a vida já acabou.
No dia do espetáculo que assisti, ela identificou no auditório Agnaldo Rayol e o chamou para cantar com ela. O povo vibrou. A voz de ambos é um show. O Agnaldo que gravou nossos dois hinos: o Hino a Jundiaí e o Hino à Padroeira, a pedido de sua amiga, a inesquecível Mariazinha Congilio. 

Ainda brindou seu público dando uma “palhinha” do show que estreará em maio de 2014, em São Paulo: “Bibi canta Sinatra”. O fenômeno Bibi mereceu crítica de Sábato Magaldi: “Não me lembro, nos últimos 30 anos, de tantos aplausos em cena aberta, e no final uma ovação como a que recebe Bibi Ferreira, o público de pé. Testemunha-se um desses raros milagres da comunicação absoluta, em que a plateia se libera da violenta carga emocional”. Essa menina é impossível!

JOSÉ RENATO NALINI é Corregedor Geral da Justiça do Estado de São Paulo, biênio 2012/2013. E-mail: jrenatonalini@uol.com.br.


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A sociedade órfã

A debilitação da autoridade paterna coincide com um sentimento de orfandade da sociedade contemporânea. Parece que, desaparecidos os parâmetros que os pais costumavam adotar e impor à prole, esta se sentiu desarvorada. Já não tem a quem recorrer. Depois disso, o desmanche do “castelo de cartas”. Junto com a autoridade dos pais desaparece a autoridade dos mestres e até mesmo da Igreja.

Todos hoje escolhem os seus valores à “la carte”. Adoto aquilo que me convém. Não me submeto a imposições. “Eu sei o que me serve” e “Eu acho” são expressões usuais no discurso. 

Tal constatação pode oferecer uma outra explicação para a crise da Justiça. O “boom” do Judiciário, com seus quase cem milhões de processos em curso não seria uma resposta para essa crise de autoridade? Já que ninguém tem o respeito e o prestígio necessários para solucionar questões que afligem todos os humanos, vamos então recorrer à Justiça.

Uma sociedade órfã procura na Justiça o seu superego. O Judiciário supre a ausência de autoridade e oferece a resposta desejada. Mas há outra vertente. Esse acúmulo de demandas também significa a vocação colonial do brasileiro. Os padrões da metrópole eram os ideais. O sonho do tupiniquim tinha cores lusas. A Europa era o paradigma da excelência. Por isso a moda incompatível com o verão tropical foi transplantada e seguida à risca pelo primitivismo da colônia.

Essa vocação prossegue em vários setores. Continuamos a exportar commodities. Açúcar e álcool, carne, soja. Minério in natura que depois volta superacrescido de valia quando manufaturado. E a Justiça desempenha um papel simbólico civilizatório para o brasileiro. Até de forma inconsciente. Entrar na Justiça é uma tentativa às avessas de penetrar no processo civilizado. 

Por isso é que a intenção de pacificar mediante incentivo à maturidade, oferecer o diálogo em vez do processo, fazer com que as pessoas se sentem à mesa da discussão e assumam um protagonismo que não têm no Judiciário, enfrentam tanta resistência. Em vez de ser “sujeito”, assumindo responsabilidades e exercendo um contraditório que significa “situar-se no lugar do outro”, o homem prefere ser “objeto”. Sobre esse objeto recai a decisão heterônoma, sem participação do interessado.

Quando é que a sociedade evoluirá para saber resolver grande parte de seus problemas sem se socorrer da onipotência e da magnanimidade estatal? 
* JOSÉ RENATO NALINI é Corregedor Geral da Justiça do Estado de São Paulo, biênio 2012/2013. E-mail: jrenatonalini@uol.com.br.


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De pastorinho a pastor

Durante a missa de exéquias na Catedral de Nossa Senhora da Conceição, em Guarulhos, afirmou-se que dom Joaquim Justino Carreira quisera ser um dos pastorinhos de Fátima, que em 1913 viram Nossa Senhora. Ele nasceu em Leiria, mesmo ali no lugar das aparições. Mas quis a Providência que ele fosse um Grande Pastor. Responsável por uma das maiores e mais complexas Dioceses brasileiras.

Não é desse Joaquim que quero falar. É do Joaquim quase-primo, pois morou em casa de minha tia Irene Nalini Genaro. Foi o filho padre que ela não teve, embora mãe de uma carmelita. Um garoto que caiu do caminhão e se machucou todo e ainda comemorou: “Se não fosse eu, teria sido minha mãe! Graças a Deus que fui eu!”. Episódio relembrado agora por meu primo Sérgio Genaro, cuja neta Joaquim batizou em 2009.

Lembro-me do Joaquim dos TLCs, da viagem a Porto Alegre, de sua bondade intrínseca. Generoso, bom, prestativo. Sem vícios. O imponderável da cruel doença, cujo nome traumatiza e que ceifa crianças, jovens e idosos. Sem contemplação. O Joaquim estudioso, que prestava contas de seu crescimento intelectual, que levava a sério os estudos. E que não gostava de aparecer. Tantas vezes insisti com ele para fazer um programa televisivo, a falar da família, seu foco no mestrado. Sempre se recusava. Delicadamente, mas não era seduzido pelas gloríolas da mídia.
 
Não consegui visitá-lo. Fui ao Hospital Santa Catarina e não me permitiram entrar. Pouco depois, em casa de dom Luiz Stringhini, bispo de Mogi das Cruzes, comentei o fato e o bispo de imediato ligou para Joaquim, com quem conversei brevemente. Voz fraca, mas corajoso e oferecendo o seu sacrifício à causa nobre, a única essencial, aquela para a qual se doou desde criança.

Um homem bom, um sacerdote devotado, um bispo santo. Um homem de Deus, que tanto necessita de operários para a Sua messe. Ficamos sem a presença física de quem nunca se recusava a nos assistir nos momentos tristes. Celebrou a missa de sétimo dia de minha mãe. Fez uma homilia carinhosa. A razão me diz que um dia teremos de nos reencontrar sem as dores e sofrimentos desta miséria que é a breve passagem pelo Planeta. Mas a emoção me deixa profundamente amargurado, por perder um verdadeiro primo sacerdote. De quem já estou sentindo imensa falta e crescente saudade. 
 
* JOSÉ RENATO NALINI é Corregedor Geral da Justiça do Estado de São Paulo, biênio 2012/2013. E-mail: jrenatonalini@uol.com.br.


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Lugar de lixo

A produção de resíduos sólidos no Brasil é algo de extraordinário. Nesse tema cabe o ufanismo “nunca antes neste País” tão em voga para outras “conquistas”. Cada brasileiro produz mais lixo do que vários europeus juntos. O Brasil nunca passou por uma guerra, nunca sentiu verdadeira fome, não teve de passar por tragédias. Por isso uma sociedade pródiga, perdulária, consumista… E suja.

A falta de civilidade faz com que muitas pessoas pensem que a rua é um lugar sem dono. Ao contrário de países educados, onde o espaço público é de todos, aqui parece “terra de ninguém”. Não é só o desprovido de escolarização que assim age. Muita gente que se considera culta não hesita em arremessar pela janela do carro o recipiente do refrigerante que acabou de beber, os tocos de cigarro, os guardanapos, os impressos que o primitivismo continua a distribuir junto aos semáforos.

A Prefeitura do Rio de Janeiro adotou uma excelente prática. Agora, quem jogar lixo na rua leva uma multa. O mínimo é 157 reais. O bolso, órgão sensível, é a motivação mais persuasiva com que se pode contar. As campanhas educativas pouco resultado oferecem. Por mais que se diga que a municipalidade gasta muito para a varrição de ruas, para o recolhimento dos sinais deixados por uma população que não sabe acondicionar seus resíduos e que tudo isso vai causar problemas mais sérios, a repercussão é quase nenhuma. 

Quando há inundações, as bocas de lobo não dão vazão à água pluvial, os rios se transformam em mortos coletores de dejetos, ninguém se lembra que também contribuiu para o problema. O Brasil está demorando a adotar a logística reversa, de maneira a responsabilizar o fabricante pelo destino de seus produtos após a vida útil. A existência de “desmanches” é outro índice que depõe contra o estágio civilizatório nacional. 

Eles parecem sustentar uma cadeia de criminalidade, conspurcam o ambiente, enfeiam as cidades. E estimulam o péssimo hábito de se jogar na via pública aquilo que já não serve. Seja carcaça de carro, geladeira velha, televisão que não funciona, sofás e colchões. Sem falar na praga venenosa dos pneus. Mas é bom começar com o lixo urbano. Tomara que a iniciativa carioca prevaleça e se dissemine. Um pouco de limpeza é sinal de verdadeira educação. Lugar de lixo é no lixo.

JOSÉ RENATO NALINI é Corregedor Geral da Justiça do Estado de São Paulo, biênio 2012/2013. E-mail: jrenatonalini@uol.com.br.