Blog do Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

A sociedade órfã

4 Comentários

A debilitação da autoridade paterna coincide com um sentimento de orfandade da sociedade contemporânea. Parece que, desaparecidos os parâmetros que os pais costumavam adotar e impor à prole, esta se sentiu desarvorada. Já não tem a quem recorrer. Depois disso, o desmanche do “castelo de cartas”. Junto com a autoridade dos pais desaparece a autoridade dos mestres e até mesmo da Igreja.

Todos hoje escolhem os seus valores à “la carte”. Adoto aquilo que me convém. Não me submeto a imposições. “Eu sei o que me serve” e “Eu acho” são expressões usuais no discurso. 

Tal constatação pode oferecer uma outra explicação para a crise da Justiça. O “boom” do Judiciário, com seus quase cem milhões de processos em curso não seria uma resposta para essa crise de autoridade? Já que ninguém tem o respeito e o prestígio necessários para solucionar questões que afligem todos os humanos, vamos então recorrer à Justiça.

Uma sociedade órfã procura na Justiça o seu superego. O Judiciário supre a ausência de autoridade e oferece a resposta desejada. Mas há outra vertente. Esse acúmulo de demandas também significa a vocação colonial do brasileiro. Os padrões da metrópole eram os ideais. O sonho do tupiniquim tinha cores lusas. A Europa era o paradigma da excelência. Por isso a moda incompatível com o verão tropical foi transplantada e seguida à risca pelo primitivismo da colônia.

Essa vocação prossegue em vários setores. Continuamos a exportar commodities. Açúcar e álcool, carne, soja. Minério in natura que depois volta superacrescido de valia quando manufaturado. E a Justiça desempenha um papel simbólico civilizatório para o brasileiro. Até de forma inconsciente. Entrar na Justiça é uma tentativa às avessas de penetrar no processo civilizado. 

Por isso é que a intenção de pacificar mediante incentivo à maturidade, oferecer o diálogo em vez do processo, fazer com que as pessoas se sentem à mesa da discussão e assumam um protagonismo que não têm no Judiciário, enfrentam tanta resistência. Em vez de ser “sujeito”, assumindo responsabilidades e exercendo um contraditório que significa “situar-se no lugar do outro”, o homem prefere ser “objeto”. Sobre esse objeto recai a decisão heterônoma, sem participação do interessado.

Quando é que a sociedade evoluirá para saber resolver grande parte de seus problemas sem se socorrer da onipotência e da magnanimidade estatal? 
* JOSÉ RENATO NALINI é Corregedor Geral da Justiça do Estado de São Paulo, biênio 2012/2013. E-mail: jrenatonalini@uol.com.br.
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Autor: Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

4 pensamentos sobre “A sociedade órfã

  1. Caro Mestre, muito bom o vosso texto, recentemente em uma homilia o pároco da Igreja situada no bairro da Colônia aqui em Jundiaí abordou um tempo que muito lembra a decadência dos valores paternos no seio da família.

  2. Esta matéria é merecedora de estar divulgada em todos os noticiários nacionais pois convida à reflexão e aponta caminhos. Parabéns ao articulista que poderia estar palestrando de norte a sul a levar sua competente DIALOGIA às cabeças pensantes deste país. Amanhã será uma quarta-feira negra. Precisaremos de muita luz e vocação para o BEM para renascermos do lodo.

  3. Em determinado momento da leitura deste excelente texto, eu comecei a divagar sobre a questão do “oferecer diálogo ao invés do processo”; viajei por um sem número de lembranças, velhos amigos, histórias…
    Aí, então, veio-me a recordação de uma conversa telefônica com uma pessoa amiga e de quem sinto saudades. Contava-me ele, que um velho advogado lhe perguntara – em sua condição de conhecido de muitos anos – o porquê de, em determinados momentos, quando ele tinha certeza da vitória, o resultado do julgamento ser o oposto. Em outras causas, quando ele tinha certeza da sentença contrária ao pleito, ela se revestia de surpresa.
    Então, disse-lhe o magistrado: você mesmo já deu a resposta. Infelizmente, em noventa por cento das causas, uma das partes tem plena certeza de estar pleiteando injustamente.

  4. Mas pra dar auxílio terno o Estado tem que servir, né? Hipócrita.

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