Blog do Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

A educação de berço

12 Comentários

Como está fazendo falta a boa educação de berço. Em todos os níveis. Sou do tempo em que os pais olhavam e a gente entendia. Usava-se oferecer o assento em coletivos para as mulheres e pessoas idosas. Era costume cumprimentar: 

“Bom dia! Boa tarde! Boa noite! Até logo, até amanhã, prazer em vê-lo!”. Quando o professor entrava em sala de aula, o universitário se postava em pé. Só se sentava quando o mestre autorizava ou quando ele também se sentasse. 

Os tempos mudaram. O empurra-empurra é a regra. Furar fila é sinal de esperteza. O número daqueles que se utilizam de toaletes e não acionam a descarga só se equipara ao dos que não lavam as mãos. 

O palavreado é chulo. Pessoas escolarizadas não se pejam em falar palavrões que escandalizariam reeducandos. Os bons modos só existem quando interessa agradar alguém. O servilismo é a regra. 

Normalmente, quem se agacha perante detentor de autoridade também exagera nos maus-tratos com os humildes. Onde foram parar o civismo, a delicadeza, a polidez? O que a humanidade ganha em ser grosseira, rude, mal educada? 

Compreende-se que algumas pessoas mal amadas destilem o fel do desamor para os que possam parecer felizes. Mas há privilegiados, destinatários de benesses que tornariam o ser humano a mais bem aventurada das criaturas, que também abusam do mau humor. Tornam tudo mais triste à sua volta. 

Grande parte dos problemas enfrentados na prestação de serviços, na esfera estatal e na iniciativa privada, é devida à falta de tato. Há um déficit de traquejo, de savoir faire, de charme e de bom gosto. Boa educação é sinal de bom gosto. Elegante não é quem está com um rollex no pulso ou se perfuma com um extrato bulgari. Elegante é quem sabe tratar bem o semelhante. Notadamente aquele que nada pode nos fazer em troca.

 

Gratuidade e espontaneidade no reconhecer em cada ser humano um semelhante. Ninguém é melhor do que outrem. Todos somos feitos dessa massa miserável que é a raça humana, a pretensiosa parcela da criação que teima em se considerar a única racional, a única detentora do poder e autoridade, aquela que teria obrigação de dar o exemplo. Para onde caminha esta triste humanidade? 

* JOSÉ RENATO NALINI é Corregedor Geral da Justiça do Estado de São Paulo, biênio 2012/2013. E-mail: jrenatonalini@uol.com.br.

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Autor: Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

12 pensamentos sobre “A educação de berço

  1. Excelente análise, atualíssima e oportuna. A sociedade do ter ao ser sofreu, realmente, profundas modificações. Hoje os pais falam e os filhos bazofiam; a internet é o grande refúgio; se uma autoridade se impõem, logo clamam por abuso; agridem professores em salas de aula; filhos chacinam os pais. Realmente, para onde vamos?

  2. Seria o ” homem mais rico ” aquele que soubesse o rumo da humanidade.
    A riqueza seria em poder aplicar todas as técnicas contrárias às prejudiciais aos mais queridos, entretanto me pergunto, possível?
    A educação, ainda tida como ” grande valor ” parece-me cada dia mais distante da maioria, como uma obra de arte, acessível a poucos.
    Os pais, a família, aquelas memórias de grandes e saudosos encontros familiares suprimidos por uma loucura diária em busca do nada.
    A maioria dos ” homens modernos”, ganharam tanta modernidade a ponto de perderem a identidade, realizando-se como grandes máquinas de produção e, ao chegar em casa, são tão improdutivos que sequer conseguem tirar a família da sala de televisão para um jantar em grupo.
    Gentileza “virou coisa de avô”, jovem é direto, virtual, até porque a humanidade não pode parar, cada um por si, sem perceber que tal ação reflete uma realidade ,”ninguém para nada”.
    Reclamam da política, das autoridades, do comando, mas será que eles não estão seguindo o que todos seguem, ou melhor que o povo segue?
    Falando de futuro e humanidade, tudo é incerto, tendo a única certeza que a salvação da história é começar a resgatar a “pré-história”.

    Hiram Carrara neto ( neto carrara )

  3. Nobre Corregedor, Bom dia.

    Gostaria de saber se posso lhe enviar um email, com sugestão de alteração das NSCGJ.

    att

    Rodolfo

    (19) 8195-4141

  4. Adorei o texto , querido Professor!! : -)…simplesmente fantástico!

    Realmente , nos dias de hoje, infelizmente a maioria, “os sem berço” , preferem dar valor a coisas que só possuem valor material! Uma pena , pois a humanidade está carente de boa educação, de bons gestos…de coisas simples, intrínseca do ser humano!

    Grande Abraços! !

  5. Infelizmente, caro professor Nalini, caminhamos na senda da involução social; vivemos a era do ter – do ter a qualquer custo – e o Ser passou a ser figura terciária. Há quase trinta anos, quando eu era seu aluno, conversava com duas pessoas em uma sala de espera, em Campo Limpo Paulista e discorria sobre a distância que eu imaginava que estivéssemos de alcançar o modelo primeiro-mundista (hoje, este também, uma utopia). Nesse ponto da conversa, o senhor bem-apessoado e encanecido, pede licença (era também um homem muito educado), inclui-se no grupo e declara ser eu um otimista (estava certíssimo!). Afirmou que, pelos seus estudos sobre a evolução das sociedades humanas, estávamos ainda na descendente e que nela permaneceríamos por muitas décadas, ainda, até alcançarmos o fundo do poço. Aí, então, é que iniciaríamos a escala ascendente; coisa para daí a muitas gerações de brasileiros.
    Batem-me saudades desse homem sábio (Dr. De Palma), a quem acabei nunca indo visitar em Jarinu.

  6. Dr. José Renato Nalini, boa noite.
    Que Deus continue a iluminá-lo.
    Palavras de sabedoria.
    Grande abraço do coração.
    Namastê!
    M. Eli

  7. Excelente artigo! Perfeito! O mundo seria outro se a educação de berço tivesse persistido! Parabéns!

  8. Ah, meu eterno ídolo, realmente a educação da nossa época faz muita falta nos dias de hoje.

  9. O Senhor está certíssimo,sou desta época,e hoje fico estarrecida com o comportamento dos jovens de um modo geral ,salvo honrosas exceções.

  10. Parabéns pelo belo texto, Doutor!
    Compartilho dos mesmos pensamentos, embora eu tenha pouca experiência vivida no auge dos meus 20 e poucos anos.
    Há alguns dias li na “internet” esta frase de uma apresentadora de TV Britânica que veio ao Brasil: “Eu tenho a teoria de que a televisão (mídia) é a janela para a alma de uma nação”. Se isto é verdade, que triste é a realidade de nosso país. Temos um povo manipulado, alienado, sem princípios, sem respeito e sem moral. Precisamos mais que o incentivo aos professores. Precisamos de reeducar a moral de nosso país. E isso é ensinado dentro de casa, quiçá desligando a TV. Enquanto nada é feito, estampamos ao mundo o país do futebol, da cerveja, do carnaval, das mulheres semi-nuas, dos crimes, da pobreza, da ignorância. Afinal, um povo ignorante é muito mais fácil de ser comandado.
    Ao Brasil, o meu pesar.

    Um abraço!

  11. Conheci o seu blog lendo uma notícia no jornal sobre a sua candidatura à Presidência do TJ-SP, estou comovida porque não imaginei que nos quadros mais altos do Tribunal houvessem almas sensíveis. Reverencio a sua fala porque acredito que educação vem de berço, não vem da marca do carro.
    Parabéns! e sucesso em seu intento!

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