Blog do Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

Fogo fátuo ou águas de outono?

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Embora perplexos com a manifestação das ruas, alguns pensadores acreditaram que o povo finalmente acordara. Cansado de corrupção, de falcatruas, de mau uso da coisa pública, da confusão entre o que é meu e o que é do povo, resolvera exercer a sua capacidade de indignação. Vinte centavos foi o preço pago pela mobilização. Já a cobrança de propinas para liberar do pagamento do ISS, para conceder habite-se ou “facilitar” liberações ambientais não suscitou a mesma reação.

Nossa prolixidade produziu milhares de textos a respeito. Até livros já foram publicados. Aliás, o nome de um deles é exatamente “Vinte centavos”, publicado pela Veneta, obra coletiva de Elena Judensnaider e outros. Cada qual faz sua leitura desse protesto. Mas ainda acho que a mais instigante delas é a do João Luiz Woerdenbag Filho. Com esse nome, poucos o conhecerão. Mas é o “Lobão”, cantor carioca de quem já comentei o desafio perpetrado sob a forma de livro cujo título é “Manifesto do Nada na Terra do Nunca”.

Ele comparou os protestos de rua “parecidos com desfile de escola de samba. Tinha a comissão de frente, os destaques atrás e, encerrando a apresentação, a ala do quebra-tudo”. Essa ala foi prestigiada com o nome “black blocs”, que disfarça aquilo que eles realmente fazem: agridem, destroem patrimônio alheio, praticam crime de dano e não podem continuar a agir impunemente.

Essa a mesma opinião da sensata Lya Luft. Para ela, “quebrar bancos e lojas, invadir e ocupar prefeituras e assembleias, impedir civis de entrar e sair de casa, até de ir trabalhar, é uma forma de ditadura momentânea e pontual, de péssimo gosto e efeito contrário”. Duas mensagens que deveriam ser ouvidas pelas autoridades responsáveis pela segurança.

Manifestação sim. Bagunça não. Livre opinião sempre. Quebra-quebra nunca. É preciso identificar quem causou prejuízo e exigir recomposição do patrimônio lesado. Privado ou, principalmente, se for público. No Brasil, o que é público é de todos, não coisa sem dono.
Ainda bem que não há mal que sempre dure. O fervor dos primeiros dias foi arrefecendo. Os profissionais das ruas se recolheram. Os sintomas são de que tudo não passou de fogo fátuo, aquele que nem fogo é ou uma chuva passageira de outono, já que não se pode falar em “águas de março”.

JOSÉ RENATO NALINI é atual Corregedor Geral e presidente eleito do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo para o biênio 2014/2015. E-mail: jrenatonalini@uol.com.br. Visite o blog no endereçohttps://renatonalini.wordpress.com e dê sua opinião sobre seus artigos.

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Autor: Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

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