Blog do Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

Morrer de trabalhar

9 Comentários

MITA DIRAN era redatora de publicidade da Young & Rubican da Indonésia e no último dia 14 de dezembro, postou no twitter: “30 horas de trabalho e continuo forte”. Só que depois disso ela morreu. Vítima daquilo que os japoneses chamam “karoshi”: overdose de trabalho. Ela foi estimulada a aferir sua capacidade de permanecer frente ao computador até vencer um recorde.

Na verdade, foi um autoimposto desafio ou uma disputa subliminarmente estimulada por seus patrões? Como ela, existem muitos seres humanos que se matam a trabalhar. Se o mercado convive com a geração “nem-nem” – nem estuda, nem trabalha – existe uma legião dos que trabalham demais. E repousam de menos. Onde está a era do ócio, que permitiria ao ser humano usufruir do patrimônio natural, se entreter com arte, cultura, lazer e outras diversões?

O certo é que todos estamos muito ocupados, sem tempo para nada, trabalhando alucinadamente, estressados e mal humorados. Será por medo do descarte? Quem não produz é descartável. Essa é a regra do mercado. O tema tem sido estudado por alguns pensadores. Steve Poole escreveu o ensaio “Por que o Culto ao Trabalho Intenso é Contraproducente”, para alertar aqueles que mergulham numa atividade intensa e esquecem de viver.

Já Andrew Smart produziu o livro-manifesto “Autopilot : A arte e a Ciência de Não Fazer Nada”. Tentam mostrar que ainda há espaço para a contemplação, para o “dolce far niente”, revalorizando o superado conceito de que “ficar bestando é regenerativo e potencialmente criativo”. Confesso que sou um workaholic, viciado em trabalho. Sinto prazer em trabalhar. Durmo pouco e me lembro sempre de Tancredo Neves: “Por que dormir agora, se terei para descansar a eternidade toda?”

Não me recuso, porém, a tomar conhecimento das advertências de quem se preocupa com o assunto. Nem sempre esse mergulho no trabalho é necessidade ou inevitável condição de vida. Na verdade, é uma opção. Admito que é uma espécie de conforto existencial, um antídoto contra a sensação de vazio e solidão. A pior solidão é aquela de quem está rodeado de pessoas, mas sabe que a vocação humana é nascer sozinho e morrer solitário.

JOSÉ RENATO NALINI é presidente do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo para o biênio 2014/2015. E-mail: jrenatonalini@uol.com.br. Visite o blog www.renatonalini.wordpress.com e dê sua opinião sobre seus artigos.

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Autor: Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

9 pensamentos sobre “Morrer de trabalhar

  1. “Morrer de trabalhar”….expressão que fixou na psique de todos, em especial das mulheres.
    Tantos anos como “donas de casa”, tachadas de burras ou pouco intelectualizadas por não trabalhar “fora do lar”, agora inverteram, trabalham demais, ostentam tal condição para que todos vejam que,agora, são modernas,
    Triste ver onde chegamos, carecemos aprovação de vcs homens e nossa também,para sermos felizes, ou melhor para ter paz de dever cumprido.
    Se elas soubessem como é bom ficar em casa, e assim estou hoje…lendo Gibran Khalil…com note na cama, sacada do quarto aberta, uma brisa boa…aí que delícia ser mulher, só mulher e nada mais….

  2. BOM , SEU NIVEL CUTURAL PROVOCA UMA SENSAÇÃO DE ALUMBRAMENTO. MAS SUA MENSAGEM , FOI BEM ASSIMILADA, E QUANTO A SUA ULTIMA FRASE, SOBRE SOLIDÃO, VIVO-A , E SINTO UM CONFORTO, SINAL DE QUE MINHA MISSÃO COMO MÃE FOI CUMPRIDA. E LI QUE PESSOAS QUE SEMPRE TIVERAM O HABITO DE LEITURA , NUNCA IRÃO SE SENTIR SÓ, QUANDO A SOLIDÃO FOR UMA CONSEQUENCIA APENAS DA VIDA.

  3. Os workaholics são solitários…………..infelizmente.

  4.  Acredito, que o ser humano não morre por excesso de trabalho, mas sim, . de stresse e preocupação. A preocupação afeta a circulação, o coração, as glândulas, todo o sistema nervoso, e afeta profundamente a saude. Para algumas pessoas o trabalho é mais do que uma renda é uma parte importante de quem ele é. Enquanto que para outras, o excesso de trabalho é um meio de autoescape. Abraços.

  5. É verdade. O equilíbrio é o termo correto, o meio termo. Somos tentados a ir para os extremos: ou se trabalha demais, ou se rejeita o trabalho e se cultua o ócio, além da conta. E às vezes são os amigos que nos ajudam a perceber quando estamos indo para os extremos. Obrigado, Dr. Nalini, vou refletir mais sobre o meu modo de ser.

  6. Sempre excelente, Dr. Nalini.

    Mas o meu problema é esse maldito assédio moral que já virou execução sumária. Trabalhar com prazer é bom, mas trabalhar ao lado de chefe que lhe quer matar, porque não tem outra palavra, é matar o que você é, dentro da pessoa, a essência do próprio ser, E, com que autoridade o outro exige que o próximo altere todo o ser ser para ficar, segundo esse outro, “como ele deseja?”
    Trabalhar para juiz que quer lhe ver morta, acabada, sem direito a nada, então, ser hediondo, postura anti-ética, amoral, contra os direitos humanos, contra os direitos do trabalhador, contra os novos rumos referentes à gestão agora propalada pelo judiciário paulista, contra a sensatez, contra a produtividade, contra o bom andamento dos processos, contra o trabalho em equipe, contra o presidente anterior e o atual.
    Assédio moral destrói o ser humano e a família.
    Maria Eli Rocha Silveira Diniz
    Araraquara – São Paulo

  7. Ótimo este artigo, difícil colocar em prática! Trabalho no TJ a 20 anos, (como costumo dizer: não sou juiz nem diretor – sou só auxiliar) e nos últimos anos simplesmente não tenho $$ para o lazer. Também não sinto mais prazer em meu trabalho… Não consegui sair da base da pirâmide de Maslow. Ócio criativo é só pra quem pode… E a pior solidão é estar no limbo: nem ao ponto de integrar os programas sociais do governo, nem ao ponto de vislumbrar crescimento.

  8. Creio que a maior preocupação do ser humano no Brasil, país capitalista, é a tese: ” Quem não produz é descartável “. Entretanto, produzir incessantemente, na verdade não é produtivo e impõe uma parada com várias reflexões.
    Não sei se me fiz entender!!!
    Uma Abraço e bom final de semana !
    Eduardo Pereira da Silva

  9. Tancredo deve ter se inspirado em São João Maria Vianney, que dizia:

    “É preciso trabalhar nesta vida, teremos toda a eternidade para descansar”.

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