Blog do Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

Quem não produz é descartável

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A produtividade é um valor que foi inserido em nossa rotina. A Justiça é cobrada a produzir. Entre a demanda crescente e a saída das decisões, os juízes são compelidos a produzir massivamente. 

Tendo a acreditar que isso é uma fase. Assim que rompido o círculo extremamente vicioso do excessivo demandismo, haverá espaço para aquela elaboração serena de uma decisão maturada na reflexão e na prudência. 

Nesse ponto, o Judiciário se mesclou com a cultura do mercado. As empresas também descartam o operário que não produz. O descarte precoce dos CEOs mostra que o capital tende a sugar o máximo aqueles que têm algo a oferecer e depois, qual bagaço de laranja, são atirados impiedosamente ao lixo da inatividade. 

Sinto na pele a volúpia do controle do Currículo Lattes, o inventário de nossa produção intelectual. Quem não o movimenta diariamente está condenado ao ostracismo. O currículo Lattes não afere a nossa felicidade. 

Apenas aquilo que oferecemos para a sedimentação da cultura sob a forma de livros, capítulos de livros, artigos de jornais e revistas, orientação de pós-graduandos etc. E não é qualquer coisa que merece uma avaliação adequada. Precisamos procurar as revistas Qualis, pois existem aquelas inferiores, que nada acrescentam ao nosso patrimônio docente. 

Ninguém consegue libertar-se da imposição da atividade contínua. Vejo como exemplo as viagens, que se tornam obrigatórias. Quando fui pela primeira vez à Europa, vi uma Paris ainda tranquila, sem a invasão do consumismo americano, sem as hordas de turistas que enfeiam a Cidade Luz. 

Hoje, quase todas as cidades são iguais. Têm as mesmas marcas, os mesmos nichos alimentícios, houve uma espécie de “disneylização” do mundo. Os aeroportos santificam, pois a regra é o atraso, o empurra-empurra, as tribos cada vez mais mal-educadas. Para mim, por tudo isso, viajar perdeu a graça. 

As crianças também são obrigadas a uma série de ocupações. Escola cada vez mais cedo. Mas também o inglês, o alemão, o mandarim. O balé e a natação. A equitação e o esgrima. Todos têm de ser campeões. E ai de quem não se submeter a isso. Parece que não vencerá na vida. Mas alguém tem ideia do que realmente é “vencer na vida”? 

* JOSÉ RENATO NALINI é presidente do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo para o biênio 2014/2015. E-mail: jrenatonalini@uol.com.br. Visite o blog no endereço https://renatonalini.wordpress.com e dê sua opinião sobre seus artigos.

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Autor: Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

4 pensamentos sobre “Quem não produz é descartável

  1. Excelente artigo, Excelência. Pura realidade. É a tentativa de transformação do homem em máquina.

  2. Doutor Nalini, aprendi a respeitá-lo, não como pessoa, pois a todas devemos respeito. Mas, como Doutor Renato Nalini! Desde meus tempos na 27ª Vara Criminal, Barra Funda. Produzir é obrigação…Ser essencial é natural…Vencer na vida em nossos tempos é muito diferente do que significa hoje…Temos duas netas gêmeas com dezessete anos. Ambas prestaram todos os vestibulares que quiseram e foram aprovadas em todos. Escolheram SENAC e Anhembi Morumbi. Por que? Não pelo futuro, mas pelo que poderão desfrutar hoje do curso, e da carreira que escolheram. Errado? Claro que não. É o tempo hoje…Felizes somos. Felizes serão elas, também…Parabéns pela Presidência. Dia seis e dia dezoito estaremos de volta às aulas do CETRA…

  3. por favor a onde eu encontro o livro etica geral e profissonal.ele expecifica sobre a etica no direito penal tem esse livro no paraná

  4. Gostei do texto. Dizem que essas coisas são o progresso, não é? Lembrei de uma frase de G. K. Chesterton em Hereges:

    “Contrapomos todo ideal de religião, de patriotismo, de beleza, de prazer físico com o ideal alternativo de progresso. Ou seja, contrapomos toda proposta de conseguir algo sobre o qual conhecemos com a proposta alternativa de conseguir um montão a mais de algo que ninguém sabe o que é.”

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