Blog do Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

Há direito ao ócio

8 Comentários

Desde 5/10/1988, vive-se um verdadeiro “porre” de direitos! Já se criticou a “Constituição Cidadã”, pela proliferação de direitos em defasagem com os deveres. Essa crítica é inadequada, pois a cada direito corresponde ao menos um dever, na melhor concepção da teoria jurídica. 

Mas não está errado quem critica a superabundância de direitos, inclusive os fundamentais. Tudo é direito fundamental e, ao multiplicá-los, corre-se o risco de sua trivialização. Se tudo é direito fundamental, como assegurar sua fruição?

 

O Brasil gasta muito com o próprio Estado, esquecida a sua condição de mero instrumento para fazer as pessoas felizes. O Estado se converteu numa finalidade em si mesmo: existe para crescer até o infinito, para se perpetuar e para atender aos desígnios dos que deveriam ser transitórios mandatários do povo. 

Um desses novos direitos é aquele reservado ao ócio. Em seu favor invoca-se até o Criador. Ele, como lembrava Millôr Fernandes, só falou em trabalho depois que Adão comeu a maçã e quis alçar-se à condição divina. Por isso, o trabalho é castigo – o verbete deriva do latim “tripalium”, instrumento de tortura – e a vocação humana seria a vagabundagem. A versão singela do Éden seria o jardim das delícias, sem a necessidade de sobreviver “com o suor do rosto”. 

Em abono a essa tese escreveu-se a respeito da ociosidade criativa dos gregos, sufragada por Sêneca, Montaigne, Lafargue, Russell e Camus, que teria dito: “Os ociosos é que transformam o mundo, porque os outros não dispõem de tempo para fazê-lo”. 

O sociólogo Domenico De Masi chegou a excursionar pelo Brasil, proclamando que viveríamos o “ócio como entretenimento”: teríamos mais tempo de fruir dos bens da vida. Saudavelmente. Mas parece que ele errou. O trabalho levou a melhor. 

Cesare Pavese, conterrâneo seu, teve a coragem de dizer: “Lavorare stanca”: trabalhar cansa! E os nazistas afixaram nos pórticos dos campos de extermínio a frase “Arbeit Macht Frei” : o trabalho liberta. 

Aqui no Brasil das “bolsas”, é perigoso dizer que não é preciso trabalhar. Neto de imigrante, vivenciei o trabalho como obrigação redentora. Meus ascendentes fizeram desde os tijolos para construir a casa da família. Hoje, a moradia é direito fundamental e tem de ser oferecida gratuitamente pelo Governo. Será que progredimos no aprimoramento da espécie? Têm mais valor as benesses do que o fruto do trabalho?

 
* JOSÉ RENATO NALINI é presidente do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo para o biênio 2014/2015. E-mail: jrenatonalini@uol.com.br. Visite o blog no endereço https://renatonalini.wordpress.com e dê sua opinião sobre seus artigos.

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Autor: Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

8 pensamentos sobre “Há direito ao ócio

  1. Nós, como netos e bisnetos de imigrantes (italianos) sabemos que temos no sangue o trabalho. Preguiça não é o nosso lema. Mesmo que não braçal, o mais intelectual que seja, o trabalho é um vício para os que têm o sangue de italianos nas veias.
    Meu pai não tem muito estudo, mas às 5 h da manhã acorda e vai ajudar nos serviços da casa, já eu trabalho em 2 matrículas, estudo, faço 3 cursos, um de pós graduação na UFRJ e outros 2 de formação continuada na fundação CECIERJ/CEDERJ em projetos ligados à SEEDUC-RJ.
    Vi minha mãe, que não é descendente de italianos, mas de portugueses, não menos trabalhadores, trabalhar a vida toda, teve até 5 empregos e hoje é aposentada.
    Cresci vendo o trabalho e quando é feriado ou final de semana sinto uma espécie de consciência pesada de não produzir, mas sei que é necessária a pausa, o descansar e toda essa coisa do ócio criativo. O estresse causa problemas de produtividade e não é muito bom levar a vida só se cobrando o tempo todo produzir, porém como o senhor bem disse, nesse país das “bolsas” vemos de tudo, e o que menos se quer é trabalhar. O que é estranho para nós que nascemos convivendo com essa coisa de que trabalhar era digno.
    Fique com Deus e bom carnaval!

  2. Concordo com o senhor que atualmente vivemos a cultura dos muitos direitos e poucos deveres. A comeÇar na infancia. Hoje dizer Nao a uma crianÇa parece impossivel. Minha infancia teve limites e assim faÇo com minha filha. Direito a cotas a bolsas e a casa de graca. Mas falta o mais importante o Trabalho!

  3. Desconfio que andas conversando com meu terapeuta, visto que as 3 últimas postagens de seu Blog, têm a ver com minhas questões mal resolvidas com meu profissional.
    Como posso ter ócio e me sentir no direito de tê-lo ?
    Tenho uma personalidade eletrizante, voltada ao trabalho quer profissional ou não.
    Ficar em meu apto por 02 dias, lendo, descansando, para mim é um pecado sem perdão.
    Cobro de minha pessoa um agir diurno e noturno, e detalhe, dou conta de todos.
    Óbvio que tem uma ansiedade mal trabalhada, mas o MEU direito ao ócio gostaria que fosse exteriorizado em diploma outorgado em sessão solene no TJ/SP…com todas honras e pompas, inclusive com a Orquestra Bachiana do mágico maestro João Alves.
    Creio que assim sendo, vocês me convencerão que já é hora de relaxar e ver sessão da tarde.
    Bom carnaval, Dr. José Renato Nalini

  4. Dentro das famílias de imigrantes no passado, não raro, haviam entre irmãos trabalhadores que guardavam para o futuro, um que não guardava, colocava na mão dos pais o que ganhava para sustentar os irmãos menores.
    Outros doentes, não conseguem ter na vida a mesma sorte dos demais irmãos…
    Vi crianças, no passado, em que na época a escola não oferecia merenda sempre, torcer para que ao chegar a escola pudesse ter um pratinho de sopa para comer, pois em sua casa nem um pãozinho duro tinham para comer quando acordavam, tendo a mãezinha que trabalhar para que pudessem ter pelo menos o teto.
    Irmãos se perderam pelo país a labutar, tendo sido afastados dos pais e nem a ler e escrever aprenderam, apenas laborando na lavoura, sua prole continuam muito pobre até hoje, e nem teto ainda possuem.
    Vi crianças puxar água de poços fundos para encher tanques, para ter em pagamento uma lata (de goiabada) cheia de arroz e feijão puro e malfeito.
    Pais de família a sofrer por ter de mudar de casa e não achar aluguel compatível com seus salários muito baixo.
    A pessoa idosa que vai aposentar, e percebe que a partir dali, então, sua situação de pobre vai piorar muito.
    As pessoas que trabalham têm o direito de adquirir um teto, as que não podem trabalhar devem ser amparadas. Para isso temos que ir até onde está a miséria e descobrir as necessidades, se assim não for ficaremos no plano das teorias não construtivas.

  5. Nalini, boa noite, infelizmente quem mais usa os termos trabalho, trabalhadores, direitos, nunca trabalhou e faz apologia da vagabundagem como meio de vida..,

  6. O Dr. Nalini é uma pessoa muito inteligente e sabe o que fala. Com relação a uma comparação entre contemplarmos o trabalho ou o ócio, sempre existiu ao longo da história pessoas que defendem os dois lados. Eu, como a maioria, acho que devemos trabalhar. Nada é de graça, a não ser para quem nasce em um “berço de ouro”. Porém, como tudo na vida, tudo que é em exagero faz mal. Então, vamos combinar. Trabalhar é preciso e é bom, más, parar um pouco para descansar, também.

  7. Gostei! As pessoas tem que adquirir o que precisam com o fruto do próprio trabalho.

  8. Concordo com sua ponderada reflexão… vivenciamos uma era de demasiado incentivo contrário a auto-suficiência…todos só querem os bônus, sem nenhum ônus.

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