Blog do Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

Mãe coragem

3 Comentários

Lúcia Mendes de Andrade Rocha nasceu em Vitória da Conquista, em 1919. Morreu no Rio de Janeiro em 3 de janeiro de  2014. É considerada a “mãe do cinema novo”, pois em 1939 deu à luz a Glauber Rocha, a quem alfabetizou em casa. Perdeu dois filhos antes de enterrar seu predileto: Ana, de leucemia e ainda criança e Anecy Rocha, atriz, num acidente de elevador em 1976. Glauber morreu em 1981. 

Adorava tanto o filho que passou décadas a guardar tudo o que Glauber jogava fora. Apanhava os rascunhos amassados no lixo e passava a ferro. Com isso, conseguiu amealhar mais de 100 mil documentos, fotografias e textos, boa parte dos quais permanece inédita.

Depois de sua morte, batalhou para que o cineasta, criador do chamado “cinema novo”, não fosse esquecido. Conheci-a na Cinemateca Brasileira, amiga que era de Lygia Fagundes Telles, mãe por sua vez de outro cineasta precocemente falecido: Gofredo da Silva Telles Filho. 

Foi a luta de Lúcia Rocha que obteve patrocínio para restaurar filmes de Glauber, como “Barravento” (1962), “A Idade da Terra” (1980), “Deus e o Diabo na Terra do Sol” (1964) e “O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro” (1968). Mas, na verdade, ela era coautora desses filmes clássicos. Enquanto ele filmava “Barravento”, na Bahia, era Lúcia quem cozinhava para todo o elenco. Nos outros filmes, ela se encarregou do figurino. Falava do filho com verdadeira idolatria, cuja memória abrigou no espaço “Tempo Glauber”, um centro cultural situado em Botafogo, no Rio. Como toda iniciativa em torno à preservação da História, luta com dificuldades. Não recebe ajuda nem de empresas, nem do governo. A Lei Rouanet serve mais para que bancos e grandes empresas patrocinem seus próprios eventos. De discutível interesse para a História do Brasil. 

São mães assim, como Lúcia Rocha, como Lygia Fagundes Telles, como Lucinha Alves, mãe do Cazuza, que conseguem superar a dor da perda – tão antinatural a mãe enterrar seu filho – edificando uma grande obra. É na crença de que vale a pena eternizar o nome e a produção do filho que elas encontram força para continuar a respirar, a se alimentar, a viver, nutridas por um amor que só as mães sabem cultivar. 
 
* JOSÉ RENATO NALINI é presidente do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo para o biênio 2014/2015. E-mail: jrenatonalini@uol.com.br. Visite o blog no endereço https://renatonalini.wordpress.com e dê sua opinião sobre seus artigos.
 
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Autor: Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

3 pensamentos sobre “Mãe coragem

  1. São essas mães que sofrem pelas vitórias de seus filhos que corajosamente conseguem resgatar suas memórias. Que muitas mães sejam como elas.
    Abs

  2. Lendo o texto pela terceira vez e analisando a frieza com que o antinaturalismo encontrou essas mulheres pela estrada da vida, revertendo a tristeza em força exemplar, mesmo que triste, Covardemente pergunto a mim mesmo, o que seria de mim se fosse escolhido pelo destempero idem dessa tal natureza. Respondo eu mesmo em suplicas: Senhor me poupe !!!

  3. É o imensurável amor de mãe se mesclando com a dor, faz a verve artística pulsar. Emocionante post.

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