Blog do Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

O que há, Caraguá?

8 Comentários

É com tristeza que leio a notícia: Caraguatatuba é a cidade mais violenta de São Paulo pelo terceiro ano consecutivo. Não sou exatamente um frequentador de Caraguá, caminho obrigatório de quem vai para Ubatuba e para as demais praias do Litoral Norte. Mas já fui Promotor de Justiça ali atuando, quando titularizava a Promotoria de Ubatuba.
 
Estive recentemente a fazer palestra num belo Teatro Municipal, a convite de meu amigo, o desembargador federal Vladimir Passos de Freitas, em tempos idos meu colega de Ministério Público. Outra vez acompanhei o Deputado Gabriel Chalita num evento para a juventude, promovido pelo bispo de lá. 
 
Vi que a orla está bonita, lembrando as melhores praias do nosso maravilhoso litoral, quando escolhidas por pessoal de bom poder aquisitivo. Então, o que acontece com a trivialização da vida num lugar tão privilegiado?
 
Parece que além de embelezar a estética urbana, a comunidade precisa cuidar da estética da alma. O que se propicia às crianças de lá? Têm esporte à vontade, o que não é difícil nas cidades litorâneas? Encontram acolhida institucional, aquelas de lares desestruturados? O que se faz para conscientizar os pais, mestres, cidadãos lúcidos, para salvar a mocidade da droga e da falta de perspectiva?
 
Família, escola, Igreja e demais instituições devem zelar pelo futuro de um Brasil que teria tudo para desabrochar, mas que se afoga em índices os mais trôpegos do verdadeiro desenvolvimento. Aquele que interessa de fato: o índice de qualidade de vida, o índice de satisfação, o índice da esperança. Não interessa bolsa disto e bolsa daquilo, sem a “bolsa da esperança”. Esta é intangível, não se traduz em cifra. Alimentar-se é essencial, mas o alimento do espírito é mais importante do que o saciar físico.
 
Caraguatatuba lidera um ranking vergonhoso. Taxa de 28,3 homicídios por 100 mil habitantes, o triplo daquele verificado no Estado de São Paulo. Acompanham-na Rio Claro, Itaquaquecetuba, Taubaté, Embu das Artes, Cubatão, Jandira, Itapevi, Hortolândia e Franco da Rocha, aqui tão perto. 
 
Diante disso, cumpre à comunidade empenhar-se para cuidar melhor de sua gente. Porque as vítimas dos homicídios são sempre jovens. Rapazes em sua maioria. É um subproduto cruel do flagelo da droga.    
 
 
JOSÉ RENATO NALINI é presidente do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo para o biênio 2014/2015. E-mail: jrenatonalini@uol.com.br. Visite o blog no endereço https://renatonalini.wordpress.com e dê sua opinião sobre seus artigos.
 
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Autor: Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

8 pensamentos sobre “O que há, Caraguá?

  1. Prezado Desembargador, sim é verdade, precisamos da “bolsa esperança”, intangível, imaterial e tão importante (ou mais) do que os programas de transferência de renda. Mas como, se no caso de Caraguatatuba a maior autoridade local, o Prefeito concede entrevista em rádio dizendo que “cheira e cheira porque tem dinheiro pra cheirar?” Qual exemplo é dado para essa juventude? E o que é pior: diante desse descalabro tanto o Ministério Público quanto o Poder Judiciário se mantiveram inertes, em pleno silêncio. Uma rápida busca no canal de vídeos YouTube é suficiente para ouvir o senhor prefeito incentivando a juventude a “cheirar”. Para nossa completa descrença nas instituições a frase ecoou com a aquiescência daqueles que por certo deveriam defender a sociedade. É uma pena! Talvez é isso que há, Caraguá!

  2. Dr. Nalini, boa tarde. Sou morador de Caraguá e o vi, ainda que de longe, na Semana Jurídica do Litoral Norte, palestrando juntamente com o Des. Vladimir Passos de Freitas e com o meu professor de faculdade, Ricardo de Castro Nascimento – juiz federal local, nesse teatro que o senhor mencionou. O que ocorre, Excelência, é que a cidade sofreu um “boom” populacional nunca visto antes, fato este comprovado pelo IBGE 2007, que verificou Caraguatatuba como a cidade que mais cresceu em população no Brasil. As políticas públicas que aqui se praticam, embora sejam significativas no que tangem ao seu alcance, ainda alijam boa parte da população, notadamente dos bairros periféricos. Infelizmente, o crescimento desenfreado é uma possível explicação LOCAL para esse problema relatado por Vossa Excelência. Agora, a questão da violência, do caos social que paira sobre nossas praias, nossas ruas e nosso povo, é uma simples amplificação do que ocorre nos diversos cantos do país, infelizmente. O que nos resta é vislumbrarmos boas escolhas em outubro pra que não visualizemos mais este tipo de reportagem sobre nossa terra, que o senhor conhece, e que está ficando pessimamente afamada.

  3. Dr. Nalini, tenho o aumento da criminalidade em número e grau, qdo de cidades praianas , à presença dos “TURISTAS”.
    Não digo do turista trabalhador, que labuta ao longo de toda semana juntamente da esposa e filhos para, ao final de semana , pegar um sol saudável e sua cerva.
    Eu falo dos eternos turistas que, com mochila no dorso aportam nas belas praias deste Brasil sem dono.
    Não pense que vão em busca de serviço, quanto muito um biquinho de garçom em um choupana estilizada de restaurante.
    Nao têm tempo para ficar ou ir, não contam com luxo e nem com a vida, da ao precisar da grana…onde vão buscar? ?
    Ai entram os assaltos, brigas e mortes.
    São filhos do mundo, não têm guarida…uns dias dormem em pensões e comem algo salutar; noutros dormem na praia e ” cheiram” sonhos de um dia melhor….só melhor, trabalho não.
    Ah…interessante, eles sempre têm uma companbia, geralmente fiel escudeira.
    Abcs e não deixe de amar sua Caragua♥

  4. Caro blogueiro
    Fico triste e apreensiva. E se algum dia você vier a escrever”E aí, Jundiaí?” Que seja por bem, mas nem mesmo assim deveremos ficar inertes: urge que as famílias e as escolas e quem mais se disponha eduquem nossos jovens nos valores dos quais já não se fala. Aliás, se bem me lembro, não foi mais ou menos assim que v. concluiu um artigo, há certo tempo?
    Sobre isto tenho um projeto em andamento, procurando parceiros.

  5. Belo texto. Pra fazer pensar.
    Abraço,

    Nico

    [antonio]
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  6. CARAGUA, não é só crime, mas uma cidade que busca seu espaço como local ideal para se viver. As estatísticas não falam que a maioria dos delitos ali praticados são de meliantes vindos de outros locais, como no caso do assalto ao Shopping Center Serramar, onde a quadrilha que praticou o assalto era a que agia no Guarujá.
    Caragua ainda possui além do fabuloso Teatro Municipal mencionado, bons restaurantes, com ótima qualidade de produtos e iguarias a preço justo.
    AINDA VALE APENA CONHECER…

  7. reflexo de uma sociedade DOENTE.

  8. Sabe Dr. Renato, quando fui escrevente no Cartório de Menores de São José dos Campos-SP (que funcionava na época com a 4ª Vara criminal), me lembro que então Promotor de Justiça que atuava na vara – Dr. Fausto Junqueira de Paula (que coincidentemente é daqui de Caraguá), chamava – não me recordo quantas vezes por mês ou por ano – os pais das crianças e dos adolescentes que abandonavam as aulas, as escolas e ali, no salão emprestado do Júri, os advertia de sua obrigação como pais.
    Se não me engano, na época, São José dos Campos-SP, era uma cidade que infelizmente internava um número razoável de menores na antiga FEBEM.
    Não sei se aquele trabalho ajudou a diminuir o número, mas sei que aquilo fez a diferença, pelo menos pra mim que sempre vi aquilos com admiração.
    Sinto que faz falta aos membros do Ministério Público, Judiciário, Legislativo e Executivo de Caraguá um olhar como do Dr. Fausto Junqueira de Paula. Porque se hoje as vítimas de homicídio são em maior parte adultos, não podemos nos esquecer, que eles foram adolescentes e crianças.

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