Blog do Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

A cruz é inextinguível

9 Comentários

A tentativa de eliminar símbolos do Cristianismo das repartições públicas é utopia. O Brasil se chamou Terra de Santa Cruz, a religião católica foi a oficial desde 1500 até 1890. A laicidade da República não significa ateísmo. Apenas não há uma religião oficial. Todas são permitidas. Até incentivadas, porque é lícito celebrar acordos, convênios e tratados com organizações religiosas quando se cuida de implementar políticas públicas.

A se levar a sério a eliminação de qualquer sinal da cristandade, cultura entranhada em nossas tradições, teríamos de reescrever a história. E isso é impossível. Veja-se o ridículo da revisão do passado, de maneira a excluir o que é inexcluível, tema que George Orwell já enfrentou no seu célebre “1984”. Ao proceder a leitura de “O Tempo das Ruas”, da antropóloga Fraya Frehse, mais me certifiquei disso. Ela fala de São Paulo, cidade fundada sob a invocação do Apóstolo dos Gentios, por padres jesuítas que aqui estavam a catequizar os indígenas.

A reescrita obrigaria São Paulo a não se chamar assim. Seria apenas “Paulo”? Não estaria implícito e subjacente a santidade do patronímico? Onde se chegaria se tivéssemos de dizer que a população recenseada pelo poder público paulistano em 1872 e 1890 obedecia a uma divisão administrativa que se chamava, simplesmente, Nossa Senhora da Assunção da Sé, Nossa Senhora da Conceição de Santa Ifigênia, Nossa Senhora da Consolação e São João Batista, Senhor Bom Jesus do Mattosinhos do Braz, Nossa Senhora da Expectação do Ó, Nossa Senhora da Penha de França, Nossa Senhora da Conceição de São Bernardo, Nossa Senhora do Desterro do Juqueri e Nossa Senhora da Conceição dos Guarulhos?

As cidades todas têm padroeiro, os Estados membros também, a Nação idem. Que cidade não tem a sua “rua do Rosário”, invocação mariana entranhada na consciência das pessoas e que nenhum decreto humano conseguirá apagar. Vide a URSS, que ao ser dissolvida, viu voltar, em plenitude e exuberância, a fé e a crença na transcendência, vocação natural dos míseros humanos. Conformem-se, ateus, e tentem ganhar a adesão dos descrentes, sem modificar o passado. Este já foi e é a única dimensão do tempo com que se pode efetivamente contar.
 
* JOSÉ RENATO NALINI é presidente do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo para o biênio 2014/2015. E-mail: jrenatonalini@uol.com.br. Visite o blog no endereço https://renatonalini.wordpress.com e dê sua opinião sobre seus artigos.
 
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Autor: Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

9 pensamentos sobre “A cruz é inextinguível

  1. A cruz incomoda, e muito, aos que pleitearam sua remoção de prédios públicos.
    A remoção até pode ser executada, mas seu significado jamais, e, quem passar diante daquele espaço onde outrora havia um símbolo da vitória de Cristo sobre a morte, sentirá a mesma emoção e sentimento de amor ao Cristo ressurreto.
    O símbolo do cristianismo representado pela figura da cruz, como o texto se referiu, é inexterminável, imortal e indestrutível.
    Ainda que o símbolo aqui em discussão fosse retirado, ou em um incêndio destruído, ele se manteria intacto no espírito de cada cristão, tal qual se em seu local, até então, estivera.

  2. Penso que existem temas tão mais sérios e relevantes, que se eu fosse a cruz em questão teria vergonha de tal enquete…

  3. Caro Nalini:
    De fato, a laicidade de nossa República, tanto não significa ateísmo, que o próprio preâmbulo de nossa Constituição reza que sua promulgação ocorre “sob a proteção de Deus”.
    Espero encontrar-lhe em algum almoço na casa de nosso Poeta e inestimável amigo, Paulo Bonfim, a quem tenho o privilégio e a honra de chamar de Tio. Forte abraço: Giba (filho da Stelinha).
    “Nós, representantes do povo brasileiro, reunidos em Assembléia Nacional Constituinte para instituir um Estado democrático, destinado a assegurar o exercício dos direitos sociais e individuais, a liberdade, a segurança, o bem-estar; o desenvolvimento, a igualdade e a justiça como valores supremos de uma sociedade fraterna, pluralista e sem preconceitos, fundada na harmonia social e comprometida, na ordem interna e internacional, com a solução pacífica das controvérsias, promulgamos, sob a proteção de Deus, a seguinte CONSTITUIÇÃO DA REPÚBLICA FEDERATIVA DO BRASIL.”

  4. Sim, nosso país é laico e não as pessoas!

  5. Com todo o respeito que uma autoridade merece. Lamentável essa manifestação, na tentativa de persuadir eventuais decisões !!!

  6. Caro blogueiro
    Concordo inteiramente. Símbolos religiosos devem ser respeitados e há quem os respeita, mesmo sendo de outra religião. Hossein Kazemi, artista iraniano, teve de enfrentar e resolver com as autoridades islâmicas a possibilidade de incluir no tapete que tece para presentar o Brasil na Copa do Mundo, o desenho de Jesus, o Cristo Redentor, ao lado do desenho do túmulo de Ciro, rei persa, nomeado em quatro dos livros do Antigo Testamento, a Torá dos judeus.
    Isso lá, num país cuja religião islâmica é oficial, enquanto aqui…

  7. Como sempre, texto impecável! Parabéns Excelentíssimo Senhor Nalini. Querer extirpar a história e renegar o passado é desdenhar a busca constante do ser humano pelas coisas do alto. Quem num momento de sofrimento ou aflição não evocou as forças do alto quando suas próprias se exauriram? Acreditar na vida eterna é premissa para não se enlouquecer com a modernidade que nos assola. Que todos possam ter fé naquele momento crucial que nada e ninguém deste mundo pode nos salvar…

  8. O Estado brasileiro ainda não se separou da Seita de Roma, continua com os laços de amizade e confissão católica. Dificil será impor o verdadeiro Estado Laico quando as autoridades públicas estão ligadas intimamente com o poderio romano. A questão da Cruz nas repartições públicas denotam ainda a fragilidade do Poder Judiciário que associa um símbolo de Tortura, Dor, Sofrimento e Morte, com a ousadia do Império Romano que matou sua vítima e ainda comemoram até os dias de hoje, como tivessem colocado a cabeça de Tiradentes em poste de São João Del Dei. Grande absurdo no meu entender.

  9. Amo este blog, maravilhoso !

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