Blog do Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

Importância de ser polido

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Estudando a “ficção jurídica” denominada Ética nas últimas décadas, pude constatar que uma das carências do convívio contemporâneo é a polidez. A indigência vernacular dos que não leem pode suscitar a indagação: “O que é polidez?”. Não custa, então, fornecer sinônimos: amabilidade, civilidade, cortesia, delicadeza, diplomacia, educação de berço, gentileza, lisura, urbanidade.

Um ser “polido” é a criatura afável, amável, atenciosa, ática, áurea, bem-criada, bem-educada, cerimoniosa, correta, cortês, distinto, galante, luzidio, urbano. 

Dá para entender por que falta polidez na convivência? O que mais se vê é a grosseria, a indelicadeza, a falta de modos. Mesmo pessoas escolarizadas – nada a ver com polidez o fato de ostentar diplomas – não cumprimentam, não se levantam diante de mulher ou de pessoa mais velha. Ignoram a presença do próximo.

Daí para a rispidez, para a irritação, para a impaciência em grau crescente, até à violência, é um caminho inevitável. Refletir sobre isto é fundamental para um Brasil cada vez mais pródigo em ostentar níveis preocupantes de violência. Aquela escancarada, a resultar em número absurdo de mortes – somos o 5º país em perdas vitais resultantes da violência – e aquela disfarçada na insensibilidade, na frialdade do trato, na indiferença que não deixa de ser uma espécie de crueldade.

O mundo inteiro se apercebeu de que algo há de ser feito para reverter a tendência egoística. Foi assim que aplaudiu Tony Blair que, em 2003, declarou guerra à incivilidade. Após sua terceira vitória nas eleições legislativas, insistiu na urgência de restabelecer a “cultura do respeito”.

Para nós, militantes da arena jurídica, o respeito não é senão reflexo do princípio norteador da dignidade humana. Ver o outro – qualquer outro – como finalidade intrínseca, não como meio, é imperativo categórico kantiano. Mas não precisamos de sofisticação alguma, nem de singular erudição para sermos polidos. “Sem a polidez”, dizia o ensaísta Alphonse Karr, “não nos reuniríamos senão para combater.É preciso, portanto, ou viver só, ou ser polido”.

É o que pais e mães – ou os que exercerem seu papel – têm obrigação de lembrar a seus filhos.
 
JOSÉ RENATO NALINI é presidente do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo para o biênio 2014/2015.
E-mail: jrenatonalini@uol.com.br
 
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Autor: Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

6 pensamentos sobre “Importância de ser polido

  1. Polidez requer uma trabalho dos pais, que são nossos primeiros professores.
    Amar, educar, falar sobre Deus, e seus mandamentos de amor.
    Tudo é um treinamento incansável dos Pais, verdadeiros responsáveis, quando se coloca uma criança no mundo, é a “geração indagação”.
    Pois lá na frente, no futuro, todos se encontraram.
    Acredito, que mesmo que alguém tenha uma índole ruim, com uma família amorosa, disciplinada e pontual com Deus,,,molda-o, esculpindo o brilhante que todos somos!
    Mas caso as famílias sejam falsos moralistas e puritanos.Isto implicaria num resultado desastroso.
    Se cada um fizer a sua parte, as nossas crianças, a nossa sociedade, o mundo será bem melhor!
    Hoje tenho muito medo do futuro, já ouço, meus filhos dizendo, que não terão filhos.
    Eles sobreviveram, pois o meio não influenciou de forma negativa, como existem pessoas que dizem, que é sorte, não se transformar num delinquente, já que o meio é ruim…senso comum.
    Mas acredito que a função de uma mãe, verdadeiramente é ensinar como se lá fora, estivesse acontecendo uma guerra moral.
    Que havendo o entendimento deste contexto o qual você vive, e está inserido, não será influenciado de forma alguma.
    A polidez é uma questão de ensinamento dos PAIS
    A escola, o clube, o trabalho, as ruas, só manifestam aquilo que foi desprezado na infância, dentro dos lares, e dito e feito, dentro das nossas mentes.
    A sociedade é cruel..as pessoas de uma maneira geral, ricas, pobres, de todas as cores..com diplomas/mestrados/doutorados/alfabetizadas/letradas/intelectualizadas/analfabetos/ Senão tiver berço… serão PhDs. em impiedades,, com o próprio ser humano, que já está se transformando num ser desumano.

  2. Sugiro a leitura do “PEQUENO TRATADO DAS GRANDES VIRTUDES” de Andre Comte-Sponville, livro no qual há um capítulo dedicado à polidez cuja abordagem é diferente, porém, igualmente interessante.

  3. Ser polido é ser educado. Parece simples dizer isto, ter isto, estar nisto e até ser isto. Parece simples observar e julgar o outro, o alheio, aquele que não sou eu, pois muitas vezes acertamos e erramos, e tampouco recebemos em troca as consequências dos nossos acertos e erros. Será ser tão simples saber por nós mesmos se somos educados e polidos? Não é mais legítimo vir esta certeza da constatação alheia, do outro? Na verdade, no resumo de tudo isto está a pressa. Mas será a pressa por ser feliz? Ou será a pressa pela pressa simplesmente, onde o ser sujeito e objeto de si mesmo acaba se vendo perdido pelas obrigações que se obriga no cotidiano? Ser feliz então passa a ser infeliz, pois infeliz o homem escravo de seu cotidiano. Como disse uma vez o compositor Cartola em “O Mundo é um moinho”: “Ainda é cedo amor / Mal começastes a conhecer a vida / Já anuncias a hora de partida / Sem saber mesmo o rumo que irás tomar ” e na parte final da canção: “De cada passo herdarás só o cinismo / Quando notares, estás a beira do abismo / Abismo que cavastes com teus pés”. Abraços ao Professor que sempre nos estimula a refletir, trazendo a filosofia para o nosso cotidiano.

  4. Nossa Magna Carta trás nos princípios fundamentais vários preceitos norteadores que buscam construir em nossa sociedade uma cultura de companheirismo, de urbanidade, porém essa é uma das inúmeras situações que só teremos êxito quando tivermos uma sociedade politicamente participativa, uma educação emancipadora.
    Isso depende de todos nós. ..

  5. Ao comentário de Márcia Andréa, quero acrescentar: Creio que, em lugar proliferar tantas bolsas e facilidades inclusive para acesso ás universidades sem os rígidos critérios seletivos de antigamente, o governo deveria se empenhar na reeducação dos pais e mães de família para assumirem a corresponsabilidade de forjar o caráter de seus filhos visando a estruturação de sua cidadania sobre todos os valores que contribuem para a dignificação do ser humano.

  6. Fiquei sabendo que o Dr. Nalini tinha um blog através do jornal do advogado. Fiquei contente em encontrar textos com ensinamentos jurídicos e ensinamentos humanos, junto e misturado. Estou começando na advocacia. Quando li este texto, percebi o que está acontecendo no “mundo jurídico”: a falta de polidez, de elegância, de urbanidade e de respeito ao próximo.

    Ao perguntar para uma servidora o que significava um ponto de um despacho que me mandava emendar a inicial, escutei, na frente de outros advogados, com um certo tem de ironia que eu deveria ler o CPC. Isso não é polidez. No momento, me contive para não deixar que aquela atitude ditasse a minha. Respondi somente que não queria atrapalhar o trabalho dela, que perguntava porque estava começando na profissão e pensei alguém daquele cartório poderia me ajudar.

    O advogado ao lado, vendo que eu fiquei constrangida me disse “Não se preocupe, é assim mesmo”.

    Por outro lado, não posso deixar de mencionar os tantos advogados, dentre eles, um senhor experiente na profissão, que diante do meu pedido de ajuda, não hesitaram em me atender, em escutar a minha questão, me entregando parte de seu tempo. Isso é polidez.

    Muito além das roupas finas, do falar bonito, do grau de educação, da conta bancária e do sobrenome. Mais próxima da lição dos humildes, da postura ilibada, do fala pacificadora, do amor aos carentes, dos bem aventurados… ali está a polidez.

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