Blog do Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

Retorno à polis

4 Comentários

A polis grega é considerada o modelo de convívio ideal. Número razoável de cidadãos igualmente providos de condições de influenciar a gestão do interesse comum. Nenhum excesso. Apenas o suficiente para uma vida civilizada. 

Aos poucos, a cidade se tornou pequena para abrigar todos os desejosos de usufruir da convivência a facilitação do subsistir. Repartição de tarefas, especialização, reciprocidade, solidariedade e fraternidade. Sonhos utópicos, mas que alimentaram gerações. 

Sobrevieram as Nações, cujo invólucro afetivo concebeu a Pátria. Família amplificada, conjunto de cidadãos unidos pela consciência do passado comum, de um presente amorável e de irrecusável desejo de permanecer em comunhão. 

Só que a Nação já não poderia acolher todos os cidadãos para decidir, na ágora, os destinos da polis. Os destinos nacionais passaram a depender da representação. Se as pessoas nem sempre são talentosas para gerir a coisa pública, ao menos têm condições de escolher aqueles que por elas o façam. 

O fenômeno representativo se mostrou falível. Já que o representante responde por um ente abstrato – a Nação – e não ao povo, nem sempre este é atendido em suas aspirações. 

Isso explica, de certa forma, o fracasso da política. A descrença do povo no seu representante. A generalização contaminadora de todo político. O representado não se sente vinculado àquele que elegeu e colocou em condição de influenciar a vida nacional.

Indaga-se o eleitor: para que serve a União? Na verdade, moro na cidade. É aqui que desenvolvo minha vocação, aqui alimento minha família, aqui conheço meus vizinhos e meus conterrâneos. É o porto seguro onde ancoro a minha embarcação vital. 

Será que não é hora de revigorar a polis? Por que o município, que tem as maiores responsabilidades e atende à plenitude dos anseios de seus moradores, não tem por si o reconhecimento de sua verdadeira importância? Por que a sangria tributária que o “impostômetro” da Associação Comercial bem retrata, não contempla esta célula federativa que é pouco respeitada por nosso Federalismo assimétrico?

É hora de prestigiar a cidade, de fortalecer o município, de torná-lo capaz de responder aos anseios dos munícipes, que não moram na União, nem no Estado. Moram em suas cidades e querem que elas sejam respeitadas.

* JOSÉ RENATO NALINI é presidente do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo para o biênio 2014/2015. E-mail: jrenatonalini@uol.com.br.

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Autor: Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

4 pensamentos sobre “Retorno à polis

  1. Excelente texto, Senhor Presidente: muito conteúdo em poucas palavras, de leitura agradável.

  2. De acôrdo….

  3. Fica evidente que o Desembargador Presidente do TJ-SP, ao fazer esta reflexão sobre a Polis está clamando a todos a ajudá-lo a lutar para o que é de direito para a Polis (TJ de São Paulo) fique na Polis (TJ de São Paulo) e não vá para a Pólis centralizadora em Atenas (Brasilia). Vejam o caso dos emolumentos judiciais: é evidente que há politização, um Tribunal que é menor, que é o do Rio de Janeiro já garantiu seu direito constitucional de que os emolumentos fiquem no tribunal, sem a necessidade de o Tribunal Fluminense ficar solicitando suplementações. O que se deduz uma capacidade política de menor oposição, um partido da base do governo de Atenas que é o PMDB consegue sua reivindicação ser atendida.
    Mas independente de politizações precisa-se unir forças para que a reivindicação legítima seja atendida. A receita do TJ-SP, como foi informado pelo Presidente está 50% menor que o mínimo que é de 6%, está em 3%, O Presidente está tentando reverter este quadro totalmente desfavorável, ilegítimo, ilegal, e eu arrisco, não se deve politizar, mas o TJ-SP está assim por falta de apoio político de todos os lados, e parece estar isolado. E como o próprio Presidente falou: “Compreendo que o povo precisa de segurança, de saneamento básico, educação, saúde, , moradia, transporte, etc. Mas precisa também de Justiça. E se o Governo é responsável indireto pelo crescimento vegetativo do Poder Judiciário, se atravanca o Judiciário com 12 milhões de execuções fiscais (Estado e municípios), tem de ajudar a sustentar esta máquina. É preciso que a sociedade toda seja sensibilizada dessa situação e não lance apenas sobre a responsabilidade do Judiciário a ineficiência do serviço, lento e complicado como é hoje” (Palavras do Presidente em recente entrevista ao Jornal O Estado de São Paulo). Atenas que me desculpe, o que é da polis que fique na polis, não é justo está distribuição tributária centralizadora, O Governo do Estado de São Paulo precisa precisa lutar junto com o Judiciário de seu Estado, assim como o Governo do Estado do Rio de Janeiro fez com o Judiciário do seu Estado.

  4. Confio que nos dias de hoje, nem com alquimia, daríamos vida as polis.
    Não falo pela dimensão geográfica das cidades, ainda que muitas pequeninas, também não questiono o número e o viver da população.
    Visualizo que toda cidade, município é uma União em potencial.
    O incerto que passa uma Nação é o mesmo que atravessa as então chamadas “polis” de hoje.
    Porque o errôneo gerenciamento, os conluios para obtenção de vantagens financeiras ou de prestígio se fazem presentes em todas as esferas…
    A virtuosas polis de outrora, sem exclusão alguma foram minadas com a ambição, corroidas….espalhadas.
    Não há ambição mais, o desejo maior para minha gente, mas a cobiça desvairada para si próprio, corroeu-se o envolvimento tribal, das metas planejadas, dos sonhos absorvidos em conjunto.
    O homem adoeceu em corpo e espírito, e não há como resgatar sua polis, porque falta o elemento mor, o CIDADÃO, este mesmo que desaprendeu olhar ao seu lado.

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