Blog do Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

Excessos que doem

3 Comentários

A cultura jurídica apregoa o reinado da presunção de boa-fé. Na realidade, prevalece a presunção da má-fé. Miserável condição humana a de se encantar com o escabroso, em lugar de se encantar com o mavioso. Falar bem de alguém não rende conversa. Acaba logo o assunto. Mas experimente aludir a algo comprometedor, a algo que possa tisnar uma reputação e logo se notará o despertar do interesse mórbido. Logo haverá um acréscimo, uma suspeita a mais, o assunto ganhará proporção.

Estas reflexões derivam de alguns fatos recentes. O presidente que viu interrompida a sua gestão ante denúncias candentes, veio a ser a final liberado das acusações. Indagou quem devolveria o seu mandato, a sua tranquilidade, a sua paz de espírito. Atuais candidatos a postos majoritários têm a sua reputação atingida por suposições, boatos e vinculações que derivam mais do clima eleiçoeiro do que de fatos consistentes. É fácil denegrir a imagem, estiolar reputações, desconstruir a consideração coletiva. A maledicência é uma indústria lucrativa e florescente.

A propósito, editorial da FSP de 26/4/14 oferece uma face do fenômeno: “pedido exorbitante”. Aborda o papel do Ministério Público: “Por relevantes que sejam os serviços do Ministério Público à sociedade, não podem ser irrestritos e ilimitados os poderes de investigação dos membros dessa instituição”. Não é incomum que promotores se valham de informações obtidas não se sabe como ou fornecidas por adversários políticos, para lançar dúvidas sobre a probidade daqueles que têm coragem de enfrentar a vontade das urnas.

Na mesma página da FSP, André Singer fala de “Escândalos em série” e aborda o “escândalo político-midiático”, para ressaltar que “a mídia não cria o escândalo, mas a divulgação que lhe dá é tão decisiva quanto o próprio conteúdo propalado”.

A França tem o exemplo que deve ser evitado de promíscuo conúbio entre promotores desejosos de fama e jornalistas em busca de “furos”. Muitas as vítimas dessa relação incestuosa, que antes sentem o sofrimento do repúdio, se submetem à ignomínia e só muito depois conseguem restaurar a verdade. Algo que surge depois de demolida essa construção frágil que é a da boa-fama.

Há um longo caminho a percorrer na conscientização dos profissionais providos desse terrível poder: destruir a honra alheia.

JOSÉ RENATO NALINI é presidente do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo para o biênio 2014/2015. E-mail: jrenatonalini@uol.com.br. Visite o blog no endereço https://renatonalini.wordpress.com e dê sua opinião sobre seus artigos.

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Autor: Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

3 pensamentos sobre “Excessos que doem

  1. Bom dia!
    Tem inteira razão, caro blogueiro, pois que o mal está perto, ao alcance de nosso coração para produzir os seus terríveis efeitos, em todo e qualquer lugar e nas situações mais ou menos corriqueiras. O problema está, tal como naquele “travesseiro de penas”, quando temos de corrigir o malfeito. Pior, ainda, são as consequências na formação de nossas crianças, prontas a tudo imitarem por acharem que é certo e bonito.

  2. Dr. José Renato Nalini a vida dos seres humanos é hoje algo tão tedioso que carece daquelas belas caixas de lápis coloridos de 3 partes, que meu pai presenteava suas três filhas.
    Eu era feliz demais…achava que era pelas hipnotizantes cores que vinham em tom sobre tom.
    Hj adulta, mãe, algumas marcas n’ alma, estudiosa de várias ciências, conclui que o brilho e encantamento meu pelo colorido não advinha da química da Faber Castel, mas do afeto de meu pai.
    Hoje, as pessoinhas não tem nem um mero olhar do outrem, ficaram amargas, vazias e ocas…
    E, como preencher este buraco, esta fome e sede que a nada cessa ?
    Ler algo acerca da felicidade do outro, dos degraus galgados pelo seu amigo de juventude?
    Não, não dá, dói ver que outros deram certo e ele ali só, assistindo fama, amores, prestígio doutros..
    Assim, é melhor e menos esmagante CRITICAR, por defeito em tudo e à todos.
    As críticas muitas têm fundamento e são salutar, mas a maioria delas vêm gratuitamente, quase que incontida, descontrolada, não é aquele ser real quem escreve-a, mas sim sua nociva e solitária psique.
    Assim, preparem-se, com a sociedade mundial doente, falida espiritualmente, a tendência será o crescer de comentários denegrindo seu próximo, atacando-o, em vantagem aos elogios, tecido apenas na pura realidade daquele fato.

    Ah….será que Lara já tem a caixa de ” lápis de cor” da Faber?
    Gostaria que ela não ganhasse uma importada,.não tem o perfume do afeto que precisamos.

  3. Dr.José Renato, mais uma vez palavras absolutamente pertinentes. O que fazer?

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