Blog do Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

O partido da pobreza

5 Comentários

Dentre os centenários a serem comemorados em 2014, um bastante especial é o de Irmã Dulce. Seu nome era Maria Rita de Sousa Brito Lopes Pontes (1914-1992). Foi chamada de “Anjo Bom” da Bahia e considerada uma das mais relevantes ativistas humanitárias do século 20, cogitada para receber o Nobel da Paz em 1988. Em 2011 foi beatificada e é mais uma das candidatas ao altar cujo processo de canonização tem curso pela Santa Sé.

Sua luta em favor dos oprimidos foi reconhecida por todos, independentemente da confissão religiosa. Um dia, ao pedir ajuda a um empresário, este cuspiu em sua mão. Irmã Dulce não se abateu. Limpou a mão e disse: – “Isto foi para mim. Agora quero a ajuda para meus pobres!”. Vestiu a camisa dos excluídos. Ajudava-os material e espiritualmente.

Não era “bolsa”, mas estendia a mão e os fazia levantar da degradação, da sub-humanidade, das condições indignas, para alçarem-se ao status digno de criaturas da espécie racional. Exemplos como os de Irmã Dulce fazem falta. Despojamento, desinteresse, devoção à causa. As políticas assistenciais têm sempre uma dupla face.

De um lado significam a tentativa de reduzir a miséria. De outro, o intuito de cativar os dependentes para torná-los eternos devedores e reféns do interesse hegemônico de quem patrocina sua subsistência. Quem faz caridade é movido por outro móvel. Reconhece no outro um semelhante, alguém que não merece passar por privações pois é irmão. Se Deus é pai, o próximo é meu irmão. Essa é a mensagem evangélica e é muito difícil segui-la, porque o outro nem sempre é amorável.

Fácil é gostar de quem gosta da gente. Amar por reciprocidade. Amar quem tem o mesmo sangue a correr nas veias, como se ama os pais e se idolatra os filhos. Já em relação ao estranho, o primeiro sentimento nesta época de desconfiança é a suspeita de que ele nos atacará. Então é comum que a primeira defesa seja o ataque.

De quando em vez a Providência envia ao mundo alguém como Irmã Dulce, que será interpretada por Regina Braga num filme que está sendo rodado na Bahia. Uma mulher que não servia a interesses escusos nem a partidos. O Partido dela era o Partido do Pobres.

JOSÉ RENATO NALINI é presidente do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo para o biênio 2014/2015. E-mail: jrenatonalini@tjsp.jus.br

Imagem

Natal das crianças do Centro Educacional Santo Antônio – Créditos: http://www.irmadulce.org.br/

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Autor: Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

5 pensamentos sobre “O partido da pobreza

  1. Tudo bem que quem precisa da caridade não quer saber de onde vem e nem por qual motivo é nada.
    Mas o que acontece no Brasil é uma vergonha. Não é doação, mas troca de favor.

  2. Boa tarde querido Presidente Dr. Nalini ! Tudo bem !
    Amei seu texto, mais uma vez arrasouuuuu !
    Um forte abraço.

  3. Irmã Dulce…um dos textos mais difíceis de comentar, pois a ela não temos qualificação e nem moral para pretendermos analisará.
    Bem se diz ” santo de casa não faz milagre…”
    Durante toda evangelização e acolhimento dos oprimidos de físico e d’ alma, Irmã Dulce não esteve tão exposta, falava-se e glorificavam em destaque a Madre Teresa de Calcutá.
    Assim foi, até por desígnio de Deus, pois quanto menos falavam de Ir. Dulce, mais ela crescia em luz, em anulação de si própria, voltando cada vez mais aos seus pobres.
    Olhando-a nesta imagem postada por V. Exa. , seu semblante tão suave, seu corpo franzino e já arqueado, embora com força e coragem de uma guerreira, custa-me a crer ser ela de carne e osso tal qual nós meros mmortais.
    Seu semblante lembra o de Cristo, seu olhar piedoso fitando aquelas crianças, doentes, anciãos que tinham nela a única salvadora.
    Uma líder nata que buscava auxílio aos seus protegidos, mas uma mulher sem rótulos, sem padrinhos a lhe proteger ou à bancar sua alma límpida em ação junto aos solitários e desvalidos.
    Tenho para mim que, embora carentes e sofridos, aqueles por ela socorridos foram abençoados, pois tiveram a dádiva de estarem próximos à Cristo e quiçá , por alguns segundos, até ao céu terem ido.
    Difícil escrever de almas e espíritos iluminados, já desacostumamos a enxergar o bem.

    Fátima Maria Segalla Coutinho

  4. Falar de Irmã Dulce é falar de humildade, sabedoria e perseverança na fraternidade e na busca da Paz! A colocação de S.Exa. o nosso Presidente e os comentários postados foram para mim motivo de grande alegria e reflexão. Graças a Deus! Neste nosso mundo tão pragmatista e, por vezes tão alienado, ainda encontramos pérolas como tais declarações Vamos seguir o exemplo do “Anjo dos pobres”: cada vez mais SER e menos TER.

  5. Ele nos deu o livre arbítrio, mas sua misericórdia é infinita ao ponto de interferir de quando em vez, enviando ao mundo alguém como Irmã Dulce, Divaldo Franco, Chico Xavier e muitos outros que dedicaram suas vidas em prol da caridade! Graças a esse envio divino, poderemos equilibrar o desmantelo daqui e ali! O Criador é Genial!

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