Blog do Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

Como seria bom

3 Comentários

Quando me desalento por encontrar um exagero de más notícias e uma escassez de boas novas, algo me faz encontrar forças para nutrir o pouco de esperança que resta. Agora é uma reportagem sobre 112 pessoas em São Paulo, a insensata capital que juntou vinte milhões de seres humanos vivendo no caos, que cuidam de praças com verba própria (FSP, 15.6.14). Algumas gastam até 600 reais por mês do próprio bolso para que jardins não pereçam. Esta imensidão paulistana tem 550 adotantes para suas 5 mil áreas verdes. Pouco mais de 10% do número de minúsculas reservas se interessaram por tornar a cidade mais humana.

O brasileiro não é zelador da coisa pública. Ao contrário, aqui o que é público, em lugar de sua categoria jurídica de “bem de uso de todos”, é algo que pertence a ninguém. É a antiga “res nullius” do Direito Romano.

Uma santa inveja de brasileiro que viaja pelo Primeiro Mundo é o carinho com que as pessoas tratam de seus espaços públicos. Aqui, ao contrário, a vergonha que se tem da sujeira crescente. Quanto mais ignorante o povo, mais resíduo sólido ele produz. E não há inocentes nessa feia tradição de tornar sujas as ruas, os passeios, os espaços livres. Quanta gente escolarizada joga seus detritos das janelas entreabertas dos carros blindados. Quanta empresa faz propaganda em papel e emprega mão de obra ociosa para ficar distribuindo folhetos que vão parar nas ruas e entupir os bueiros e bocas de lobo.

Verdade que a burocracia infernal é empecilho a quem pretenda fazer algo em favor dos outros. É preciso formalizar o pedido, licença, alvará, publicação no Diário Oficial e outros estiolantes procedimentos que desestimulam a boa vontade. Em compensação, quem lança lixo à rua ou despeja restos de demolição em terreno alheio não é multado.

Há um longo caminho a percorrer até que as pessoas se convençam de que todos ganham se a cidade ficar mais limpa e mais bonita. Nem tudo está perdido quando 112 indivíduos são generosos e sensíveis a ponto de oferecer tempo e dinheiro para ajardinar praças, limpar espaços verdes, recuperar aquilo que a ignorância fez perecer. Como seria bom que eles se multiplicassem para bem do Brasil e das gerações de amanhã, que hoje crescem como se a sujeira fosse natural à condição humana.

JOSÉ RENATO NALINI é presidente do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo para o biênio 2014/2015. E-mail: jrenatonalini@uol.com.br

 

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Autor: Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

3 pensamentos sobre “Como seria bom

  1. MUITO ME ENTRISTECE PRINCIPALMENTE EM VER A CIDADE DE SÃO PAULO SE TORNAR A LATRINA DO BRASIL.

  2. Professor, este parágrafo de sua notável exposição diz tudo sobre onde se encontra o problema, apresentou o diagnóstico: “O brasileiro não é zelador da coisa pública. Ao contrário, aqui o que é público, em lugar de sua categoria jurídica de “bem de uso de todos”, é algo que pertence a ninguém”.
    Mas no lugar “que pertence a ninguém”, poderia acrescentar “aproveitado por uns poucos”.

    Este parágrafo é o diagnóstico, mas a solução será encontrada se formos e buscarmos a causa do problema!

    Mas, o problema é conjuntural, pois o povo não tem acesso ao bem público, alguns poucos usufruem de leis e cursos, bolsas para pesquisas, saneamento básico, educação, saúde, transporte, etc. enquanto a grande maioria “o povo” está a margem do Estado e dos bens públicos.

    Aí “o povo” se revolta contra aquilo que vê, mas nunca chega até ele (o povo).
    Como exemplo temos as comunidades (favelas), tem algumas que possuem ruas estreitas asfaltadas, mas não há sequer iluminação adequada, sinalização então nem pensar!

    Outro exemplo, temos a saúde: O cidadão está com pedras na vesícula, vai até um posto público (com dores) tem que ser atendido por um clínico, depois de 4 (quatro) horas é atendido, e aí lhe é entregue um pedido de exame (ultrassom) que será marcado para dali 4 ou 6 meses (isto é realidade em SP), depois ele volta em uma consulta para ser encaminhado para um especialista, que será marcado para dali mais 4 ou 6 meses no mínimo, neste espaço de tempo houve uma crise com dores muito fortes foi encaminhado para o pronto socorro, ou chegou tarde e morreu ou se der para aplicar uns sedativos fortes e após voltar ao normal volta para casa com encaminhamento para o posto novamente.Na melhor situação o caso era grave e deu tempo de fazer a cirurgia de emergência.

    Mas, temos outros exemplos: as empresas telefônicas deveriam colocar telefones públicos que funcionassem em toda a cidade, mas nunca foram fiscalizadas e nunca colocaram, mas existem aqueles que pensam que hoje todo mundo tem um celular (até sofrer um acidente e não ter um em mãos ou até ser assaltado e não ter um para utilizar, ou até não ter bateria ou sinal, etc. ) e aí não haverá um telefone público que funcione para utilizar, quando deveria ter um funcionando a cada dez metros conforme a densidade demográfica, mas não existe! Enquanto isso as telefônicas faturam milhões, mas não fazem sua parte e sua obrigação! E vamos vender celular! E, não entendemos por que o povo não acredita naquilo que é de todos! O povo mesmo acredita que não é necessário telefone público, mas nos países desenvolvidos há em todo o lugar um!
    O podo não acredita que é seu aquilo que é de alguns!!! Os advogados, os juízes, os médicos, os empresários, e os funcionários de empresas saudáveis estão no mínimo do meio da pirâmide para cima! Do meio da pirâmide para baixo encontra-se a maioria, que estão no transporte público, que fazem faxina, as diaristas, e quanto mais abaixo na pirâmide maior o número da população, nada melhor que uma pirâmide, para mostrar isto!

    Falamos em transporte público! E este é público mesmo, é de todos, mas existem empresas, de pessoas que estão do meio para cima na pirâmide ganhando milhões com isto! (Basta observar um ônibus na rodoviária Tietê, que vai para Jundiaí ou Atibaia, nele só podem ir passageiros o suficiente para os assentos e são alguns bons quilômetros, durante a semana vai quase sempre com menos de 40% dos assentos ocupados e mesmo assim dá um bom lucro e a passagem não é tão mais cara proporcionalmente ao preço da passagem do transporte urbano. E o transporte urbano ao contrário vai sempre muito além da lotação permitida, do que pode transportar e muitos o utilizam por poucas quadras as vezes, das 4 (quatro) horas até as nove da manhã estes ônibus andam lotados.) enquanto o povo ou as empresas pagam por um serviço que é prestado pela metade (falho, abusivo e inseguro)que não se enquadra e se encontra dentro das normas do CDC.

    Nós já conhecemos a doença, o diagnóstico está bem claro no que o Professor falou, mas o causador da doença nós conhecemos?
    Temos o hospedeiro, mas precisamos identificar o parasita!
    Precisamos identificar o causador também!

    E a medicação deverá ser prescrita para ambos! Para o doente será necessário repouso, reabilitação, reeducação e fisioterapia enquanto para o causador será necessário “medicina” (em espanhol).

  3. Concordo plenamente, estive várias vezes na Europa, especialmente na Alemanha e no Grão Ducado de Luxemburgo e fico encantado com os jardins tão bem cuidado. Patrimônio público é de todos e todos cuidam.

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