Blog do Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

Contra a corrente

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O mito do “progresso” causou muitos males. Em nome dele, devastou-se a natureza, canalizou-se o curso d’água, impermeabilizou-se o solo. Visão miserável de desenvolvimento, que refuga a vida campestre e multiplica os periféricos do capitalismo em cidades desumanas. O problema contemporâneo é que as pessoas se acotovelam nas conurbações.

Preferem viver ou sobreviver amontoadas, enquanto vastas regiões interiores têm reduzida densidade populacional. O mundo das cidades, além de possuir 65% da população planetária, congrega 75% da economia e 85% da poluição produzida por uma espécie que só sabe transformar quase tudo em lixo. O sensato seria retardar o ritmo da urbanização. Mas isso é nadar contra a corrente.

As Câmaras Municipais em regra acreditam prestar serviço à cidadania quando reduzem a zona rural e incluem na massa urbana as partículas ainda pouco sacrificadas. O arquiteto holandês Reinier De Graaf, que integra o AMO, Centro de Pesquisa e Design Urbano com sede em Roterdã, sustenta que hoje as cidades nascem, crescem, incham e colapsam. É urgente romper esse ciclo.

Quem o conseguirá? A ONU também se preocupa com o fenômeno da explosão urbana. Dedicou 2014 à agricultura familiar. A família a semear, a capinar, a colher e a renovar a terra. Tradição que o Brasil e, principalmente, São Paulo já viveu, mas que trocou por um desumano modo de subsistência.

A favelização, a distância entre a moradia e o trabalho, as subcondições existenciais que não abrem perspectiva para uma infância entregue à educação capenga e a um projeto incompetente de concretização de outros direitos fundamentais. É urgente que os pensadores lúcidos obriguem a administração pública a um plano consequente de resiliência urbana.

Ele seria implementado em quatro fases: resistir, retardar, reter e descarregar. Resistir às intempéries, que se tornarão cada vez mais frequentes, ante o descaso de todos em relação ao meio ambiente. Retardar significa multiplicar as áreas verdes, vastas e porosas, para absorção das águas. Reter consiste em construção de cisternas, açudes, represas e bacias de retenção. Descarregar é planejar o sistema de drenagem, para controle do bem finito e precioso que é a água. Quem se habilita a investir nisso?

JOSÉ RENATO NALINI é presidente do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo para o biênio 2014/2015.

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Autor: Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

5 pensamentos sobre “Contra a corrente

  1. Aqui no interior de SP as prefeituras têm negligenciado a questão urbanística.
    Loteamentos e mais loteamentos são aprovados para atender a fins econômicos e sem exigência alguma de contrapartidas sociais ou ambientais.
    Se o legislador federal é ruim, como sabemos, o municipal consegue superar…

  2. Surpreendente o que pode nos saltar os olhos quando a análise desveladora parte da experiência. Bom mesmo é ver toda essa vitalidade em um veterano de guerra.

  3. As pessoas precisam valorizar mais e preservar o meio ambiente, não só quando começa a fazer falta, no caso em tela, ex; Àgua que é fundamental
    para nós, questão polemica para nossa sobrevivência !

  4. Não há como discordar. Evidente que ainda vivemos, referindo-me ao Brasil, se comparado aos países mais desenvolvidos, como Alemanha, Holanda e Japão, um apagão de consciência sobre a necessidade de mudar padrões ultrapassados, costumes ultrapassados e etc. Para nós, brasileiros, é como se andássemos na contra mão, contra a corrente, pensar em construir uma casa sustentável. É verdade e acompanho a constatação do estimado Professor e Escritor, precisamos urgente, começarmos a nadar contra a corrente, para justamente, fazendo isso, mudarmos a nós individualmente e coletivamente este padrão ultrapassado, mas vigente aqui a séculos, entretanto superado por países considerados ícones de desenvolvimento humano e de crescimento sustentável, como Alemanha, Holanda e Japão. É preciso começarmos a ter coragem de mudar e isso significa consumir menos, crescer menos, para consumirmos e crescermos com qualidade. Esta luta já era para ter começado a muito tempo, a mais de duas décadas atrás. A falta de água de hoje já é produto do retardamento destas ações de consumo e crescimento sustentável. Se tivéssemos agindo contra a corrente a três décadas atrás, com certeza estaríamos muito mais bem preparados para a falta de água de hoje.

  5. O gravíssimo problema brasileiro é copiar ideias e comportamentos alienígenas que apenas se revelam inaplicáveis à própria realidade. Por exemplo, foi adotado o pensamento europeu, de urbanização em espaços geográficos limitados.
    As cidades brasileiras constituem núcleos de urbanização precária em pequenos espaços. Extremamente povoadas.
    Diante do território brasileiro a expansão horizontal das cidades permitiria desafogá-las da poluição, trânsito intenso, da tensão individual que se converte em coletiva, da dificuldade de acesso a determinados pontos geográficos, da caótica concentração de atividades em um único ponto geográfico, e da má utilização de recursos humanos e naturais.
    Urge nos livrarmos das amarras ideológicas.

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