Blog do Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

Perdas macroscópicas

4 Comentários

Em poucos dias, o Brasil perdeu Ivan Junqueira, Rubem Alves, Ariano Suassuna e João Ubaldo Ribeiro. O céu deve estar sentindo falta de eruditos. Mas a Terra também é carente. Fica a cada dia mais pobre.

Pobre porque não descobriu a receita para a paz. Guerras fratricidas, ódios acumulados, preconceitos exacerbados. Violência por todo o canto. Haverá esperança para a Humanidade? Crescem os roubos, escasseia a água.

A crise é muito mais grave e séria do que se anuncia. Mesmo assim, age-se como se a abundância ainda fosse a regra. As pessoas são insensíveis, não escutam a advertência de que em breve haverá forte racionamento. Continuam a sonhar sob os chuveiros, a lavar passeios e carros. Deixam a torneira aberta e querem que apenas os outros economizem.

A propósito dessa falta d‘água, que coincide com a perda macroscópica de gigantes da literatura, dois fatos interessantes. Ignácio de Loyola Brandão escreveu há mais de 30 anos um livro profético: “Não verás País como esse”, em que as últimas gotas dos rios e córregos extintos estavam recolhidas em pequenas garrafinhas numa espécie de “Museu da água”. Profecia? Parece que chegaremos lá.

A FLIP, que endeusa autores estrangeiros, trouxe o escritor paquistanês Mohsin Hamid, que escreveu “Como Ficar Podre de Rico na Ásia Emergente”. Conta a estória de um jovem que resolveu engarrafar água da torneira e vende-la como se fora mineral. Para o autor, “a água sempre foi grátis. Se estamos vivendo num mundo em que é preciso trabalhar e ganhar dinheiro para compra-la, estamos ultrapassando uma fronteira civilizacional. Estamos vivendo uma situação que a humanidade nunca viveu antes”.

Sua cidade natal, Lahore, lembra um pouco São Paulo, pois ali também há falta de água para boa parte da população, “enquanto temos casas grandes com piscinas e fontes”.

A metáfora não pode deixar de surgir: rareia a água pura, sem a qual não há vida. Vão desaparecendo as grandes figuras literárias, provocando uma seca de ideias, de criatividade e de talento. A falta de memória garante uma sobrevida de alguns meses após a morte. Depois disso, tudo cai no esquecimento. A vida continua. Triste e sem perspectivas, mas a oferecer desafios aos que ainda têm sua peregrinação a cumprir.

JOSÉ RENATO NALINI é presidente do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo para o biênio 2014/2015. E-mail: jrenatonalini@uol.com.br.

Anúncios

Autor: Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

4 pensamentos sobre “Perdas macroscópicas

  1. As perdas têm sido enormes mesmo. Sede de água, sede de educação, sede de cultura e da pacificação. Vivemos com sede.

  2. Pedras tem um grande significado,é usada com referência na Biblia,e serve como um alinhamento de uma construção.Mas parece que mexeram no alinhamento desta construção chamada de Brasil,por que está desmoronando tudo e,em todos os aspectos,e por falar em pedras automaticamente lembramos do solo,E,é,inevitável sentirmos sede,sede de saúde,sede de educação,sede de justiça,enfim sede de tudo.Será que ainda conseguiremos alinhar o Brasil de novo,para matarmos nossa sede?

  3. Gostei muito Professor, se assim me permite, tive acesso ao texto pelo Linkedin. De fato a realidade parece estar longe das pessoas, e o pior, as condutas por conta disto não mudam….simplesmente lamentável. A atitude de economizar não deve partir só dos administradores públicos, deve partir das pessoas….

  4. Parabéns, Dr. Renato, por mais essa matéria fantástica.
    Um abraço.
    Toninho Miguel.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s