Blog do Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

A sevidão consentida

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O Estado é uma sociedade de “fins gerais”. O que significa isso? É que o Estado tem abrangência suficiente para acolher, em seu interior, as demais sociedades chamadas de “fins particulares” e, ainda, os indivíduos desvinculados de qualquer grupo. Dentro do Estado, todos devem ter a oportunidade de se desenvolverem em plenitude, atingindo os limites de suas potencialidades.

Essa é uma visão singela do Estado, nascido como instrumento posto à disposição das pessoas, para que elas não sejam impedidas de alcançar seus objetivos. Sozinho, o indivíduo é frágil. O grupo o fortalece. Mas o Estado é mais forte ainda. Para domá-lo, deve ser concebido qual mero instrumento de fazer as pessoas felizes. O Estado é sempre meio e nunca pode se converter em finalidade.

É lícito, em teoria, pensar se em alcançar um nível tal de civilização, que o Estado viesse a se tornar desnecessário. Isso quando a população adquirisse um grau adequado de autogestão, a pressupor uma comunidade capaz de conviver em harmonia, sem o freio do poder e sem o monopólio da violência exercido pelo governo. Estamos longe desse estágio. Há quem pense que tenhamos regredido. É que o Estado cresceu demais, tornou se insubstituível.

Há dependência extrema das pessoas em relação ao governo. Ele se compraz disso e estimula a servidão consentida. Nítidos os sintomas. Desapareceu o mérito. Tudo depende das relações, das indicações, do compadrio, do favoritismo, da fidelidade a algumas causas de interesse localizado. Não se prestigia o trabalho. Os direitos são usufruídos sem qualquer contraprestação. O Estado onisciente, onipotente e onipresente normatiza tudo.

Interfere em todos os aspectos da vida pessoal e o indivíduo parece confortado e feliz por não ter de investir em nada. Principalmente, investir em si mesmo. Libera se da obrigação de se responsabilizar pelas opções feitas nas eleições. Estas são decididas pelos marqueteiros, desde que haja tempo suficiente de televisão para “vender o produto”.

Daí a avidez com que se disputa um segundo ou um minuto, com total desapreço à lisura das alianças. Para um povo infantilizado, que talvez se pretenda ver a cada dia mais servil, a solução de um Estado todo poderoso é uma solução, é uma receita confortável, mas esterilizante do sonho de uma verdadeira cidadania. E sem cidadania protagonista, como implementar a Democracia Participativa prometida pelo constituinte?

JOSÉ RENATO NALINI é presidente do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo para o biênio 2014/2015. E-mail: jrenatonalini@uol.com.br

Imagem: http://www.freeenglishsite.com/ Créditos: Rob Sinclair

Imagem: http://www.freeenglishsite.com/
Créditos: Rob Sinclair

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Autor: Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

2 pensamentos sobre “A sevidão consentida

  1. Muito oportuna para reflexão “A servidão consentida”. Estaremos novamente escolhendo o rumo que queremos seguir, “dá-se o peixe ou ensina a pescar” essa é a questão? Os projetos sociais até aqui implementados aniquilam a inteligência do ser, conduzindo a ilusões que se transforma em comodismos com a “lei de gerson”. O Estado normatiza, fiscaliza e puni; mas não se organiza, gerencia e educa. Parabéns, mais uma vez pelo tema. Cordialmente grato.

  2. O regime autoritário é mais fácil. Cria-se uma norma obrigatória e cobra-se seu cumprimento. É imediata. Rápida. Mas, em contrapartida, torna seus subordinados dependentes. Assim é a vida. Assim é a educação de nossos filhos. Assim é o Estado. Para que uma população tenha uma autonomia e consciencia que tudo depende não só do Estado mas dela, inclusive, em conjunto e, principalmente dela, cada fatia formando um todo, caso contrário, não conseguirá o Estado a complementação necessária para dar efetividade em suas ações. É preciso mirar na educação e criar no povo a consciencia de coletivo, uma população mais madura. O Brasil é um país jovem. Já está na hora do governo cobrar mais de seus filhos.

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