Blog do Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

Faltou juízo?

4 Comentários

A crise hídrica é muito mais grave do que possa parecer. Em 1991, às vésperas da Eco-92, o sistema Cantareira já mostrava sinais de exaustão. São Paulo tentou normatizar o uso adequado da água, erigindo a bacia hidrográfica a parâmetro de atuação. Mas como tudo acontece nesta República, há um longo caminho entre a lei e sua observância.

A cultura da abundância leva a imensa maioria das pessoas a acreditar que água é gratuita e infinita. Só que ela é finita e seu tratamento custa mais caro a cada minuto. Sem água não se vive. Ainda assim, perseverou-se na ignorância e na insensatez. Um Tietê que nasce límpido em Salesópolis, se torna morto e assim permanece por 71 km, desde Guarulhos até Pirapora do Bom Jesus. Em todas as cidades civilizadas, o Rio é fonte de vida.

Serve para abastecer a população, para transportar pessoas, para abastecê-las de pescado, para embelezar o ambiente. Aqui em São Paulo, o Tietê é um transporte considerado gratuito de esgoto doméstico, efluentes tóxicos despejados pelas indústrias inconscientes, pestilência de toda a ordem oriunda da sujeira que caracteriza grande parte das periferias, conduto para os resíduos sólidos que a ignorância produz.

Não é incomum ver móveis, geladeiras, carcaças de automóveis, animais mortos e outras imundícies que a inclemência do bicho homem lança àquilo que deveria ser renovação permanente da vitalidade. Sem água não se vive, ao contrário do petróleo. Água deveria custar mais do que gasolina, etanol e diesel. Para uma população que não tem noção exata do que acontece, onerar o bolso representaria sinal de alerta, a anteceder a emergência que virá.

É urgente conscientizar as pessoas de que derrubar árvores é sinônimo de matar a humanidade. Já passou a hora de incutir nas crianças o desejo de replantar a vegetação criminosamente abatida, que gerou a desertificação. Ainda haverá tempo para coibir as maldades praticadas contra a natureza, levar a sério a legislação tutelar da ecologia, punir infratores, sejam pessoas físicas, empresas ou o Poder Público e tomar consciência de que está em risco não a sobrevivência da espécie, mas as necessidades da próxima semana, do próximo mês e do ano que se avizinha?

Faltou e continua a faltar juízo. Haverá coragem para reverter esse quadro tétrico?

JOSÉ RENATO NALINI é presidente do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo para o biênio 2014/2015. E-mail: jrenatonalini@uol.com.br.

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Autor: Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

4 pensamentos sobre “Faltou juízo?

  1. Republicou isso em Pesquisas de Químicae comentado:
    Artigo importantíssimo que recomendo a leitura do Dr José Renato Nalini.

  2. Vossa Exa. argumenta que o dramático momento que ora atravessamos, na questão relativa à água, hídrico, foi “falta de coragem” de quem de direito, em passado distante, não ter iniciado nenhuna espécie de equacionamento para solução final do atual dilema.
    Coragem carece primeiro do desejo, este, sempre vem acompanhado do medo….
    O medo é tal qual a coragem, é o verso e o reverso- atrás de um encontra-se o outro, vivo.
    A questão hidráulica, hídrica, a falta total do elemento água até para beber, foi conscientemente deixada de lado, por ser um tratamento de preço elevado, complexo, mas submerso, NÃO TRÁS VOTO PARA ADMINISTRADOR ALGUM, NEM AO SEU PARTIDO.
    Em época de campanha, se no palanque, o político dizer que gastou milhões em infra estrutura para que não tenha mais calamidades quando de chuvas sequências, ou que foi em busca de métodos sofisticados para preservar a água de cada dia de sua gente, ao final de seu discurso, nem público haverá mais.
    O político vive de votos, de mídia, de promoção recheada de shows sertanejos, agora funk também.
    Assim, o problema existe, o administrador daquela cidade, capital, conhece bem em quantos enxames terá que mexer, todo orçamento que irá embora, para depois de passada a chuva que matou uns 20 nos desabamentos, ninguém mais lembrar de nada.
    E, aí do prefeito que avisar que não terá festa carnavalesca para economizar numerário para despoluir rios, cuidar das áreas ambientais.
    E, tal como enxergamos, o que falta é integridade moral dos prefeitos e governos, pois se ciente da gravidade ele que execute o necessário, de urgência urgentíssima.
    Desembargador José Renato Nalini, este ano de eleição, 2014, V. Exa. apontaria algum política que deixou de ser eleito ou reeleito por ter olvidado a questão hídrica ??

  3. Excelência,o desmatamento e as queimadas são uma constância nesse nosso país,onde, o capitalisno desenfreado estão acabando com as nossas nascentes.São Paulo mesmo,é melhor plantar Cana do que conservar a mata natural.Meus respeito,Jorge Henrique de Macedo Baptista.

  4. É., Excelência, uma nação com a educação deficiente, como educar ambientalmente? A crise hídrica vai passar e deixará suas marcas, houve uma crise também em 1964; sem falar do golpe, apenas à falta de chuvas! Sabemos da ineficiência do Estado que despreza as Leis de Oferta e Procura, que não olha para onde a economia esta indo, que não compreende as vocações e as interferências quanto ao uso e a função social e econômica das propriedades. O juízo tem faltado intermitentemente, más faltou METAS! Confúcio 500 anos antes de Cristo…já dizia.
    O jovem Brasil, deitado ou adormecido, ainda que gigante esta apenas se espreguiçando. O ciclo das águas vai continuar com intervalos mais irregulares as estações não estão mais bem definidas como aprendemos nos bancos escolares e não é preciso ouvir isso de ecologistas, meteorologistas, preservacionistas… basta apenas contemplação e observação. Se não houver ações para o amanhã, se ninguém se importar com o ano vindouro, se todos se recusarem a olhar para a próxima década, o que esperar para 100 anos?!
    É hora de ações, cívicas principalmente. A sociedade precisar conversar e agir na mesma velocidade, sem ações, uma vez instalada a recessão se instalará a depressão, e não haverá mais a alegria de viver.!

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