Blog do Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

Pense no amanhã

5 Comentários

Toda ação humana provoca uma reação. Nem sempre igual e contrária, pois não se cuida de lei física. As reações das espécies animais são imprevisíveis. O “bicho-homem” continua sua plena domesticação. Se o exame das ocorrências propiciar qualquer diagnóstico, muitos concluirão que Hobbes tinha razão: o homem é o lobo do homem.

Comportamentos lastimáveis encontram-se em todos os espaços e em todos os estamentos. A relação do ser humano consigo mesma é conflitiva. Cresce o número dos deprimidos, dos desalentados, dos desesperançados e desiludidos. Mal-humorados, são incapazes de uma palavra amável. Tropeçam em si mesmos e chutam o próximo. Literalmente. Basta verificar como são as aglomerações na metrópole: não apenas para as legiões que se utilizam dos coletivos, mas às portas dos estádios, nas filas dos grandes eventos e em qualquer recinto em que haja afluxo de pessoas.

Está falhando a educação doméstica, o papel da escola que se limita a fornecer informações, mas desistiu do treino da cidadania, a Igreja, que não consegue mais atrair a juventude como há algumas décadas. A sociedade inteira deve repensar suas estratégias de formação das futuras gerações. Mas há uma categoria que poderia encetar uma revolução nos costumes sem alarde, sem cataclismos, sem estardalhaço. É o conjunto das profissões jurídicas.

O Brasil tem mais faculdades de direito do que a soma de todas as outras faculdades existentes no restante do planeta. As profissões jurídicas absorvem seu conteúdo de uma esfera muito mais ampla, denominada ética. E a ética é a ciência do comportamento moral do homem em sociedade. Começa com a polidez que, desrespeitada, leva a infrações disciplinares mais graves. Depois, infrações administrativas. Em seguida, ilícitos cíveis e, por último – e mais grave – delitos. Crimes.

Esse o caminho trilhado por uma juventude sem disciplina, sem hierarquia, tudo tendo início na falta da boa educação de berço. No momento em que dermos à criança noções de dignidade humana, consciência para olhar para o outro, cuidar do outro, interessar-se pelo outro, como um igual, não como um estranho, talvez tenhamos perspectiva de um mundo melhor.
JOSÉ RENATO NALINI é presidente do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo para o biênio 2014/2015. E-mail: jrenatonalini@uol.com.br.

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Autor: Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

5 pensamentos sobre “Pense no amanhã

  1. Republicou isso em Cesar Curye comentado:
    Lembro aqui da lição do religioso indiano Rajneesh: a vida em si é neutra. Ela é o que fazemos dela. As consequências são inexoráveis, mas imprevisíveis. Para o bem ou para o mal.
    Vale, portanto, seguir o conselho do velho Chico Xavier: todos podemos fazer um novo começo para termos todos um novo futuro.

  2. Querido Amigo Nalini, há exatamente um ano, estive junto com Vossa Excelência, na livraria Cultura, onde também se encontravam Ricardo Dip e José Nêumanne Pinto. Um momento breve de confraternização o qual recebi o Livro recém lançado, Magistratura e Ética, organizado pelo estimado Professor. Foi um momento de grande prazer para mim. Pode ser que o Brasil possua esta má índole de haver mais Faculdades de Direito que de todas as outras demais juntas, mas uma coisa esta sociedade não pode reclamar, nós ainda possuímos grandes Escritores, doutrinadores, os quais nos honram com suas obras, desde os primórdios da Primeira Faculdade de Direito até nos dias atuais. E desculpe discordar, o homem não é o lobo do homem, ele nasce como uma folha em branco, como disse Jean Jacques Rousseau, o papel da educação é fundamental, se partirmos da premissa Thomas Hobbes, um forte pessimismo nos abate sobre nós mesmos. É melhor pensarmos que estes dois grandes filósofos se complementam, Na origem, Hobbes possui razão, não toda a razão, Rousseau está certo também da importância do papel da educação para mudar a natureza humana para melhor. Quanto a educação de berço, esta vai cada vez mais ficando sucateada, pelos iphones, televisão, etc. É a cibernética substituindo a educação de berço, exemplo comum: duas crianças, uma do lado da outra se comunicando pelo celular, quando poderiam diretamente, de frente uma para a outra fazer o mesmo. As escolas estão querendo proibir na sala de aula os celulares. Há iniciativas para inibir esta avalanche de cultura de massa que transforma cada um de nós reféns uns dos outros, sem criatividade própria e submersos em um forte grau de insegurança afetiva, aí porque se proliferam psicoterapias, remédios para combater a depressão, pois entre cada ser humana há uma máquina para impedir a interatividade como era antigamente. Só no resta acreditar que os Pais e os Educadores estão atentos a tudo isto. O certo seria aprender a ser antes de ter, mas entes eles recebem o ter sem nenhum preparo de consciência de como sem saber ser de nada adianta ter. Quando falamos de ética estamos exatamente nos preocupando em voltarmos a ensinar nas escolas e estimularmos os país a entrarem no mundo na moral, da ética, no saber se comportar antes de querer ter tudo que o outro tem. Abraços ao estimado Professor de Direito. pelo espaço de reflexão que sempre nos proporciona em seu erudito blog. Com muita consideração, de seu aluno Fábio.

  3. Pense…más acima de tudo pense cada vez mais. Vossos artigos são sempre um convite a reflexão e ao pensamento que nos leva a questionamentos. Ação & Reação + Causa & Efeito… e nos levam mais adiante, pois o homem bicho e alguns devemos dizer… bichados de mente, coração e alma; na escala evolutiva tenderão a se deixar influenciar pelos instintos mais primitivos.
    Sobre comportamento: Voltamos a edução, formação, caráter, índole, “cultura”,. Sempre vejo escritos, entrevistas de Vossa Excelência que cita outras Nações. Tive a oportunidade inesquecível de como turista observar comportamentos de Europeus e de turistas lá como eu.
    Me falam assim: Voce não pode comparar… o Brasil só tem 500 anos! e fico muito confuso, pois será que comportamento é genético? Ou como escreveu Laurentino Gomes em seus livros: Índios + colonizadores + escravos = Brasileiros…A nossa base parece que não foi das melhores. Más houve progressos e nesse balaio de gatos malemolentes muitos se destacaram e temos muitas cabeças pensantes, porém não muito atuantes.
    Creio que nossa educação foi incompleta e neste sentido o Brasil desigual dividiu oportunidades. Não somos todos iguais e se me permite Excelência…nem perante a Lei!
    Nas Famílias tradicionais sempre há muitos destaques,. Más nas desregradas um ou outro também se destacam, surgindo dali também pessoas que fazem a diferença, inclusive comportamentalmente.
    O cidadão de bem está fazendo sua parte. Será que o Estado está fazendo a parte dele? e nem questiono se bem?
    Exercer Cidadania, ou ser tratado com urbanidade e respeito está cada vez mais longe de se observar no cotidiano. Nós nos damos o respeito más parece que impera a Lei das selvas, salve quem puder!
    Concordo. É preciso pensar, repensar e agir, tomar atitudes tanto os Homens do Direito e se deve incluir aqui os Homens da Educação; para juntos criarem um novo ambiente de “Nação Soberana, Ordeira, Ética e Progressista” ainda que tenham de ser revolucionários do saber, guerrilheiros da concórdia, soldados da transformação, ou seja um exército que poderá vencer esta guerra, ainda que para as gerações vindouras.
    Pois nossa geração está perdendo uma batalha atras da outra e permitindo a desesperança, e não se trata de pessimismo.
    Como cessar nossa insatisfação? Nossa impotência? Nossa inercia?
    Me resta fazer coro com o comentário de Cesar F. Cury…..
    Perdoem-me a falta de moderação, a gramática ruim, e as marteladas em nossa língua pátria.

  4. Parabéns pela matéria “Para onde vamos (05/11/2014)”, publicado no Estadão on line. Tudo que foi escrito retratou magistralmente a situação em que nos encontramos. Agora temos que nos mobilizar para por em prática nossos ideais, mobilizando nossos representantes (tanto os deputados como as associações de classe dos servidores e magistrados), tudo obviamente com moderação e equilíbrio emocionais. Conte conosco.

  5. HISTÓRIA, FILOSOFIA, E O ENSINO RELIGIOSO COMO NECESSIDADE PARA UMA EDUCAÇÃO DE BERÇO
    Eu não compreendo como insistem em descontextualizar a história da filosofia e vice-versa. Eu digo isto porque saio aqui em defesa do ensinamento, não obrigatório, mas cada vez mais necessário do Ensino Religioso nas escolas sejam públicas ou privadas, pois vivemos em uma sociedade de consumo, de cultura de massa, tecnicista, superficial.
    Somos bombardeados cotidianamente nas mídias por comerciais para comprar, comprar, comprar, consumir, consumir, consumir…Este processo devastador de nossas Consciências do que seja Virtude, de nosso entendimento de que seja uma vida Honesta, tudo isto torná nos seres primitivos e desprezíveis.
    Acredito que o ensino Religioso nos trará de volta conceitos que hoje cada vez mais parece pueril, nos soa como algo frágil, como daqueles bobos que creem em Deus. O religioso enxerga o milagre, o cético crê só no que vê exterior, como se só existisse o corpo, a matéria e a alma renegada ao obscurantismo da Idade Média.
    Penso que não podemos descontextualizar a história com a filosofia e vice-versa. Neste sentido, estudou-se muito Karl Marx, Freud e Nietzsche nos séculos XIX e XX, e ainda estuda-se muito, e ainda muito serão estudados porque entre suas teses e antíteses, eles estão na história dentro do contexto deles, e estarão eternamente em nosso inventário do conhecimento e de nossa necessária ciência.
    Mas, hoje, dentro deste mundo materialista, precisamos mais de Filósofos contextualizados para combater esta realidade torpe, de banalidade da vida, onde não fazemos mais distinção entre altruístas e egoístas, onde o império da Ciência ignora a Deus, a ponto de querer transformá-lo em uma partícula do microcosmo, ou anulá-lo na natureza do macrocosmo.
    Por tudo, na Filosofia, mais que nunca, precisamos de Filósofos como René Descartes, Rousseau e Kant que se harmonizam mais com esta realidade, para mudá-la, porque estes não romperam, como muitos fizeram, com a religião, mas convergiram ou souberam conciliar a Ciência e a Filosofia com o mundo Espiritual.
    Portanto, hoje, Descartes, Kant e Rousseau entram e se fortalecem mais para a transformação desta sociedade, para curá-la deste mundo compulsivo do consumismo como valor supremo, tudo, para fazer voltar o homem às virtudes religiosas, à moral e à Ética.
    A Educação de Berço somente voltará quando os homens se voltarem para Deus. Com o ensino religioso desde a infância estaremos encurtando esta passagem do homem materialista para um homem com a perfeita noção de Ética, de Moral, e Virtude, de tudo aquilo que hoje nos parece tão pueril, como o contraponto da humildade à soberba; do egoísmo à caridade; do amor ao próximo ao ódio e à destruição; do pensamento positivo à depressão; do resgate da Espiritualidade, da Fé e da Esperança, ao império da Ciência; do Espírito Leve, o Sono dos Justos, à riqueza mundana para sustentar sistemas econômicos falidos.
    Como Max Weber disse uma vez, todo filósofo, cientista das ciências sociais, deve se conformar com a temporalidade de suas teses, porque filhas são todas da história, das experiências humanas, portanto sujeitas à sorte de sua inexorável finitude, o que não significa à sua extinção definitiva, mas à revisitação constante e necessária, e é neste sentido que está a sua essência de eternidade, pois está no passado, na nossa memória, na nossa história, onde está nossa possibilidade de reinventar o presente e transformar o futuro, nos dando força e indignação e senso crítico para fazer este resgate da educação de berço, recuperando este passado esquecido.
    Eu creio no que acredito, esta é a origem da Esperança e da Fé, do ser antes do ter, do mundo espiritual antes do material. Da Religião, de Deus, antes, muito antes daquilo que pensamos ou que entendemos, e muito mal entendemos do que verdadeiramente seja a Ciência.
    Porque não é só da Ciência que vem a Educação de Berço, mas muito antes dela foi do Ensino Religioso que a educação de berço nasceu. Ao contrário do que muitos pensam.
    Se não resgatarmos aquilo que perdemos lá atrás, não mais viveremos um futuro com dignidade, mas reproduziremos este materialismo falido, condenando as próximas gerações num mundo de expiação, de tristezas, de desumanidades, de pessimismos, abandonando o dom da Utopia, dos nossos ideais, sonhos e desejos de mudança, de capacidade de indignação, em fim, de nos darmos a chance de sermos protagonistas da nossa história e não simples coadjuvantes dela.

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