Blog do Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

Água ou álcool?

3 Comentários

Adverte o engenheiro Arlindo Falco Júnior (FSP de 17.12.14, p.A3) sobre um fato que a população desconhece. Somente 10% da água consumida é para uso direto das pessoas. 20% vão para consumo industrial e 70% para a agricultura. Dir-se-á que tudo, no final, converge para atender a necessidades humanas. Mas é preciso cotejar o custo-benefício desse gasto.

São Paulo tem 4,5 milhões de hectares plantados com cana de açúcar. Quase 20% do território paulista. Fenômeno constatável a olho nu. Tanto que já escrevi sobre “cana & cana”, pois a separar um canavial de outro existe um presídio. Para produzir essa cana, foi necessário despender 78,2 bilhões de metros cúbicos de água, enquanto a chuva foi de 50,9 bilhões. Houve um déficit de 27,3 bilhões de metros cúbicos de água. Como faltou chuva, extraiu-se água do solo, do lençol freático, da umidade do ar, dos rios e cursos d’água.

Ainda se usa a nefasta queima da palha para colher 780 mil hectares do plantio. Método que, segundo Arlindo Falco, “exaure a umidade do solo, depredando os recursos hídricos”. Considerado também o consumo de água nas usinas, chega-se a uma pegada hídrica de 2.100 litros para produzir um litro de etanol. Resultado: quando alguém abastece o carro com 40 litros de álcool por semana, utilizou no transporte 84,3 mil litros de água. O que é mais vital para a subsistência da vida: o álcool ou a água?

Muitos diagnósticos foram feitos e, como sempre, a imprevidência é a regra num Brasil de “malfeitos”. Um continente com tanto sol, poderia investir mais na energia solar. Uma costa de 8,5 mil quilômetros poderia pensar em energia das marés e em matriz energética eólica.

Mas o imediatismo e a limitação intelectual enxergam apenas o lucro rápido. Vamos continuar a fazer mais do mesmo. Continuemos a acabar com as poucas matas nativas, enterrar os cursos d’água. Dizimar a mata ciliar. Poluir os rios. Preservemos a “coivara”, o arcaico e criminoso método da queimada.
Quando estivermos com sede, bebamos álcool. Ele serve também para higienizar, já que os banhos com água se tornarão a cada dia mais raros. Burra e irresponsável humanidade!

JOSÉ RENATO NALINI é presidente do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo para o biênio 2014/2015. E-mail: jrenatonalini@uol.com.br.

Anúncios

Autor: Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

3 pensamentos sobre “Água ou álcool?

  1. Outro ponto a ser considerado é a válvula “hydra” de descargas.
    Esse dispositivo deve ser banido do mercado e substituído pelas caixas com duplo estágio de acionamento, como as utilizadas em muitas casas americanas.

  2. Cada vez mais os artigos e as notícias nos causam choques e é um bom caminho para que as pessoas vejam o que estão fazendo inadvertidamente e exercitem a cidadania.
    Li a pouco tempo que as queimadas foram proibidas, mediante um TRC ou o calendário não será cumprido?
    Não se consegue mudar velhos hábitos de intelectuais, o que dizer de pessoas que recolhem folhas e põe fogo, varrem as calçadas com mangueira, consomem refrigerante no lugar da água, não participam da coleta seletiva, não descartam materiais conscientemente, jogam lixo na rua, furam fila, não respeitam regras básicas de convivência?
    Quantos hectares temos de eucaliptos plantados?
    Quantos metros cúbicos de água são utilizados para produzir chapas e papeis?
    Quantas montanhas florestadas são dizimadas para produzir os insumos básicos da construção civil e da siderurgia?
    Indiretamente participamos destes crimes!
    A sustentabilidade é utópica, só os pequenos e conscientes consumidores conseguem aplicá-la.
    Aquela máxima “do berço ao túmulo” é uma das mentiras mais lavadas que se tenta vender aos incautos .
    Quanto se falar de investimentos, há que se perguntar: O que faz o Estado? O Ministério de Ciência e Tecnologia por exemplo!
    Com certeza se houvessem políticas e investimentos neste setor, para não falar de outros, certamente a iniciativa privada daria sua contribuição para um Brasil melhor e faria um melhor uso da energia solar, por exemplo: a Alemanha já desenvolveu sistemas que permitem a auto gestão e produção de energia residencial e ainda devolve excedente para a concessionária., e veja que eles tem menos dias ensolarados e as temperaturas lá nunca chegaram a 40º como estamos observando aqui.
    Não se trata apenas de lucro, trata-se de retorno de investimentos!
    Precisamos separar especuladores de empreendedores, investidores de oportunistas, empresários de predadores e assim por diante.
    Somos como dizem a periferia do mundo, e nela demora para chegar o progresso insustentável, que dirá a sustentabilidade!
    Não se pensa no Brasil a longo prazo, é só perguntar a um gringo quanto ele ganha e ele responderá x por ano., o Brasileiro responde que ganha y por hora. Um jovem que abre uma pequena empresa espera que seu investimento retorne em seis meses!
    O Brasileiro examina as questões com superficialidades, não se aprofunda em nada, não estuda, não planeja.
    E a economia mundial sabe disso e explora principalmente os BRICS, Ex: Por que no passado compramos usinas nucleares obsoletas da Alemanha? Equipamentos bélicos inservíveis? Por que compramos motores diesel até hoje que são proibidos na Europa? Em resumo quando o primeiro mundo está na ultima geração das tecnologias, precisa se desfazer das antigas e aqui é o paraíso!
    Agora somemos a este cenário nefasto a CORRUPÇÃO e os CORRUPTORES, INCOMPETÊNCIA e MÁ GESTÃO, IMEDIATISMO e IGNORANCIA, INERCIA e DESCASO…….
    Quanto aos crimes ambientais….o rigor é para o lavrador que levou sua parreira de uva até ás margens do córrego e que suprimiu a citada mata ciliar e não respeitou os 30 metros de APP, e ele nem sabe que em Jundiaí na área rural tem mais 15 de APP hídrica!, para aquele aposentado que bosqueou sua chacrinha…
    Agora o grande predador ambiental passa batido, suprime a floreta e as nascentes e os córregos, descarta efluentes nos rios, lança partículas indesejáveis na atmosfera, provoca ruídos, muda a paisagem, produzem produtos impróprios para o consumo humano etc etc.
    Para finalizar, e com o perdão pela pobreza de vocabulário, no campo da energia eólica, já não se usa mais aqueles rotores do tamanho de um ônibus e aquelas hélices de 32 metros de comprimento! E em Governos sérios, primeiro se leva ao local os cabos de distribuição e transmissão para depois se construir o parque eólico……..
    E pegando a onda, podemos vestir uma camisa com os dizeres: je suis meunier! ou Nou sommes ventouses!

  3. Professor, adoro seu blog!! Sempre entro aqui para ler suas interessantes colocações. Acho maravilhoso ver sua preocupação com vários aspectos da sociedade, não só o jurídico. Hoje, especificamente, quero deixar meu comentário sobre um artigo que li aqui outro dia, qual o sr. expôs (com muita propriedade) o problema da morosidade nos processos judiciais, a quantidade absurda de processos em trâmite no TJSP e demais tribunais, bem como, a cultura brasileira de “judicializar” tudo. Penso que um dos muitos motivos de tanto se “entrar na justiça” no Brasil decorre do nosso sistema de custas processuais. Atuo como advogada e o que vejo são muitas pessoas que entram na justiça “por entrar”, já que não tem nada, ou quase nada, a perder. Digo isso, pois grande parte dos processos tem custo zero para as partes autoras que gozam da assistência judiciaria gratuita sem, na maioria das vezes, fazer jus a esse benefício. Como não há rigor na fiscalização do preenchimento dos requisitos à satisfação desse benefício, vejo muitos processos que figuram partes autoras plenamente capazes de suportar as custas do processo. Em contrapartida, naquelas ações que não há esse benefício e o valor da causa é alto, as custas judiciais se mostram extremamente onerosas. Penso que deveríamos rever nosso sistema de cálculo de custas processuais, passando para o usuário um valor mais correspondente ao serviço prestado. Penso também que tem de ter maior rigor na análise dos requisitos para a concessão da assistência judiciaria gratuita, sob pena desse instituto ser usado por aqueles que veem o judiciário como uma loteria. Por que nossos impostos tem que arcar com toda e qualquer ação proposta na justiça? Não vejo um porque. Se a população não usa o judiciário com propriedade, conforme os fins para o qual foi criado, a lógica seria mudar o sistema que ai se encontra. Como o senhor referiu aqui em outro artigo: nada de graça! A assistência judiciária gratuita é mais uma das “bolsas” do governo. E como as outras, pelo que tenho visto, também tem sido mal utilizada, causando malefícios em todo o setor.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s