Blog do Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

Celebrar São Paulo

4 Comentários

Celebrar São Paulo é celebrar a coragem. Desde os primeiros que venceram o desafio de escalar a Serra do Mar, a grande muralha verde que separava a orla do Planalto, até os sobreviventes do século XXI.

Viver em São Paulo exige destemor e audácia. Destemor para enfrentar um trânsito caótico, de uma cidade que se viu mutilada para servir ao ideal automobilístico e deixou desaparecer seus cursos d‘água, suas várzeas, sua flora e sua fauna. Audácia para permanecer nesta insensata concentração de milhões de pessoas, tantas delas ainda sem inclusão no mercado e no banquete capitalista.

Celebrar São Paulo é ter orgulho de sua gente. Dos nativos aos adventícios. De José de Anchieta e Manoel da Nóbrega, a Bartolomeu Bueno, que não quis ser rei, Fernão Dias Paes, até chegar a Airton Senna e aos anônimos motociclistas mortos no trânsito e transformados em cifras nefastas da contabilidade da morte.

Celebrar São Paulo é ter saudades da garoa, das praças limpas, onde não havia o atestado presente da miséria humana, da polidez e elegância discreta de seu povo, de civilidade e boa educação de berço. Tudo tão em falta no varejo da mediocridade. São Paulo, onde tudo é imenso, a superar todas as previsões e que um dia recebeu a ordem – São Paulo tem de parar – no polo oposto da arrogância do São Paulo não pode parar.

São Paulo não obedece às ordens, nem ao planejamento, pois o seu povo continua bandeirante. Apenas com a multiplicidade de bandeiras, cada qual com seu dístico, sem convergência e sem rumo.

A Justiça continua a funcionar em São Paulo, a despeito da insuficiência crônica de orçamento, atenta às insuperáveis dificuldades postas ao Poder Público numa era de incertezas. A despeito da falta d‘água, da carência de energia elétrica, da imprevisibilidade das manifestações e da generalizada insatisfação que é o sintoma de uma era de abundância de preocupações.

O Tribunal de Justiça de São Paulo, na antevisão dos dias difíceis que viriam, estimulou o home office, os julgamentos virtuais, o resgate da autoestima de todos os que fazem o Judiciário caminhar, ainda que a enfrentar intempéries.

Para amenizar o sofrimento de quem vivencia momentos preocupantes desta metrópole, armou-se da poesia de Paulo Bomfim, o mais emblemático dentre os poetas paulistas e paulistanos, a nos recordar – de forma contínua – que esta insólita metrópole precisa de um remédio urgente: o amor de quem nela vive e de quem não tem o privilégio e o surpreendente milagre de nela conseguir sobreviver.

Feliz aniversário, cidade de São Paulo!

JOSÉ RENATO NALINI é presidente do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo para o biênio 2014/2015. E-mail: jrenatonalini@uol.com.br.

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Autor: Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

4 pensamentos sobre “Celebrar São Paulo

  1. Já deixou de ser metrópole, é uma Megalópole; é orgulho dos bandeirantes da “ordem e Progresso” do qual me incluo como bandeirante do progresso, Viva São Paulo!

  2. São Paulo de todas as populações² e nações² e, muitas vezes não tão de de seu povo² e cidadãos² – Isso por motivos muitos. Parabéns, cidade mãe.
    ________________________________________
    ² Termos usados na acepção jurídica, sociológica e/ ou política.

  3. Renato,muito boa sua homenagem a São Paulo. Tenho tambem muito orgulho de ser paulista,alias típico,pois levanto as 5:00 todos os dias e as 6:00 entro na Marginal do Tietê,ja lotada de carros indo para o trabalho ! Continuamos construindo nosso pais !

  4. Quem texto perfeito!

    Estou tentando ler dos antigos. Conheci seu blog em março deste ano. Aproveitando a tarde tranquila aqui, estou lendo essas maravilhas mais antigas.

    Parabéns pela perfeição. Nasci em SP, embora meus pais não, e tenho comigo 50% do Nordeste + 50% do interior de SP de mãe. Amo aqui, e os meus pais também.

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