Blog do Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

Ter carro é brega

19 Comentários

Essa é a atual postura do jovem norte-americano de nossos dias. Ao menos daqueles mais conscientes de que se continuarmos na volúpia da velocidade ao volante, o futuro será ainda mais preocupante do que já se anuncia.

O Brasil cometeu o pecado mortal de abandonar as ferrovias, eficientes e não poluentes, e adotar a cultura automobilística. As cidades foram convertidas em espaço privilegiado para o carro e em inferno para as pessoas. Em lugar de priorizar o transporte coletivo, especializamo-nos em rodovias e em autovias. Veja-se, por exemplo, a Bandeirantes. Quando construída, a largura entre os leitos carroçáveis se destinaria ao maior espaço verde contínuo do mundo. Aos poucos essa área foi virando mais pistas. Anuncia-se com orgulho a quinta faixa e ninguém mais fala em verde.

Houve tempo recente em que todos deveriam ter o seu “carrinho”. Daí o estímulo à aquisição de veículos populares em prestações mensais. Até 72 meses de financiamento! Quando terminava de pagar, o pobre adquirente já precisaria ter outro carro. E quem pudesse deveria adquirir um segundo, para fugir ao rodízio.

Resultado: o flagelo dos congestionamentos. Todos os dias e a qualquer hora. Os acidentes de trânsito que ceifam vidas úteis e enlutam famílias. O estresse, a exaustão, a perda de paciência e de alegria de viver.

Nos Estados Unidos, que foram nossa inspiração para esse culto ao carro, a população fanática por automóvel está envelhecendo. E os jovens dizem, de verdade, que “ter carro é brega”. Cenário perfeito para a criatividade de tecnologia destinada a mobilidade urbana. Quem já ouviu falar do “Uber”? É um aplicativo para “caronas” profissionalizadas: articula motoristas em carros executivos, espalhados pela cidade por meio de algoritmos. O lema da empresa é “fazer com que ter carro seja coisa do passado”. Isso funciona em conjugação com a blitz do consumo etílico. É muito melhor ir de carona ou de táxi do que dirigindo seu carro, se você vai consumir bebida alcoólica.

Tomara que o hábito de copiar os americanos seja preservado também para reduzir a aquisição e o uso do automóvel. Vamos incentivar o uso de ônibus, metrô, bicicleta. Andar a pé faz bem à saúde. E devolvamos oxigênio ao misto gás poluente que respiramos todos os dias.

JOSÉ RENATO NALINI é presidente do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo para o biênio 2014/2015. E-mail: jrenatonalini@uol.com.br.

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Autor: Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

19 pensamentos sobre “Ter carro é brega

  1. Nas cidades do interior, o juiz e o promotor poderiam a dotar a bicicleta como meio de transporte. Seria um ótimo incentivo a todos vendo o mais alto posto do poder judiciário e do defensor do estado contribuindo para o meio ambiente. Se eu chegar lá, a primeira coisa que farei seria isso.

    Já imagino minha bike dobrável e meus protetores de barra de calça social seguindo pelas ruas interioranas a caminho do Forum. Ao fundo, além do som de minhas pedaladas, sussurro do utente local: “olha esse é o juiz?!”

  2. Caro João Batista, não esqueça do protetor solar e quando chegar lá… se for em Itatiba, Bragança e outras cidades com grandes aclives, sua bike precisará de 30 marchas ou ser elétrica, além de você ser um atleta, as salas dos juízes e promotores deverão ser suítes!, pois você precisará de banho e de um guarda roupas!

    • Correto. Obrigado pelos comentários. Sou de Amparo, Serra Negra, Pedreira, etc. Aqui temos ladeiras, muito embora a extensão territorial urbana não passe de 5 Km.

      Me permita uma sugestão. Nas ladeiras, um pouco de marcha ou sair do banco não faz mal a ninguém. Além disso, vale a pena estudar os veículos híbridos.

      Contudo, não faz calor o ano inteiro. Para os dias quentes uma sugestão mais elementar: basta o chegar as 6:00 da manhã no Forum ao por do sol. Dificilmente o suor superará a validade do perfume.

    • A ideia das salas suítes são um tanto bizarras, mas me lembram de uma solução já aplicada por muitos prédios paulistanos: um vestiário com duchas aquecidas e armários para que os trabalhadores locais que venham de bicicleta ou correndo possam chegar ao trabalho cheirosinho. Soluções sempre são possíveis: só é preciso aprender a pensar coletivamente.

  3. Quanto ao “Ter Carro é Brega” os americanos sempre se orgulharam de poder usar os carros grandes sem se importarem com o consumo de gasolina. Os jovens americanos de hoje talvez tenham uma coisa que falta muito nos Brasileiros: ‘ATITUDE’.
    Outras coisas deveriam ser bregas aqui: Desperdiçar água por exemplo., eleger corruptos, não discutir os grandes temas nacionais….
    Ah deveria ser brega também atacar a soberania de países… e achar que são a policia do mundo é “Brega no urtimo!.”

  4. A afirmativa feita pelo Excelentíssimo Presidente do TJ/SP, Dr. José Renato Nalini, não me parece a mais harmônica.
    Vejamos a expressão “brega” no dicionário.
    Tal adjetivo está exposto como “de mau gosto, caipira”…
    Ter um ou mais carros, importados, automóveis deveras belos, nos transporta a cidadãos de provável poder aquisitivo, e que dotados de recheada conta corrente,
    porém sem intelecto tal qual às finanças, necessitam desfilar em seus carrões, atributos que eles incorporam em seu EU.
    Os proprietários destes
    carros jamais teriam equilíbrio emocional para
    aguardar passar à sua casa a “carona”, onde dividiria um veículo entre 03 ou até 04 colegas que se dirigem ao mesmo local.
    Por exemplo, funcionários de uma mesma empresa, que adentram e saem no mesmo horário, sensato, lúcido e econômico seria que utilizassem um único automóvel, em sistema de rodízio.
    Agora, vamos para o lado da auto estima deste nosso motorista.
    O que seus vizinhos vão pensar de suas finanças, ao vê-lo entrando em “comboios” ?
    A geração de 40 anos creio sem solução, pois a burguesia está enraizada em suas entranhas.
    Já, os jovens com 30 anos é digno de prazer ser mãe de um deles.
    Ainda que pai e mãe desejassem dar-lhe um automóvel para seu uso, dando-lhe mais opções de lugares de lazer, ele não aceita.
    Eles sim acham bregas ter carro na garagem.
    Utiliza ônibus e um trecho no metrô para chegar ao serviço todos os dias, com frio ou calor.
    Nem sentem o tempo passar porque nas mãos está o celular com todos os recursos. Vivem bem na alimentação sadia, lazer cultural, ideais próprios e fortes.
    A eles sim, podemos valorizar, investir, é a geração de brasileiros conscientes de seu valor real, não nos bens materiais que acumulam.

    Diante do depoimento de uma mãe, posso afirmar esta geração linda que fez Universidade pública (USP), trabalha desde 2009 em Sampa, no mesmo emprego

  5. Presidente José Renato Nalini,

    Mais brega que um indivíduo ter carro é um Tribunal de Justiça ter 500 carros para o transporte de magistrados.

    Aos olhos da população, carros oficiais são as liteiras do nosso tempo, nas quais os contribuintes carregam, com seus impostos, membros de um poder que mais se assemelha à nobreza.

    O descrédito das pessoas com as instituições é causado por privilégios como esse, herdado de época anterior à República.

    Assim, considerando que o senhor busca “redesenhar o Judiciário do futuro”, proponho que venda os 500 veículos institucionais e aproveite o quadro de motoristas em atividades úteis para os jurisdicionados.

    Com a economia de recursos, sugiro que pague o Adicional de Qualificação previsto nos artigos 37-A e 37-B da Lei Complementar nº 1.111/2010. Além de incentivar o aprimoramento dos servidores, o pagamento dessa verba é imposição legal, sendo desnecessário dizer que o Tribunal de Justiça não pode agir na ilegalidade.

  6. Pingback: sete mil obrigados! | as bicicletas

  7. Pingback: Você viu!? (#1) Bicicletada "Vai ter Ciclovia" na Av. Paulista - 27/03/15 - Vida de Aquiles

  8. É a nossa tal “síndrome de novo rico”. Só dará para corrigir nas próximas gerações brasileiras. Pena que de nossa descendência europeia não herdamos a ideia de que “ser” é melhor do que “ter”.

  9. Parabéns pelo texto e nível de esclarecimento.
    Concordo apenas com o comentário acima: vagas e carros oferecidos serão sempre um grande estímulo para adotarmos os carros.
    O poder público tem total capacidade de mostrar sua vanguarda e diminuir paulatinamente o número de vagas oferecidas para seus funcionários.
    saudações do Rio,
    Gabriel

  10. O Brasil acompanhava o estilo de progresso europeu, até que, no início do Século XX, deu uma guinada e passou a imitar o Tio Sam. Como resultado, tivemos quilômetros de ferrovias abandonadas em troca de carretas nas estradas, cidades inteiras passaram a ser conspurcadas por viadutos e avenidas, e os metrôs possuem linhas apenas simbólicas, na contramão no mundo civilizado. As cidades brasileiras são feitas pensando nos carros, e não nas pessoas. Estamos totalmente errados.

  11. Muito obrigado por entender essa geração

  12. Top demaais, esse texto. Não consigo imaginar uma cidade moderna, sustentável e desenvolvida valorizando uma futura cultura dos automóveis motorizados individuais. No mundo todo – países desenvolvidos – o transporte vem se democratizando. Fora o fato da Promotora ser totalmente despreparada. Nem o CTB direito, ela conhecia!

  13. Gostei da teoria. Seria possível aplicá-la no Brasil? Temos transporte de massa de qualidade e em condições de proporcionar essa substituição? E as “Uber” funcionariam aqui onde o carro bonito é sinalizador de status? O poder público, para dar exemplo, também adotaria essas medidas? Isso é utopia, pela nossa formação e cultura. Precisamos de muita educação. Infelizmente nossos governos, até por interesse, estão longe de proporcionar isso à população. Tomara que eu esteja errado. Gostaria de um admirável Brasil novo.

  14. Renato, seu texto me enche de esperança… Ando há 19 anos de bicicleta por São Paulo e nunca ouvi palavras tão modernas vindas de sua classe. Muito obrigado pela ética e presença de espírito perante questão tão massacrada e distorcida pela opinião média. As corporações precisam de um contraponto elegante. Uma resposta mais inteligente e ecológica da sociedade se faz urgente! Parabéns!

  15. Pingback: Se liminar não caísse, prefeitura de São Paulo poderia estar impedida de concluir as obras até final de 2015 – diz advogado | Página da Rachel

  16. Excelentíssimo Senhor,
    Gostaria de te agradecer imensamente por sua postura mediante a ação assassina da promotora Camila Mansur do MPSP.
    Sou ciclista há 4 meses e comecei a pedalar por causa das ciclovias. Já fui fechada várias vezes onde não tem ciclovia e vc devolveu esperança aqueles que optaram por um transporte sustentável!
    Meu muito obrigada

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