Blog do Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

Comer com as mãos

4 Comentários

O hábito de comer com as mãos, ainda em uso no Oriente, é antigo e sempre foi considerado o mais civilizado. Há alguns anos, em visita a Cortes Judiciais na Venezuela, almocei com um grupo de magistrados e estranhei que eles se servissem da salada com as mãos. Mas o faziam com naturalidade. Eram pessoas escolarizadas. Levar os alimentos à boca usando as mãos e não os talheres é muito mais tradicional do que o uso dos instrumentos que hoje consideramos obrigatórios.

Os napolitanos comiam espaguete com as mãos. O garfo tinha só três dentes e não conseguia prender o macarrão. Antes disso, teve só dois dentes: servia para segurar o alimento enquanto era cortado. O garfo era usado no Oriente e chegou à Itália há mais de mil anos, quando a princesa Teodora de Bizâncio se casou com Domenico Silvio, doge de Veneza. Quando chegou, a Igreja o considerou pecaminoso. São Boaventura (1221-1274) o chamou “castigo de Deus”. Sua forma lembrava o “forcado” com o qual o diabo aparece na iconografia clássica. O alimento, dádiva divina, não precisava de utensílios para ser levado à boca.

Em Paris, o garfo integrou o enxoval de Catarina de Médicis, no século XVI. Ao se casar com Henrique II, mudou-se para a França e foi com o faqueiro completo. Não conseguiu fazer com que o garfo tivesse aceitação. A população o considerava uma sofisticação desnecessária. Os cozinheiros ajudavam a vetá-lo, dizendo que o metal interferia no sabor dos alimentos. Só no reinado de Henrique III, filho de Catarina de Médicis, é que ele se disseminou.

Hoje, aquilo que consideramos natural e obrigatório, nem desconfiamos tivesse uma epopeia antes de se tornar algo comum e rotineiro. Assim acontece com inúmeros outros hábitos. Algo interessante, no reino da etiqueta, costuma chocar as mulheres. O “ladies first”, a gentileza de se permitir prioritariamente a passagem à mulher, surgiu do egoísmo do macho.

Ao voltar à caverna, não sabia o que encontraria: talvez inimigos, ou feras.
Então fazia com que a mulher entrasse primeiro, pois seria a vítima ou a certeza de que não haveria perigo. Esse gesto de polidez, hoje muito ignorado pela juventude e até por adultos, começou por um motivo pouco nobre. São aspectos da exuberante e surpreendente cultura humana, sempre em evolução. Ou em “involução”? Escolham!

JOSÉ RENATO NALINI é presidente do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo para o biênio 2014/2015. E-mail: jrenatonalini@uol.com.br.

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Autor: Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

4 pensamentos sobre “Comer com as mãos

  1. Alimentar-se fazendo uso de nossas próprias mãos é um hábito que consigo apenas ao comer a salada “tabule” com o pão sírio cortado em sua metade, formando uma espécie de concha onde prendemos a salada para ser levada à boca.
    Idem com humus, pasta feita de grão de bico, devidamente temperada com especiarias.
    No mais, não visualizo degustar um delicioso feijão com caldo,sendo seguro apenas pelos dedos.
    Embora as sopas na Itália eram servidas em um pão redondo,formato de uma tigela, quando ao final da refeição digeridos tinham sidos a sopa e o pão de crosca grossa.
    São costumes e que, se necessário, acabaremos por usar com primor
    Não olvide Exa., desembargador José Renato Nalini que quando dos apetitosos lanches da rede Mac Donald’s devoramos com as mãos, mesmo pq o guardanapo de papel é de péssima qualidade, desfazendo ao ser tocado.
    E qual de nós já não lambeu os dedos para para perder a mostarda e o catuchup derramado. Estamos dispostos a qualquer mudança, somos móveis em nossos usos e costumes.
    Detalhe: citei lanches da linha MC Donald’s apenas para ilustrar, porque nascida na terra do sanduíche Bauru, não há como trocar.

  2. Como sou mais “gago” que o Marcos em seu comentário no post anterior, vejo que sempre o tempo é o senhor da razão e é uma pena que aqui nos trópicos o lapso temporal das razões costuma ser centenário, que é mais ou menos o tempo que se leva para que surjam algumas boas cabeças como Ruy Barbosa” . A evolução é sempre retardatária aqui na periferia do mundo, logo quando nações estiverem comendo com talheres e aqui estivermos comendo com as mãos e nos dermos conta e tentarmos nos adaptar, certamente o mundo terá aperfeiçoado os talheres.
    Do jeito que estamos assistindo a tudo passivamente, logo abandonaremos o guardanapo de papel, o garfo e a faca, o prato, o copo e voltaremos a comer com as mãos, e quando alguém se sentar á mesa ao nosso lado e observar este comportamento, não entenderá que é da nossa cultura.
    Ainda estão tentando nos presentear com espelhos, só que agora temos intermediários, representantes e estes querem uma parte cada vez maior, e pior: sem nosso consentimento., simplesmente por que ficamos calados, omissos e inertes.

  3. Renato, parabéns pelo blog.
    Há alguns anos eu vi um filme estrelado pelo William Hurt em que numa das cenas ele, a mulher e a filha (se não me engano) estão em casa jantando spaghetti e todos estão comendo com as mãos.
    Depois disso eu pesquisei algumas vezes na internet sobre comer macarrão com as mãos mas até hoje o único lugar onde tive esta informação comprovada foi aqui no seu blog.
    Queria encontrar mais a respeito disso.
    Muito obrigado pelo esclarecimento.
    Boas festas para o senhor e tenha um excelente 2016!

    Rodrigo Antunes

  4. Eu como folhas comas mãos e sem temperos, mas somente em casa.
    E esse cavalherismo me surpreendeu..rs, nós mulheres sempre cobaia.
    Adorei esse artigo!!!

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